terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

2009, Ano Internacional da Astronomia

As Nações Unidas elegeram o ano de 2009 como o Ano Internacional da Astronomia com o tema "O Universo para você descobrir". O objetivo é despertar o interesse, principalmente do público jovem, para a astronomia e a ciência em geral. A UNESCO e a União Astronômica Internacional serão os principais responsáveis pelas comemorações e implantação das atividades.

Mas, por que 2009? Porque há exatos 400 anos, em 1609, Galileu Galilei fez a primeira observação astronômica utilizando um telescópio. O inventor do telescópio foi Hans Lippershey, holandês fabricante de lentes que, em 1608, construiu esse instrumento para observação de objetos à distância para fins militares. A notícia chegou a Galileu que se empenhou em desenvolver o seu próprio telescópio, também conhecido como luneta. Na imagem ao lado, as duas primeiras lunetas de Galileu expostas no Museu de História da Ciência de Florença. (As lunetas estão apoiadas diagonalmente).

A teoria de Copérnico de que o Sol era o centro do universo conhecido começou a ser divulgada a partir de 1529 através de um manuscrito. Em livro foi publicada somente em 1543, ano em que Copérnico faleceu; recebeu um exemplar da obra já em seu leito de morte. Esta hipótese heliocêntrica (já levantada em 300 a.C. por Aristarco de Samos) contrapunha-se à teoria geocêntrica (a Terra era o centro do universo) que tinha por base a física aristotélica e que foi consolidada por Ptolomeu na primeira metade do século II, em 140 d.C.. Assim, durante quase 14 séculos prevaleceu a teoria geocêntrica que veio a constituir-se num artigo de fé, confirmado por interpretações de passagens bíblicas (no Salmo 104:5 da Bíblia, está escrito: "Lançaste os fundamentos da Terra, para que ela não fosse abalada em tempo algum."). Copérnico não tinha como comprovar sua hipótese que era baseada em cálculos matemáticos.

Portanto, esta primeira observação astronômica feita por Galileu comprovou a hipótese levantada por Nicolau Copérnico, revolucionou o conhecimento científico da época e foi além, com profundas consequências culturais, sociais e religiosas diretamente no dia-a-dia das pessoas e da sociedade. Galileu observou as montanhas lunares e as manchas solares, os satélites de Júpiter, as fases de Vênus e o planeta Saturno. Os satélites de Júpiter foram a descoberta que desferiu o golpe derradeiro na teoria geocêntrica, pois mostra que a Terra não é o único centro para os movimentos; Júpiter também o era para seus satélites. Todas estas descobertas foram publicadas no livro "Sidereus Nuncius" ("Mensageiro das Estrelas"), em 1610.

Em 19 de fevereiro de 1616 Galileu é proibido pela Inquisição do Tribunal do Santo Ofício de difundir ideias heliocêntricas (vinha escrevendo em italiano com esse objetivo). Em 5 de março de 1616 a Congregação do Index colocou o Des Revolutionibus de Copérnico no Índice de livros proibidos pela Igreja Católica, junto com todos os livros que defendiam a teoria heliocêntrica, tendo como justificativa o Salmo 104:5 da Bíblia, supra citado. O modelo heliocêntrico foi condenado como "absurdo e herético" e a teoria do movimento de rotação da Terra como "errônea na fé". Em 22 de junho de 1633 Galileu é julgado e condenado por heresia e obrigado a negar (abjurar) publicamente suas ideias de que a Terra não é o centro do universo e que não é imóvel. Reza a lenda que, depois do julgamento, Galileu teria murmurado "eppur si muove" (contudo, move-se). Também é proibido de ter contato público e de publicar novos livros. Praticamente cego, termina o Discorsi e dimonstrazioni matematiche intorno a due nuove scienze, attinenti alla meccanica e I movimenti locali (Discurso das Duas Novas Ciências, Mecânica e Dinâmica). O livro é contrabandeado para a Holanda e publicado em Leiden em 1638. Este livro é considerado a obra fundadora da física moderna.

Somente em 1822 as obras de Copérnico, Kepler e Galileu foram retiradas do Índice de livros proibidos; em 1982, o Papa João Paulo II depois da visita à Universidade de Pádua, ordenou a revisão do processo contra Galileu. Esta revisão durou até 1999, quando a Igreja Católica finalmente decidiu por sua absolvição, 357 anos após sua morte.

Para termos uma ideia da importância das ideias de Copérnico e de Galileu, Sigmund Freud, sim ele mesmo, o descobridor da psicanálise, do inconsciente, no texto "Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise", escrito em 1917, propõe-se "a descrever como o narcisismo universal dos homens, o seu amor-próprio, sofreu até o presente três severos golpes por parte das pesquisas científicas". (são as feridas narcísicas) (vol 17 das obras completas - Imago, páginas 149 a 153).

1-Copérnico tira a Terra do centro do Universo; é o golpe cosmológico;

2-Darwin, com a Evolução das Espécies, publicado em 1859, questiona a ascendência divina da humanidade e tira o homem do centro da criação, demonstrando que também faz parte de um processo evolutivo; é o golpe biológico;

3-Freud, com a teoria do inconsciente; é o golpe psicológico. Nas palavras de Freud: "É assim que a psicanálise tem procurado educar o ego. Essas duas descobertas - a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes - (...), equivalem à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa. (...) Não é de espantar, então, que o ego não veja com bons olhos a psicanálise e se recuse obstinadamente a acreditar nela." (pp 152-3).

Portanto, se ainda fosse livreiro e depois destas "descobertas", passaria a ter um espaço, com destaque, dedicado a estes grandes pensadores, responsáveis por profundas transformações no entendimento do homem e do mundo; um tributo à ciência e ao conhecimento humanista.

Para terminar, em agosto deste ano de 2009, será realizada no Rio de Janeiro a Assembléia Geral da União Astronômica Internacional. Para ajudar na divulgação do tema, seguem alguns títulos da Zahar relacionados com o evento e com este ano especial:







A relação de todos os títulos da Zahar dentro do assunto ciência pode ser vista através do seguinte link.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Zygmunt Bauman

Lá se vão 11 anos desde o início da publicação das obras de Bauman no Brasil. O primeiro livro publicado foi O Mal-Estar da Pós-Modernidade em 1998 (edição original de 1997).

A partir de 10 de fevereiro de 2009 estará disponível nas livrarias A Arte da Vida, publicado em 2008 na Inglaterra. A venda acumulada dos 16 títulos já publicados pela Zahar está em 160.000 exs, o que é um número muito expressivo para um escritor (sociólogo). Certamente esse número representa sua capacidade de escrever e de ser lido por pessoas com as mais diversas formações acadêmicas, para além dos cursos de sociologia. Uma das comunidades no Orkut http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=58721 conta, neste momento, com 3.380 membros, muitos com formação e/ou escrevendo teses nas áreas de psicologia, economia, direito, história, sociologia etc.

No YouTube sua popularidade também é elevada, tendo em vista a quantidade de exibições de vídeos sobre ele e suas obras. Segue o link retirado do site da Zahar http://www.youtube.com/results?search_type=&search_query=Zygmunt+Bauman&aq=f

Mas afinal, quem é Zygmunt Bauman?
Bauman nasceu em 19.11.1925 na Polônia. Iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da Universidade de Leeds, cargo que ocupou até 1990. Após sair da Universidade de Leeds aumentou sua produção intelectual tendo publicado praticamente um novo livro por ano. Em 1998 recebeu o prêmio Adorno pelo conjunto da sua obra. (fonte: site da Zahar).

Ainda neste ano de 2009 a Zahar publicará mais dois títulos de Bauman. O próximo, Confiança e Medo na Cidade, está previsto para 24 de Março. Dentre os 16 títulos já publicados as maiores vendas são:
30 mil exs Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos
20 mil exs Globalização: as consequências humanas
16 mil exs Mal-Estar da Pós-Modernidade
16 mil exs Modernidade Líquida



Um de seus mais recentes êxitos de venda é Medo Líquido, lançado em janeiro de 2008 e que já foi comprado por 8 mil leitores.
Para saber mais sobre Bauman leia a entrevista realizada em 2003 por Maria Lúcia Pallares-Burke e publicada em 2004 na Revista Tempo Social da USP. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-20702004000100015&script=sci_arttext

O resumo é o seguinte: "Nesta entrevista, o sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre vários aspectos da "sociologia humanística" que pratica e também sobre momentos memoráveis de sua trajetória, desde a Polônia comunista até a Inglaterra neo-liberal de Tony Blair."

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sua Livraria Está na Web?


Não?!

Então anotem alguns números:

Usuários
01-O número de usuários de internet no Brasil só em residências chegou a 24,5 milhões em dezembro de 2008, segundo o IBOPE/NetRatings.

02-Somando-se todos os ambientes (residências, trabalho, escolas, lan-houses, bibliotecas, telecentros), e somente para pessoas com 16 anos ou mais de idade, o acesso foi de 43,1 milhões, no terceiro trimestre de 2008. Nos últimos meses, o aumento da quantidade de usuários ativos em residências vem ocorrendo principalmente entre pessoas adultas. Entre dezembro de 2007 e dezembro de 2008, o público com até 24 anos cresceu 7,5%, enquanto entre adultos com 25 anos ou mais de idade a evolução foi de 21,5%. (IBOPE/NetRatings).

03-Segundo pesquisa da ONU publicada no Estado de São Paulo, o país tem 39 milhões de usuários de internet, o que o torna o 6º no mundo em número de usuários. A liderança é dos EUA com 210 milhões de usuários. A China vem em segundo lugar com 162 milhões. No Japão são 86 milhões, 50 milhões na Alemanha e 42 milhões na Índia.

04-Em janeiro de 2006 o Brasil tinha 867 mil domínios registrados; três anos depois, em janeiro de 2009, o número está em um milhão e meio (precisos 1.553.205). No mundo são 174 milhões de domínios segundo a Verisign.

05-Ainda segundo o IBOPE/NetRatings "em dezembro de 2008, o tempo de navegação do internauta residencial brasileiro foi de 22 horas e 50 minutos, 4% menos que no mês de novembro e 0,7% menos que em dezembro de 2007. Com isso, em dezembro, a França ocupou a primeira posição entre os países medidos com a mesma metodologia, com 23 horas e 39 minutos, seguida pela Alemanha, que marcou 23 horas e 3 minutos de navegação por pessoa em residências."

Faturamento na web
01-Segundo dados, ainda prévios, da e-bit as vendas na web em 2008 chegaram a R$ 8.200.000.000,00 (8,2 bilhões), o que é um crescimento de 30% em relação a 2007. Os números finais estão para sair na 19ª edição do relatório WebShoppers.

02-No período de Natal de 2008 (considerado entre 15 de novembro e 23 de dezembro) livros, revistas e jornais somaram 18% nas vendas, seguidos de produtos de saúde e beleza (13%), informática (9%), eletrônicos (7%) e telefonia celular (5%). (e-bit).

Mercado do livro no Brasil
Com a compra da Siciliano pela Saraiva em 2008, o mercado do livro no Brasil entrou, definitivamente, num período de concentração que não terá volta. Para continuarem a ser competitivas, redes como Cultura, Fnac, Curitiba, Travessa, Vila dentre outras terão que abrir mais e mais lojas também. Assim, a concentração se acentuará e as pequenas e médias livrarias verão diminuir, a cada ano, a possibilidade de coexistirem fisicamente no mercado do livro. A concentração faz parte da economia do mundo atual. A cada dia tem-se notícias de fusões e incorporações nos mais diferentes tipos de negócios: siderurgia, alimentos, saúde, comunicações, automotivos etc, etc. Por que seria diferente no mercado do livro?

No Brasil a concentração começou pelas editoras. A editora Record inaugurou as compras: Bertrand Brasil (1996); Civilização Brasileira (2000); José Olympio (2001); Best-Seller (2004).

Em 1999 a editora Ática foi comprada pelo grupo francês Vivendi em parceria com a editora Abril. Em fevereiro de 2004 a Abril comprou a parte da Vivendi e passou a ser a sócia majoritária da Ática.

Em 2001 o grupo espanhol Santillana, que é o braço editorial do grupo Prisa, um dos maiores da Europa na área das comunicações, comprou a editora Moderna; em junho de 2005 comprou a editora Objetiva.

A Ediouro não ficou pra trás e também foi às compras: Agir (2002); Nova Fronteira; Nova Aguilar; Thomas Nelson (parceria); Desiderata (2008).

Portanto, de um lado temos uma concentração no setor editorial, ainda que pequena frente à quantidade de editoras no país e, de outro, uma concentração mais acentuada no varejo, nas livrarias. Como sobreviver (vale para editoras e livrarias) e até crescer neste novo cenário? No meu modo de ver uma das "saídas", se não a única, é pela web.

O pioneirismo (visionário) da venda de livros no Brasil pela web pertence à Livraria Cultura que, em 1995, inaugurou seu site. De lá pra cá muitas outras livrarias e empresas de e-commerce disputam a primazia no espaço virtual pela venda de livros. A concorrência é grande entre Cultura, Saraiva (e Siciliano), Submarino, Fnac, Americanas, Curitiba, Travessa, Vila, Martins Fontes dentre outras. Para se ter uma idéia da importância da web, via de regra, a loja virtual tem uma venda no mínimo igual à venda de uma das lojas físicas das livrarias citadas. Mas então, como uma pequena livraria pode querer vender pela web com tanta concorrência já instalada? Como vai disputar a venda dos best-sellers que são ofertados com descontos às vezes maiores do que o desconto comercial que essa pequena livraria tem?

Em 1995, nos meus tempos de Contra Capa, localizada em Copacabana, RJ, não tinha e-mail, não tinha internet, não tinha nem sistema gerencial na livraria; mas vendia para clientes em Manuas, em Aracaju, em Fortaleza etc, etc. E por quê? Porque o segredo do negócio não é ficar atrás do "balcão" e esperar que o cliente entre na loja; o segredo está em ir até o cliente; em fazer chegar a ele informações que possam vir a despertar-lhe a vontade de comprar um livro. Hoje em dia a web é a grande facilitadora para isso. Está aí, a um clique.

Vamos a um exercício prático: se você tem uma pequena livraria física ela está localizada em algum bairro de uma cidade grande, média ou pequena; não importa. Quem será seu público potencial? Muito provavelmente os que moram ou trabalham perto dela; digamos num raio de uns três quilômetros. Ah, mas sejamos generosos, pois existem clientes que se deslocam de um bairro pra outro pra comprar livros; digamos então uns 20 Km. Fique com esse número. O Brasil tem 8 milhões e meio de Km2 onde vivem as pessoas e você abre mão assim, facilmente, desse seu público potencial?

A outra questão levantada acima é que a pequena livraria não tem como disputar a venda dos best-sellers, devido aos descontos oferecidos na web; e best-seller é o que mais vende na web, certo? Errado! O que mais vende na web não é best-seller, ou talvez pra ser mais preciso, o que dá mais lucro não é o best-seller e, sim, os livros que não o são. Aliás, a maioria de qualquer tipo de produto que se pense, não é best-seller. Pense em filmes, em músicas, em carros, em pasta de dente, em feijão ou arroz etc, quantos chegam ao topo? Poucos, mas os que não chegam também vendem.

No caso do livro, posso exemplificar com o catálogo da Zahar. Clientes que têm venda pela web chegam a vender no ano cerca de 800 títulos diferentes, o que não acontece numa pequena ou média livraria física, e até numa mega, arrisco-me a dizer. E por quê? Porque tem livro que vende pouco mesmo; tem livro que interessa a pouca gente, mas interessa. E o importante, o fundamental, é que exista algum espaço onde ele possa ser encontrado e comprado. Pra quem ainda não conhece, já foi criado um conceito para definir essa venda de muitos itens com poucos exemplares de cada um deles:











Chris Anderson é o autor do conceito e também do livro de mesmo nome que foi publicado no Brasil pela editora Campus. Considero leitura obrigatória. É dever de casa para quem ainda não a fez.

Ao implodir as barreiras geográficas, a web vai impedir que ideias totalizantes e totalitárias dominem a sociedade ao possibilitar a circulação das mais diferentes ideias e valores culturais, seja através da venda de produtos que sejam seus suportes como livros, cds, dvds e/ou a simples troca de arquivos com essas ideias, com pagamento ou não de direitos autorias. Mas aí, já é matéria para discussão acalorada em outros posts.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Darwin, 200 anos

Charles Robert Darwin nasceu em 12.02.1809 e, neste ano de 2009, completam-se 200 anos dessa data. Seu livro mais conhecido, e o mais importante, A Origem das Espécies, também tem uma data de "nascimento" terminando em 9; fui publicado em 24.11.1859 e, assim, está completando 150 anos de existência. Atrevo-me a dizer que já é um dos clássicos da humanidade. Darwin, enquanto viveu, (faleceu em 1882), publicou seis edições em Londres num total de 18 mil exs; também viu seu livro ser traduzido para 11 diferentes línguas e tentou supervisionar todas essas edições.

A primeira edição de A Origem das Espécies foi publicada por John Murray. Segundo Janet Browne "era um volume de aspecto bastante comum, encadernado em encorpado tecido verde, com 502 páginas e o preço, um pouco salgado para o mercado de livros vitoriano, de 14 xelins - mais que o salário semanal de um operário naquela época." (pág 13) Esta primeira edição de 1.250 exs foi toda vendida aos livreiros no dia em que foi lançada.

Na foto acima, de 1860, Darwin está com 51 anos de idade.

Janet Browne, autora de uma biografia sobre o livro de Darwin, comenta que:
"Os textos antigos muitas vezes são recriados por novas formas de olhar, e parece que A Origem das Espécies de Darwin mostrou-se flexível na sobrevivência de suas principais propostas e meleável nas mãos de seus devotos. Pode ser visto, portanto, não como uma voz solitária a contestar deliberadamente as tradições da Igreja ou os valores morais da sociedade, mas como um dos eixos de transformação do pensamento ocidental." (pág 162)

A Origem das Espécies é um dos livros mais representativos do poder das idéias o que faz com que girem, ao seu redor, a fúria de uns e a admiração de outros. Atualmente o debate ainda persiste entre criacionistas e darwinistas.

Hoje em dia existe uma organização para promover a educação em ciência e divulgar as ideias de Darwin: a Darwin Day Celebration - DDC. No Brasil também existem iniciativas no mesmo sentido. Veja o site Ano de Darwin.

Portanto, esta é uma boa oportunidade para fazer uma exposição diferenciada de livros de Darwin e de outros títulos diretamente relacionados. Várias editoras têm livros publicados sobre o tema. No caso da Zahar, listo os seguintes:

"A Origem das Espécies" de Darwin: uma biografia
Janet Browne
Um relato cativante da obra que alterou para sempre nosso conhecimento a respeito do homem. Janet Browne mostra como A origem das espécies pode reivindicar para si o papel de maior livro científico já escrito no mundo. A autora - uma das mais conhecidas biógrafas de Darwin e editora de sua correspondência – analisa o desenvolvimento das teorias darwinianas, explica como foram recebidas e examina por que ainda hoje são negadas por alguns. Pesquisa as fontes originais, as discussões que provocou e o legado das idéias de Darwin.

Aventuras e Descobertas de Darwin a Bordo do Beagle 1832-1836
Richard Keynes
A partir de correspondências, diários e registros avulsos, além de desenhos e pinturas feitos pelo então jovem naturalista Charles Darwin e outros viajantes do HMS Beagle, Richard Keynes – bisneto de Darwin – acompanha aquela que talvez seja a mais importante aventura científica da era moderna, transportando o leitor para uma viagem que começava em 1831, duraria cinco anos e iria representar uma grande virada na história da ciência. Em um relato emocionante, Keynes narra a descoberta de fósseis pré-históricos, a descrição de animais e plantas nunca antes vistos, o encontro com povos ainda mal conhecidos e a formação, na mente genial daquele jovem cientista, da teoria da evolução das espécies e sua adaptação aos ambientes naturais. Uma oportunidade de compartilhar do momento decisivo da formação do pensamento científico e social no Ocidente.

Infinitas Formas de Grande Beleza: como a evolução forjou a grande quantidade de criaturas que habitam o nosso planeta
Sean B. Carroll
Um dos maiores espetáculos da vida é a transformação de uma única célula – o óvulo fertilizado – nos trilhões de células animais. No caso dos homens, essa única célula se torna o mais complexo mecanismo do mundo. Ao combinar um estilo cativante e preciso a um profundo conhecimento da área, Sean Carroll – um dos mais importantes biólogos de sua geração – destrincha os princípios do desenvolvimento e da evolução, e mostra como eles explicam o progresso, no tempo, das diferentes espécies e dos indivíduos de uma mesma espécie. A expressão que dá título ao livro – Infinitas formas de grande beleza – foi retirada das últimas linhas de Origem das espécies, de Charles Darwin.

O que É Vida?
Lynn Margulis e Dorion Sagan
Ao mergulhar no coração da matéria viva, O que é vida? busca responder a esta antiga pergunta da humanidade, examinando questões como: • a condição da Terra como um superorganismo; • a conexão biológica entre morte programada e sexo; • a evolução simbiótica dos cinco reinos orgânicos; • a base solar da economia global de troca de calor; • a hipótese de que a vida tem liberdade de ação, tendo desempenhado papel importante e inesperado em nossa evolução.

O Espectro de Darwin: a teoria da evolução e suas implicações no mundo moderno
Michael R. Rose
Uma análise da influência que o trabalho de Darwin teve e tem no que se refere a aspectos práticos de nossa existência, bem como à nossa própria natureza, buscando responder às seguintes perguntas: Como o ambiente científico de uma época pode moldar as idéias dos cientistas? Que progressos foram feitos no conhecimento científico que vieram enriquecer a teoria da seleção natural? Como foram por ela afetadas a taxonomia vegetal e animal, a agricultura, bem como nossas idéias sobre crescimento populacional, medicina, psicologia, sociologia, política e religião?

Darwin e a Evolução em 90 Minutos
Paul Strathern
Este livro traz o percurso de Charles Darwin até chegar à sua teoria da evolução, que revolucionou a época, obrigando-nos a repensar nossa posição no processo evolutivo e a expandir nossos horizontes.




À Beira d'Água: macroevolução e a transformação da vida
Carl Zimmer
Numa bela combinação entre paleontologia, zoologia, anatomia comparada, genética, embriologia e evolução, o autor nos leva a conhecer mais de perto duas transições evolucionárias: a saída dos animais da água e a reversão de um ramo desses organismos de volta à água. A complexidade do ato de nadar, de ouvir dentro d'água ou da estrutura de pés e mãos, entre outros temas, são abordados de forma simples e direta, o que faz deste volume uma obra imprescindível para os estudiosos – ou simplesmente para os amantes – das teorias sobre a evolução das espécies.

Crick, Watson e o DNA em 90 Minutos
Paul Strathern
Um relato instigante de como Francis Crick e James Watson desvendaram a estrutura do DNA – mudando a história do século XX e da humanidade e levantando questões éticas e morais antes impensáveis.




A Caixa Preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução
Michael Behe
A teoria da evolução de Darwin é em geral aceita pelos cientistas. Contudo, desde que Watson e Crick abriram o campo da bioquímica, a ciência vem vivendo um clima de frustração, tentando conciliar as descobertas espantosas deste campo moderno com uma teoria do século XX que não pode explicá-las. Com a publicação de A caixa preta de Darwin, é tempo de os cientistas se permitirem examinar novas e extraordinárias possibilidades, e de ficarmos de sobreaviso com o que vão descobrir.

Formigas em Ação: como se organiza uma sociedade de insetos
Deborah Gordon
Durante 17 verões, Deborah Gordon e sua equipe de pesquisadores enfrentaram o calor do deserto do Arizona para estudar o comportamento de... formigas! Com rigor científico e um texto bem humorado, este livro nos transporta para dentro de uma sociedade destes minúsculos insetos, e apresenta um novo e irrefutável panorama de como elas se organizam, esclarecendo por que isso é de nosso interesse. Ao subverter idéias preestabelecidas sobre a hierarquia das sociedades de insetos e focalizar padrões caóticos de comportamento – por exemplo revelando que a rainha não comanda nem administra a colônia, ou que as formigas não desempenham a mesma tarefa a vida inteira –, Deborah Gordon aponta o futuro da investigação científica. Audaciosamente, afirma que a comunicação entre as formigas é um modelo de como os cérebros, os sistemas imunes e o mundo natural como um todo se organizam. O livro é ainda enriquecido por desenhos e mapas originados da pesquisa de campo da autora, um trabalho tão diligente quanto seu objeto de pesquisa.


Livros de outras editoras:

AUTOBIOGRAFIA 1809-1882
Editora: CONTRAPONTO EDITORA
Texto integral da Autobiografia redigida por Charles Darwin (1809-1882) em seus últimos anos de vida. Publicada ao longo do tempo em várias línguas, porém não em português, todas as edições anteriores apareceram mutiladas, pois a família considerara impublicáveis as conclusões a que Darwin chegara, na maturidade, sobre as religiões em geral e, especialmente, o cristianismo. O cientista que alterou para sempre a compreensão que temos sobre nós mesmos aparece aqui em um despretensioso auto-retrato, da infância à velhice, refletindo sobre sua trajetória de vida, a influência do pai, os aborrecimentos na escola, a viagem no veleiro Beagle, a preparação de A origem das espécies e de seus outros trabalhos.

CHARLES DARWIN- A revolução da evolução
Rebecca Stefoff
Editora Cia das Letras
Pai da teoria do evolucionismo, Charles Darwin revolucionou a ciência no século XIX. Rebecca Stefoff parte da infância do cientista para explorar seu trabalho, sua vida e também toda a controvérsia que envolveu suas descobertas.




DÚVIDAS DO SR. DARWIN, AS- Um retrato do criador da teoria da evolução
David Quammen
Editora Cia das Letras
Entre desembarcar do navio Beagle e publicar A origem das espécies, em 1859, mudando para sempre a história da ciência, Charles Darwin recolheu dados, refletiu e sofreu por mais de vinte anos. Neste texto conciso e envolvente, David Quammen põe o homem e seu pensamento ao alcance de qualquer leitor.


GENE EGOÍSTA, O
Richard Dawkins
Editora Cia das Letras
Um dos livros mais aclamados da história da divulgação científica, ele não só apresenta a biologia evolutiva de forma acessível, mas acrescenta uma interpretação metafórica que inspirou gerações de biólogos e simpatizantes: somos máquinas de sobrevivência a serviço dos genes. Desde a sua publicação em 1976, foi traduzido para mais de 25 idiomas e sucesso de vendas pelo mundo todo. Um livro atual, que continuará a ser referência obrigatória para quem se interessa pela evolução da vida.

RELOJOEIRO CEGO, O- A teoria da evolução contra o desígnio divino
Richard Dawkins
EDitora Cia das Letras
O relojoeiro cego se tornou um marco da biologia moderna tão logo foi lançado, em 1986. Empenhado em conquistar novos adeptos para o evolucionismo e para o pensamento científico, Richard Dawkins faz aqui uma defesa vigorosa da visão darwinista e põe a nu as falácias polêmicas do criacionismo. Para o zoólogo, a síntese moderna entre as descobertas da genética e a idéia de seleção natural é capaz de fornecer respostas verificáveis e elegantes para o enigma das origens da vida e das espécies. Dawkins descobre exemplos criativos para explicar que, ao contrário do que tantas vezes se imagina, a seleção natural não ocorre por meio de combinações aleatórias: a sobrevivência é um jogo árduo, de regras estritas e definidas. A argumentação do autor faz crescer nossa admiração diante da diversidade da vida, ao mostrar de que maneira o processo de evolução - o "relojoeiro cego" do título - é capaz de produzir obras tão refinadas a partir de elementos tão simples.

Existem alguns outros títulos sobre a temática, mas constam como esgotados, inclusive A Origem das Espécies. Os textos das sinopses acima foram retirados dos sites das editoras.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Indicações #1: Uma Maçã por Dia

Aproveitando (e copiando) uma ideia do Rodrigo Cardoso (Ronoc) em seu blog O Queijo e os Vermes onde, com uma pequena citação, sugere a leitura de livros, vou passar a fazer algo parecido com livros que julgo importantes para o acervo de uma livraria e/ou por venderem bem.

O primeiro deles é Uma Maçã por Dia; lançado no final de setembro pela Zahar fechou o ano na marca dos 5 mil exs já vendidos. É um livro que pode ser lido aos poucos, sem pressa, e sem ordem pois, cada capítulo é objetivo e auto-suficiente.

O autor Joe Schwarcz é canadense e dá aulas de química com ênfase em nutrição e na aplicação cotidiana da ciência. Ganhou numerosos prêmios, sendo o único não-americano a receber o prestigioso Grady-Stack Award da Sociedade Química Americana. Tem outros cinco livros publicados e apresenta programas de rádio e tv sobre ciência e alimentação. No início de março a Zahar lançará mais um livro dele: Barbies, bambolês e bolas de bilhar: 67 deliciosos comentários sobre a fascinante química do dia-a-dia.

"Nenhum alimento isolado possui propriedades salutares mágicas. (...) O que realmente importa em termos de nutrição é o efeito líquido produzido por todas as substâncias químicas que penetram nosso corpo a partir dos alimentos que comemos. Sim, substâncias químicas. Posso imaginar as sobrancelhas se erguendo. Parece incomum ver a expressão ´substância química´ sem um adjetivo como ´venenosa´ depois." p.15

Realmente, comer é hoje bem mais complicado do que há alguns anos. O excesso de informação nos desnorteia; em meio ao fogo cruzado de "regras" muitas vezes contraditórias, não sabemos em quem acreditar. O prazer de comer parece ter sido substituído por preocupações com ingredientes, calorias, gorduras trans, modificações genéticas e contaminantes. Como nos guiar em meio a toda essa confusão? Como distinguir o que é mito e o que é verdade, o que tem base científica e o que é apenas mais um golpe de publicidade da indústria alimentícia? (tirado da ´orelha´do livro). Vale ressaltar que toda informação contida no livro tem por base experiências científicas.

Boa leitura e pode ler comendo chocolate, que faz bem. Veja na pág. 85.




domingo, 14 de dezembro de 2008

Formação de Livreiros 1: problemas

Trabalhamos com um produto, o livro, que é, até o presente momento, o suporte mais comum e eficiente para a transmissão, ao longo do tempo, do conhecimento produzido por gerações e gerações de habitantes deste planeta. No Brasil, entretanto, mesmo com um produto tão eficiente e tão carregado de simbolismo, o mercado do livro, principalmente para a parte de livrarias, não consegue formar profissionais para atender à demanda que o mercado requer e necessita.


Aproveitando o gancho de um post do Gerson Ramos no seu blog Vivo de Livro, sobre como deve ser chamado o profissional que trabalha nas livrarias no atendimento direto ao cliente, levanto aqui uma nova alternativa: livreiro. À primeira vista pode parecer uma questão de menor importância, mas acho que a falta de um nome que dê "cara", que possa identificar uma profissão à simples menção dele, não estimula que se pense de forma consistente, contínua e de longo prazo em formação profissional, em cursos técnicos, em métodos de ensino, em pesquisas na área etc. Trabalhar numa livraria, salvo raras exceções no mercado, é visto, é percebido pelas pessoas, como um emprego temporário (até que apareça algo melhor), e não como um trabalho que tenha a perspectiva de uma carreira e de crescimento na empresa e na área. Esta visão independe do nível de formação escolar das pessoas, tenham elas o ensino fundamental, médio ou superior, completo ou não. Afinal, quem não gosta de ter um nome profissional que identifique, perante os outros, a sua área de trabalho, seja ele torneiro mecânico, garçon, economista, revisor etc, etc. ? Portanto, se a profissão de livreiro não existe, por que investir nela?


Se pensarmos no livro como produto final de uma cadeia de produção, a livraria, seja ela física ou virtual, fica no fim dessa cadeia e exatamente no ponto onde acontece a realimentação da mesma, isto é, o momento em que ocorre a venda do livro para o consumidor final - o cliente, o leitor. Pensando ainda em termos de cadeia de produção, na área editorial, que fica antes das livrarias, os profissionais que lá trabalham como, editores, revisores, designers, produtores gráficos etc., passam por uma formação profissional, na maioria das vezes universitária, de vários e vários anos. Por mais paradoxal que pareça, a existência de inúmeros cursos universitários, tanto públicos quanto privados, com investimento de recursos financeiros para a formação de profissionais capazes de produzir o livro, é inversamente proporcional a inexistência de cursos, técnicos ou universitários, para a formação de profissionais para a venda desse livro produzido. Se o livro é um produto especial e com uma variedade imensa (são 20 mil novos títulos por ano só no Brasil), como é que não se investe na formação de profissionais para a área de venda nas livrarias? Não adianta pensar que uma pessoa que faz um curso de vendas para o comércio em geral, seja sapataria, loja de roupas ou qualquer outra, estará apta para vender numa livraria. Quantos tipos de sapatos podem ser oferecidos numa sapataria? Uns 300 ou 500? E no máximo divididos em para mulheres, homens e crianças. Numa livraria podem ser oferecidos mais de 2 milhões e 600 mil títulos, para entrega imediata ou a encomendar, e divididos por centenas de áreas.


De uns poucos anos pra cá, algumas iniciativas começaram a surgir, como a Universidade do Livro da Unesp e a Escola do Livro da CBL em São Paulo, e a Estação das Letras, no Rio de Janeiro, com o projeto Livraria do Séc XXI. Neste ano de 2008, a ANL, passou a oferecer em São Paulo, o curso capacitador nas livrarias. São iniciativas importantes mas que, infelizmente, não suprem a necessidade do atual mercado livreiro no que diz respeito às livrarias. Na hora em que uma livraria Cultura, Saraiva, Travessa, Livraria da Vila, Livrarias Curitiba, Fnac etc, pensam em expandir seus negócios ou um empresário-livreiro pensa em abrir sua primeira loja ou filial, o principal problema comum não é a falta de capital para investir e, sim, a falta de mão-de-obra especializada. As redes ainda têm a facilidade de atrair a mão-de-obra que já existe no mercado (vide os sites delas onde sempre existe uma chamada para recrutamento e seleção). Ainda no caso das redes, onde a concorrência é a cada dia mais acirrada, não é possível esperar que a mão-de-obra simplesmente apareça e, por isso, são obrigadas a investir elevados recursos para a formação da mão-de-obra de que necessitam. Esses recursos poderiam ser investidos na abertura de novas lojas e melhoria dos sistemas de gerenciamento, o que aceleraria o crescimento do mercado como um todo.


Portanto, está mais do que na hora que editoras e livrarias e suas entidades representativas, como Snel, CBL, ANL, Libre, Abrelivros, ABEU, ABDR etc, pensem no mercado do livro com uma visão mais ampla, para além do seu negócio específico, sob o risco de estagnação de todo setor. Não adianta ter a capacidade de produzir cada vez mais e melhor e perder a capacidade de vender. Livros em excesso nos depósitos das editoras são mais do que estoque; viram encalhe.


Em um próximo post espero poder apresentar algumas alternativas para os problemas relatados acima. Não é mais possível esperar que a formação de uma pessoa ocorra somente pela observação do que os outros fazem e pelo seu próprio fazer diário, com seus erros e acertos, como foi o meu caso. É necessário sistematizar o conhecimento e encontrar métodos eficientes e rápidos de transmissão aos interessados na área do livro.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Cliente ou Consumidor?

Como você, caro livreiro, vê as pessoas que compram na sua livraria? A resposta a esta pergunta, muito provavelmente, revelará suas práticas de trabalho diariamente utilizadas. Segundo definição encontrada no dicionário Aurélio, consumidor "é aquele ou aquilo que consome"; cliente é "aquele que usa os serviços ou consome os produtos de determinada empresa ou de profissional". Portanto, a definição de cliente é muito mais ampla, muito mais abrangente, como acho que deve ser.

Cliente deve ser pensado como a base, como os pilares de seu negócio. Nesta perspectiva, é fundamental que as livrarias tenham e/ou trabalhem para reunir o maior número de informações a respeito de cada cliente. A informação mínima é saber nome e endereço físico e/ou de e-mail. Se você não tem esses dados atualizados e minimamente organizados, sinto informar que você não tem clientes e sim consumidores que, a cada dia, podem ir consumir em outras livrarias.

Quem ainda não percebeu que é fundamental ter clientes, estejam eles próximos ou fisicamente afastados, e que fidelizá-los é difícil e demanda tempo e investimento, e que perdê-los é muito fácil e rápido, deve parar e repensar seu negócio. Mas, o que é ter clientes e como fidelizá-los?

O mercado livreiro tem como prática seguir os preços de capa sugeridos pelas editoras. Salvo promoções pontuais e eventuais, os preços de venda da maioria absoluta dos títulos são os mesmos nas livrarias, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Então, se o preço é igual ou muito parecido, o que leva o cliente a comprar livros numa livraria e não em outra, mesmo que estejam fisicamente próximas?

Algumas possibilidades de resposta: atendimento e/ou serviços oferecidos e/ou acervo. Julgo o atendimento o ponto mais importante para o sucesso ou não de um negócio. Como já comentei em post anterior, com bom atendimento é possível vender até o que não se tem em estoque no momento. Por isso, acho inconcebível que um cliente quando entra numa livraria e pergunta se tem determinado título receba, como resposta, um simples e único não encerrando-se, assim, o atendimento ao cliente. O problema não está no fato de não ter o livro em estoque, mas sim, em não continuar o atendimento informando ao cliente se o livro está esgotado ou não. No caso de estar disponível na editora, deve-se oferecer a possibilidade de encomendá-lo para o cliente e também informar o prazo em que deve chegar. Se a livraria tiver infraestrutura para tal, deve-se ainda oferecer a possibilidade de entregar o livro no endereço que o cliente indicar e, é claro, sem custo adicional. Lembre-se que o livro não estava disponível no momento em que o cliente o queria comprar. Portanto, para realizar essa venda, será necessário um custo extra mas, acredite, valerá a pena.

Na segunda hipótese, a do livro solicitado estar esgotado, o livreiro deve ser capaz de oferecer ao cliente outros títulos do mesmo autor e/ou títulos de autores relacionados com o tema do livro solicitado inicialmente. É claro que para o livreiro poder fazer o atendimento descrito acima é necessário que ele disponha de instrumental mínimo, qual seja, um cadastro de livros confiável e diariamente atualizado (ver post Como Vender Livros Demais?, 3 parágrafo). Além disso, é necessário que o livreiro tenha o hábito de ler e possua um acúmulo de leitura e/ou de informações sobre livros, que lhe permita fazer associações para além de uma pesquisa num cadastro de livros.

A parte de serviços que uma livraria pode oferecer a seus clientes é bem ampla. É importante ressaltar que não são somente recursos financeiros que possibilitam oferecer tais serviços mas, também e principalmente, a criatividade. Que serviços podem ser esses? Vou listar alguns:
01-reserva de livros e encomendas;
02-pesquisa de livros sobre determinado assunto e/ou autor (es);
03-entregas em domicílio;
04-parcelamento das compras sem juros;
05-programa de pontuação de compras e posterior bonificação em produtos;
06-pré-venda, com garantia de entrega rápida, de livros de grande expectativa gerada pela mídia;
07-produtos com diferencial exclusivo para clientes cadastrados como, por exemplo, livros autografados;
08-envio de mala direta e/ou e-mail marketing (previamente autorizado pelo cliente) com promoções exclusivas para esse envio;
09-no mês de aniversário do cliente ele pode receber um brinde ou um bônus financeiro para compras a partir de determinado valor;
10-vender vale presente para um cliente poder presentear outras pessoas;
11-palestras e mini-cursos;
12-eventos para crianças como contação de histórias, atividades manuais, teatrinho etc;
13-contação de histórias para adultos;
14-pocket shows;
15-grupos de leitura e discussão;
16-espaço café;
17-não dificultar a troca de produtos comprovadamente adquiridos na loja, principalmente no caso de defeito gráfico, pois as editoras depois também fazem a troca. Enfim, o limite de serviços que podem ser oferecidos será definido, principalmente, pela sua criatividade ou pela falta dela. E isso, independe do tamanho da livraria. Ofereci a maioria desses serviços numa loja de 30 m2, localizada no terceiro piso de uma galeria comercial e sem janela pra rua.

Por fim, chegamos à parte do acervo, que é o primeiro elemento que definirá seu público. É claro que a localização física da livraria também será importante para definir a escolha do acervo inicial. Digo inicial pois, ao longo do tempo, o dia-a-dia na livraria poderá indicar necessidades e experiências com acervo, digamos, não tão óbvio à primeira vista. Mas, voltando à localização física da livraria, segue um exemplo: em 1986 tive uma livraria, a Bruzundangas, dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, na UFRJ no Largo de São Francisco. Os cursos lá oferecidos são os de História, Filosofia e Ciências Sociais. Logo, o acervo era direcionado para essas áreas. Não adiantava ter livros na área de ciências exatas, ou direito, ou medicina por exemplo. Livros de interesse mais geral, como literatura, apenas complementavam o acervo. Portanto, na hora da escolha do acervo, deve-se privilegiar aquele que atenda seu público alvo - partindo do pressuposto que você, livreiro, já o tenha previamente identificado. É melhor ter um acervo bom em poucas áreas, que possa ser identificado como referência pelos clientes, do que tentar ter um pouco de muitas áreas imaginando, assim, que abrangerá um público mais amplo. Não se iluda; quem tem poucos títulos de muitas áreas, na verdade, não tem nada em termos de acervo. Não será uma livraria referência e, portanto, não terá futuro no cada vez mais exigente mercado livreiro.

De como chegamos a este estado de coisas

  Em 11 de janeiro de 2020 foi registrada, na China, a primeira morte por Covid-19. A população mundial hoje está na ordem dos 7,8 bilhõ...