sábado, 28 de setembro de 2013

Saiu na mídia # 17: O livro de papel parece ter mais futuro hoje do que ontem

Compartilhando. Publicado no site da Exame (somente o texto)

Em tese, a pequena livraria da americana Keebe Fitch, a McIntyre’s Books, em Pittsboro, na Carolina do Norte, já deveria ter fechado as portas. Keebe viu o avanço das grandes redes, como Barnes & Noble, nos anos 90. Testemunhou também a explosão das vendas pela internet, sobretudo o fenômeno varejista Amazon, nos anos 2000.
E, mais recentemente, foi a vez de os e-books mudarem novamente o mercado livreiro nos Estados Unidos. Mas a loja de Keebe, herdada de seus pais e há 25 anos no mercado, vai muito bem: a expectativa é faturar 10% mais em 2013. E a McIntyre’s Books é tudo, menos um caso isolado. 
As vendas das chamadas livrarias alternativas nos Estados Unidos aumentaram 8% em 2012. O número de lojas também voltou a crescer. “Oferecemos uma série de serviços que enriquecem a experiência do cliente na livraria. Caso contrário, ele compraria online”, diz Keebe.

Em seu cardápio estão encontros com escritores e discussões entre leitores com interesses comuns. O curioso é que, até há pouco tempo, a morte do livro em papel era dada como certa — e, consequentemente, das livrarias. Sim, vendem-se menos livros em papel hoje do que em 2007 nos Estados Unidos, ano do lançamento do Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. O futuro, porém, não parece ser de uma onipresença eletrônica. 

Depois de um início espetacular, o crescimento da venda de e-books nos Estados Unidos, mercado considerado um laboratório das experiências digitais, perdeu fôlego. De acordo com a consultoria PricewaterhouseCoopers, as vendas de e-books devem crescer 36% em 2013, mas apenas 9% em 2017 — embora sobre uma base obviamente maior.
“Não há mais fôlego para o e-book crescer como antes”, diz o consultor Mike Shatzkin, um dos maiores especialistas em mercado editorial digital. Não é que o consumidor vá perder o interesse, pelo contrário.
No mundo, a venda de e-books deverá movimentar 23 bilhões de dólares em quatro anos. Ainda assim, de cada dez livros vendidos em 2017, apenas dois serão eletrônicos, segundo as previsões mais respeitadas. 
Não faz muito tempo, acreditava-se que a indústria do livro sofreria o mesmo destino da indústria fonográfica. O surgimento do MP3 abalou o mercado de CDs e, consequentemente, as grandes lojas de discos. O mercado de livros, no entanto, tem se comportado de maneira diferente.
Quase metade dos livros é comercializada pela internet nos Estados Unidos. Mas apenas 23% dos americanos leem livros eletrônicos. Ou seja, a experiência da leitura digital não acompanhou na mesma velocidade o hábito de comprar livros pela internet. 
Um levantamento do instituto de pesquisas Pew Research com 3 000 leitores mostra que o livro digital leva vantagem frente ao papel em algumas situações. No caso de viagens, a maioria prefere os e-books. Quando se trata de leitura para crianças, 80% preferem as edições físicas.
Essas evidências frustraram quem contava com um futuro 100% digital. A rede de livrarias americana Barnes & Noble apostou suas fichas no Nook, leitor eletrônico lançado em 2011. A venda do aparelho e de títulos digitais, porém, tem sido uma decepção. As sucessivas quedas de venda custaram o emprego de William Lynch, que até julho presidia a empresa. Especula-se que a Microsoft esteja negociando a compra do Nook.
A previsão mais aceita atualmente é de que haverá uma convivência entre e-books e papel. “A participação do livro digital deve alcançar no máximo 40% do total de vendas”, diz Wayne White, vice-presidente da canadense Kobo, fabricante de leitores eletrônicos, com 14 milhões de usuários no mundo.
Hoje, nos Estados Unidos, a fatia dos e-books na receita do setor é de 22% — no Brasil, é de 1,6%. “O livro digital será parte do negócio, não todo ele”, diz Sergio Herz, dono da Livraria Cultura, na qual os e-books representam 3,7% das vendas. É provável que não tenhamos de explicar a nossos netos o que são livros de papel — nem o prazer que temos ao lê-los.
Inauguração da Livraria Cultura no Shop Iguatemi em SP, Av. Faria Lima, em 25.09.2013

sábado, 6 de julho de 2013

A experiência multicanal no mercado do livro

O passar dos anos vem mostrando que não são mais antagônicos os canais de varejo físico e de e-commerce. A experiência multicanal é a nova realidade. O grande desafio que se apresenta é de como fazer que os dois canais sejam, cada vez mais, complementares. Abaixo, a palestra de Sérgio Herz, CEO da Livraria Cultura, no Congresso E-commerce Brasil Experiência do Cliente 2013

É uma bela aula em 26 minutos. Todos temos a aprender.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Saiu na mídia # 16: O mercado editorial na Alemanha

Compartilhando. Publicado no Publishnews

O mercado editorial na Alemanha

01/07/2013
 
Por Holger Heimann

Só as farmácias conseguem ser mais rápidas, porque providenciam remédios em apenas algumas horas. Mas, na Alemanha, quem quer fortalecer o espírito e a imaginação e não encontra o que procura numa livraria espera no máximo dois dias. Graças à logística eficiente dos grandes livreiros como Koch, Neff e Volckman (KNV) e Libri, que possuem em seus estoques centrais a maioria dos livros atuais e mais procurados, as livrarias são abastecidas da noite para o dia. Mesmo nos tempos da nova mídia, ler livros está no topo das atividades de lazer preferidas dos alemães. Além disso, a rede de livrarias na Alemanha mantém um vínculo muito estreito, difícil de se ver em outros países. Isto se dá, entre outros motivos, graças à fixação dos preços dos livros, que determina o mesmo preço para todos os locais de venda. Há 3.500 livrarias no país para uma população de 82 milhões de habitantes. Ainda hoje toda cidadezinha possui a sua livraria. Muitas vezes, além de ser um lugar onde se vendem livros, ela é o centro cultural da cidade, lugar para sarau de poetas e outras atividades literárias. Não foi à toa que o escritor Hans Magnus Enzensberger intitulou estes locais de “postos de abastecimento do espírito”.

No entanto esta imagem está mudando. Cada vez mais as pequenas livrarias se rendem, por não gerarem mais lucro, sem falar na renda irrisória de seus administradores.  Primeiro, foi a expansão das grandes redes, principalmente da Thalia e Hugendubel, e suas estratégias repressoras. Agora é a vez da ascensão do comércio livreiro virtual, com a Amazon e o aumento das vendas de e-books, do qual as lojas físicas praticamente não aproveitam, já que são negociadas diretamente com plataformas virtuais. Em 2011, pela primeira vez o resultado no comércio livreiro físico representou menos de 50% do resultado total do setor de € 9,6 bilhões. O volume de € 4,7 bilhões corresponde a uma queda de 3% em relação ao ano anterior. E algumas previsões são bastante sombrias: até 2015 o resultado no comércio livreiro físico deve cair cerca de 16%, opinam os especialistas. Quase um a cada cinco livreiros acreditam que a queda chegará a 20%, devido à importância cada vez maior do livro eletrônico. Nas vendas do Natal passado, o e-reader, principalmente o Kindle da Amazon, foi um dos presentes preferidos.
 
A Amazon, empresa ativa no mercado alemão desde 1998, também tem a agradecer o sucesso de seus leitores digitais o fato dela estar crescendo de maneira vertiginosa e constante. O resultado da Amazon Alemanha no setor livreiro foi de € 1,6 bilhões (de um resultado total de € 6,5 bilhões). Isto equivale a 74% de todo o comércio livreiro eletrônico, que representa aproximadamente um quarto do total do comércio livreiro. Com este avanço, a Amazon deixou para trás as maiores redes de livrarias, que após anos de expansão, tiveram que ir fechando cada vez mais filiais, por causa de perdas drásticas na receita.
 
Thalia, com um resultado de € 984 milhões, ficou abaixo da marca de € 1 bilhão. Esta rede do comércio livreiro pertence ao grupo Douglas, cujo setor mais rentável é o da perfumaria. Na posição abaixo, ocupando o terceiro lugar e mantendo-se bem, temos a DeutschBuchHandelsGmbH (DBH), uma fusão entre os atacadistas de livros Hugendubel e Weltbild, com receita no montante de € 695 milhões.
 
Com promoções permutáveis em espaços de venda enormes, as grandes redes foram se dirigindo para um beco sem saída. A crítica à política dos gigantes tornou-se cada vez mais veemente. “Estou certa que o aumento de filiais, que tanto a Thalia quanto a Hugendubel impulsionaram, levou a um nivelamento do comércio livreiro individual, deixando os clientes de hoje entediados. É compreensível que eles prefiram se afastar dos espaços padronizados, pois tem mais chance de encontrar produtos interessantes pela Internet”, diz Julia Claren. A gerente da Dussmann, Shopping da Cultura, mostra que é possível fazer diferente. O templo da cultura, com uma gama imensa de livros, CDs e DVDs espalhados num prédio de 5 andares no centro de Berlim, é prova viva que grandes espaços também podem ser rentáveis. No entanto o conceito da Dussmann se distancia daquele das redes livreiras, focadas em livros bestsellers; o seu se assemelha mais ao das livrarias administradas por proprietários, que investem em um atendimento competente e em um sortimento selecionado e de qualidade. “Estas são nossas pequenas irmãs”, afirma Claren.
 
Em Berlim estas são tão numerosas como em nenhum outro lugar; a densidade do comércio livreiro na cidade também é a maior do país. O que não surpreende, para uma cidade de 3,5 milhões de habitantes, a mais populosa da Alemanha. Por outro lado, aqui há um outro crescimento notável: ao contrário da tendência geral, o número de livrarias na capital aumenta: são mais de 300 atualmente. Ao empreendedor corajoso, o momento atual parece favorável para concretizar um negócio no setor livreiro, que não seja meramente voltado para as massas, mas que dê ênfase no especial, acima do trivial.
 
Provavelmente a iniciativa mais ambiciosa das recém-inauguradas é a livraria Ocelot, na capital, cujo proprietário Frithjof Klepp quer unir os mundos Online e Offline. Pelo wi-fi seus clientes não só podem como devem baixar os e-books. Mas por ora eles continuam indo às lojas, principalmente por causa da seleção primorosa de belos livros, para os quais Klepp reserva sempre um lugar de honra. “Estou certo que, mesmo nos tempos atuais, as pessoas querem ter contato com outras pessoas. Quer dizer que o cliente vai lá, onde ele se sente bem, onde espera encontrar um atendimento competente”, diz Klepp com confiança.
 
Deve ter sido graças ao otimismo e a dedicação destes empreendedores que Gottfried Honnefelder, Diretor da Associação da Bolsa do Comércio Livreiro Alemão, declarou: “É possível que agora seja a hora e vez do comércio livreiro independente”. Se e como o comércio livreiro tradicional poderá usufruir dos negócios com o e-book ainda é uma icógnita, mesmo contando com livreiros inovadores como Klepp. As previsões divergem tanto quanto o temperamento dos livreiros. Talvez Julia Claren tenha razão, ao afirmar que “sentimos uma certa ansiedade no momento, devido às transformações fundamentais. Todos nós do setor só temos a ganhar, reconhecendo que as empresas bem-sucedidas sempre se orientaram e ficaram bem atentas às necessidades dos clientes, para depois agir de maneira criativa. Quando a pressão aumenta, aparecem força e energia e se olha para frente.“
 
Holger Heimann trabalhou muitos anos como redator do Börsenblatt, a revista mais importante do setor editorial alemão. Hoje é jornalista independente em Berlim e trabalha, entre outros, para a Welt, a Rádio Alemanha e ainda para a Börsenblatt.
 
Texto traduzido por Christina Wolfensberger


O negócio do livro na Alemanha vai bem – e é muito produtivo: cerca de 80 mil novos títulos são publicados todo ano, e as vendas geram um faturamento anual de 9,52 bilhões de euros. Mas quem são os atores no cenário do livro e do mercado editorial na Alemanha? Quais regras específicas se aplicam ao mercado alemão – do preço do livro ao Börsenverein? Tendo em vista a participação da Alemanha como país convidado de honra na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e o Brasil como país convidado de honra na Feira do Livro de Frankfurt, produzimos uma série de artigos sobre o mercado editorial, e o livro em geral, na Alemanha. Apresentaremos um panorama geral do mercado, falaremos sobre agências literárias na Alemanha, sobre literatura para crianças, sobre o livro digital, as principais empresas do mercado, e muitos outros assuntos. Agradecemos ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha por seu apoio na produção desta série. Esperamos que gostem!
 
Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Saiu na mídia # 15: O futuro não é o fim, ainda

Compartilho texto publicado no jornal Valor Econômico

 


O futuro não é o fim, ainda

Por João Luiz Rosa | De São Paulo
Claudio Belli/Valor
Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet”
Há dois anos, parecia que o livro impresso começava a tomar o caminho da extinção. Em abril de 2011, a Amazon anunciou que a venda de livros eletrônicos superara pela primeira vez a de papel - 105 volumes digitais para cada 100 tradicionais - e a Borders, uma das maiores cadeias de livrarias dos Estados Unidos, baixou as portas, em setembro, apenas sete meses depois de entrar com um pedido de recuperação judicial. Das 511 lojas que tinha um ano antes restavam 399.
Agora, os sinais são diferentes. As vendas dos aparelhos eletrônicos para leitura de livros, ou e-readers, que pareciam os substitutos naturais do livro em papel, vão cair dos 5,8 milhões de unidades projetadas para este ano para 2,3 milhões em 2017, prevê a consultoria Forrester. O interesse do público parece tão morno que nesta semana a Barnes & Noble, outra gigante americana das livrarias, anunciou que vai abandonar parte da produção do seu e-reader, o Nook, depois de a receita com o negócio cair 34% no trimestre, duplicando as perdas na área.
Ainda mais significativo é que as próprias vendas dos livros digitais não seguiram o ritmo espetacular que se esperava a princípio. Em uma década, entre 2002 e 2012, os e-books saíram de invisíveis 0,05% da receita do mercado editorial americano, o mais avançado na área digital, para 20% das vendas. Em outros países, permanece longe desse patamar - 10% na Espanha, 3% na Itália, pouco mais de 2,5% no Brasil.
Contra as probabilidades, os números parecem indicar que o livro é mais resistente ao tsunami digital que a música. Segundo a IFPI, principal organização mundial da indústria fonográfica, o segmento digital representou 37% da receita total do setor no ano passado, mas os números só levam em consideração as vendas legais. O que é obtido por meio da pirataria fica fora do levantamento, o que distorce o cenário. Foram as vendas ilegais, afinal, que destroçaram as regras estabelecidas no setor, cujos personagens ainda estão em busca de novos formatos comerciais viáveis. No mercado editorial, talvez por não ter ocorrido o mesmo efeito devastador, fica a impressão de que a maré digital está fraca, mas muitos especialistas acham que a grande onda ainda está por vir.
"Há 500 anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, não se via uma revolução da mesma ordem e magnitude na indústria da informação", disse o professor Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na abertura do IV Congresso do Livro Digital, ocorrido neste mês em São Paulo. Meira, que também é cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede no Recife, contou que algum tempo atrás um executivo perguntou se as mudanças viriam antes de sua aposentadoria, daqui a dez anos. "Dez anos? Ih, pode ter certeza de que você vai enfrentar turbulência", respondeu o professor.
Tempo, portanto, ocupa um papel especial na digitalização do livro. "Eu não diria que o ritmo [de vendas dos livros digitais] está lento ou abaixo das expectativas", afirma Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e sócia-diretora da Girassol Brasil Edições. Embora o assunto esteja em discussão há anos, as vendas de e-books no país só começaram para valer no fim do ano passado, com uma resposta positiva tanto da indústria quanto do consumidor, avalia Karine. Pelas contas da CBL, o número de títulos em formato digital triplicou no Brasil em um ano, passando de 5 mil em 2011 para 15 mil no ano passado.
A expectativa é que a redução dos preços dos tablets dê um forte impulso aos livros digitais. Enquanto os e-readers, voltados basicamente para leitura, sofrem uma redução prematura das vendas, os tablets - que também permitem navegar na internet, ver filmes, ouvir música etc. - ficam mais baratos e ganham consumidores de mais classes sociais. A previsão da consultoria IDC é que as vendas mundiais de tablets vão chegar a 229,3 milhões de unidades neste ano, superando pela primeira vez a de notebooks, de 187,4 milhões de unidades. O preço médio vai ficar quase 11% mais baixo, em US$ 381. É por isso que, apesar do desinteresse pelos e-readers, os livros digitais teriam espaço para crescer. Em vez de aparelhos exclusivos para leitura, o consumidor estaria preferindo os tablets na hora de ler.
A competição acirrada pode contribuir para a adoção mais rápida dos e-books. Companhias como a Amazon, dona do Kindle, estão lançando equipamentos básicos a preços reduzidos, com margens baixíssimas de lucro, na expectativa de vender livros digitais e recuperar o investimento mais tarde. É uma manobra que tomou emprestada do setor de tecnologia da informação: fabricantes de impressoras, por exemplo, também vendem máquinas com margens apertadas para ganhar dinheiro com tinta e papel.
"O problema do tablet é que se trata de um meio individual. Cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60 e hoje cada casa tem duas ou três TVs", diz o italiano Mario Pireddu, professor da Universidade de Roma III e da Universidade IULM de Milão. "Com o tablet, multipliquei minha capacidade de leitura. Se tenho um voo de 12 horas, posso ver filmes e ouvir música, mas conto com 40 livros à disposição."
No Brasil, a arrancada do livro digital também estaria ligada a um ponto particular: o peso dos livros didáticos no mercado editorial e nos hábitos de leitura da população. Divulgada no ano passado, a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra que o número de leitores no país caiu de 95,6 milhões de pessoas em 2007, ou 55% da população, para 88,2 milhões em 2011, o equivalente a 50%. Elaborado pelo Instituto Pró-Livro e o Ibope Inteligência, o levantamento considerou como leitor a pessoa que tivesse lido pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Em média, foi lido 1,85 livro no período, sendo 1,05 por iniciativa própria e 0,81 - uma participação considerável - por indicação da escola. Desse número, 0,63 encaixava-se na categoria livro didático, deixando à literatura apenas 0,18 livro.
Ler ficou na sétima posição entre as preferências no tempo livre, com 28% das respostas, bem abaixo de ver TV (85%), o passatempo favorito dos brasileiros. Em uma pergunta que admitia até três respostas, a maioria (64%) afirmou que ler é adquirir conhecimento para a vida, mas as respostas seguintes - útil para a atualização profissional (41%) e para o conhecimento na escola (35%) - mostram que a leitura é vista muito mais como uma obrigação do que como uma fonte de prazer. A resposta "uma atividade interessante" ficou com apenas 21% das preferências e "uma atividade prazerosa", com menos ainda: 18%.
O quadro permite deduzir que para onde a escola se dirigir no Brasil o hábito de leitura vai se mover, e essa direção, em parte, é o livro digital. "Já foi definido que a partir de 2015 todos os livros didáticos que o governo adquirir terão de ter uma versão digital", diz Karine, da CBL.
A questão que começa a se discutir - e provavelmente vai dominar os debates e as ações nos próximos anos - é que tipo de livro digital chegará às salas de aula, e quais serão os ecos nos demais ramos da indústria, incluindo a ficção. Até agora, o e-book tem sido pouco mais que a transposição do livro em papel para a tela de um dispositivo eletrônico. Mas um novo conceito de publicação digital está em gestação: é a ideia de transformar o livro em componente de um sistema mais amplo, com uma forte contribuição das redes sociais. É o livro como serviço ou, numa proposição ainda mais radical, o livro como software.
Bibliotecárias sempre tiveram pavor de que usuários mais rebeldes grifassem ou fizessem anotações nas orelhas dos livros que tomavam emprestados, mas no mundo digital saber as opiniões dos outros não só é útil como tem valor econômico, defende o professor Meira. Essa concepção já seria dominante na internet, na qual as pessoas procuram pelas opiniões dos outros antes de fazer compras, decidir para onde viajar nas férias ou em que hotel ficar. O livro digital, sob esse ponto de vista, não só pode estimular que mais pessoas leiam, mas também escrevam, como prenunciam os blogs.
Claudio Belli/Valor
Pireddu, professor da Universidade de Roma III: “Creio que o tablet será o meio dominante. O problema é que cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60”
A reclamação de muitos críticos é qual a relevância de tudo isso que está sendo escrito. A maior parte dos blogs, na verdade, passa despercebida - e desaparece com a mesma facilidade com que foi criada. "Você está falando do problema do lixo [cultural], mas essa não é uma questão nova", diz Pireddu. No século XV, informa o professor, um livro publicado na Itália por um contemporâneo de Gutenberg já questionava se as facilidades proporcionadas pelos tipos móveis não cobririam a Europa de obras descartáveis. "O argumento de que os monges copistas faziam uma seleção do que deveria ser publicado era semelhante ao usado hoje", afirma o especialista. "Vai haver mais lixo, mas esse é o preço a pagar pela democratização [da produção de conteúdo]. E não é verdade que bem antes da internet as editoras já publicavam muita literatura de baixo valor?"
Ainda não está claro como o conceito da rede social pode ajudar o leitor, mas Pireddu dá uma pista. "Você pode não ter interesse em saber a opinião de um leigo sobre um livro de Shakespeare, mas e se a editora montasse um grupo que lhe permitisse compartilhar as opiniões de um crítico de teatro ou de um ator reconhecido por interpretar Shakespeare?", pergunta.
A ideia, portanto, é ligar o livro a outras fontes de conhecimento, combinando-as em um único serviço. Em vez de só ler sobre um filme de Fellini, por exemplo, o leitor poderia ver trechos do filme como extensão do livro e discutir com outras pessoas sobre o que está sendo abordado.
É nessa linha que vai o próximo livro de Meira. Com lançamento previsto para setembro, a obra terá palavras-chave associadas a cada parágrafo. Um aplicativo poderá ajudar na leitura do livro. Toda vez que uma informação nova for publicada sobre o termo em questão, o leitor será avisado pelo software, com indicações de como obter os complementos. Na prática, o livro vai se tornar uma espécie de obra aberta e atualizada constantemente, como ocorrem com alguns programas de computador. "Em determinado momento, precisei parar de escrever o livro e passei a escrever o software", contou Meira.
Se mudanças como essas se tornarem padrão, outras questões ganharão urgência, como os direitos autorais - em um ambiente coletivo, quem será remunerado pelo quê? - e os meios para financiar criações que vão requerer um aparato tecnológico para oferecer ao leitor o que prometiam a princípio. Será a hora, também, de definir quem vai pagar a conta e que modelos comerciais serão capazes de oferecer o retorno necessário para sustentar o investimento.
"A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet", diz Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais e diretor da Associação Espanhola de Economia Digital.
Até agora, os produtores de conteúdo, como autores de livros e jornalistas, criam bens culturais pelos quais os leitores pagam. Esse cenário se baseia em uma espécie de economia da escassez, na qual os produtores de informação são poucos, o que aumenta o valor do que é produzido. A internet alterou esse modelo ao multiplicar as fontes de informação, sem entrar no mérito da qualidade da produção cultural ou no fato de que muitos sites exibem propriedades pelas quais deveriam pagar.
Para não perder relevância, afirma Celaya, as empresas ligadas à informação terão de cobrar por serviços, em vez de conteúdo. Não é só o livro que será transformado em serviço, mas também os jornais, as revistas e outros meios noticiosos. E, como no livro, a carga tecnológica para promover essa transformação será intensa.
"Pense em empresas como o Google e a Amazon, que ganham dinheiro porque conhecem muito bem seus usuários", diz Celaya. As empresas jornalísticas poderiam adotar uma abordagem semelhante, afirma o especialista. Ao saber quais artigos o leitor lê por dia, quantos deles são lidos até o fim e outras informações do gênero, obtidas por meio de softwares, as companhias poderiam criar versões pessoais de suas publicações.
"O Brasil é um dos países com mais bancas de jornal, mas elas não têm muitos recursos tecnológicos", afirma Celaya. Com investimento na cadeia de distribuição, um jornal ou revista poderia identificar, por sistemas de geolocalização, que um leitor está a poucos metros de uma banca e mandar um aviso para o celular dele, com o resumo de uma notícia particularmente interessante e a sugestão de que passe pela banca no caminho.
Por enquanto, essa parece uma cena de ficção científica, mas, se o caminho se mostrar correto, finalmente será impossível dissociar meio e mensagem.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Saiu na mídia # 14: Setor de Educação e países emergentes marcaram indústria editorial internacional em 2012

Compartilhando matéria publicada no Publishnews

Setor de Educação e países emergentes marcaram indústria editorial internacional em 2012

PublishNews - 25/06/2013 - Iona Teixeira Stevens
Pearson continua liderando ranking global
Desde 2006 a consultoria Rüdiger Wischenbart vem acompanhando o mercado editorial internacional, disponibilizando anualmente um ranking com as maiores editoras do mundo, que possuem faturamento superior a US$ 200 milhões. O Ranking Global é realizado a pedido da revista francesa Livres Hébdo, especializada no mercado editorial, e é publicado em conjunto pela Buchreport, na Alemanha, The Bookseller, no Reino Unido, Publishers Weekly, nos Estados Unidos, e PublishNews, no Brasil.
 
Segundo o consultor austríaco, as informações das empresas são coletadas a partir de relatórios, documentos e consultas, e incluem os números referentes a vários tipos de publicação (livros, material digital e informação profissional, com exceção de jornais, revistas, serviços de notícias ou publicações corporativas e atividades de varejo). Em 2011, a pesquisa passou a incluir o Brasil, China, Coréia e Rússia, e desde então temos visto a presença de algumas editoras brasileiras no ranking. Abril Educação, Saraiva e FTD, que já estavam entre as 54 maiores em 2012, aparecem novamente na lista.
 
O ranking de 2013 leva em consideração o faturamento observado em 2012 de 60 grupos editoriais, cuja receita consolidada chegou a € 56,56 bilhões, recuperando a leve queda registrada no ano passado, quando as 54 empresas listadas totalizaram € 54,3 bilhões.
 
Consolidação
 
Em 2012 o mercado editorial internacional foi abalado pela notícia da fusão da editora Penguin, do grupo Pearson, com a Random House, da gigante alemã Bertelsmann, além de outras tentativas de compra como a News Corp e Simon & Schuster. Mesmo ainda sem a fusão, o relatório de Wischenbart mostra que a tendência à consolidação a nível internacional não é de hoje: em 2012, os 10 maiores grupos editoriais responderam por mais da metade do faturamento total das 50 maiores empresas da lista.
 
Porém, o market share das 10 maiores vem caindo,  e passou de 57% de 2008 a 2010 para 55% em 2012. Paralelamente, o market share das empresas nas posições 21-50 aumentou de 21% em 2008 e 2009 para 25% em 2012. A fusão do “Pinguim Aleatório” deve afetar o gráfico relativamente estável da evolução domarket share nos próximos anos. Segundo o consultor Wischenbart: “Essa evolução reflete bem como novas empresas, especialmente dos mercados emergentes, estão entrando e adquirindo um papel na arena internacional”.
 
Fonte: Consultoria Rüdiger Wischenbart

Setores
 
O segmento CTP ainda é o mais representativo, com 41% do faturamento das empresas, mas é o segmento educacional que vem ganhando espaço, passando de 30% em 2011 para 34% no ano passado. O varejo de literatura geral vem caindo nos últimos 3 anos, e em 2012 manteve apenas 25% do faturamento total. O estudo ressalta que o distanciamento entre o setor de educação e o varejo geral aumentou desde 2010.
 
 Fonte: Consultoria Rüdiger Wischenbart
 
 
Aqui os mercados emergentes afetam mais claramente o cenário internacional. O segmento de educação depende dos gastos governamentais, e em 2012 estes gastos caíram, principalmente nos Estados Unidos, segundo Wischenbart. O que explicaria então a forte competitividade do segmento educacional é o potencial de crescimento dos novos mercados no cenário internacional, não apenas os BRICS, como também México, Turquia, Indonésia e países do Golfo. “A substituição de livros-texto tradicionais por digitais através de programas nacionais de compras é a cobertura desse bolo crescente”, afirma o consultor.
 
 
Fonte: Consultoria Rüdiger Wischenbart
Ranking
 
À primeira vista, o ranking parece estável, as 10 primeiras colocadas continuam as mesmas – as 4 primeiras continuaram inclusive na mesma ordem. Mas Wischenbart alerta: “Tomar essa continuidade como prova de estabilidade seria interpretar erroneamente as mudanças que caracterizam essa indústria abaixo da superfície”. Entre as 10 primeiras, apenas a Pearson – que inclui a editora Penguin e o setor de educação Pearson Education – vem expandindo continuamente. “O que era um setor governado por apenas alguns conglomerados na Europa, Nova York e, em alguns casos, no Japão, vê agora grupos na China, Rússia ou Brasil se tornando relevantes no palco internacional”, complementa o consultor.
 
As brasileiras Abril Educação, Saraiva e FTD marcaram presença no ranking esse ano também, mas apenas a Abril Educação subiu uma posição, passando de 40ª a 39ª colocação. Saraiva caiu da 50ª para a 56ª posição e FTD da 52ª para a 59ª posição no ranking. Para conferir o ranking completo, clique aqui.
 
Outro destaque foram as chinesas China Publishing Group Corporate e Phoenix Publishing and Media Company que, lideradas pelo governo, já estrearam na lista com faturamento superior a € 800 milhões.
 
Em conclusão, a estabilidade no topo da lista não reflete as turbulências que ainda virão. “Obviamente, é uma hora importante para estrategistas, para antecipar e conseguir navegar suas empresas nesses tempos interessantes”, finaliza Wischenbart.

sábado, 8 de junho de 2013

Saiu na mídia # 13: Paris ajudará livrarias contra concorrência da Amazon

Paris ajudará livrarias contra concorrência da Amazon (publicado na Revista Exame)

"Todo mundo está farto da Amazon", declarou a ministra de Cultura da França, Aurélie Filippetti


Brian Snyder/Reuters
Motorista entrega dois pacotes da Amazon.com em Boston, Massachusetts
A ministra insistiu que "é preciso respeitar o preço único do livro", algo que, segundo sua opinião, não é seguido pela Amazon
Paris - A ministra de Cultura da França, Aurélie Filippetti, defendeu nesta quarta-feira um plano de ajuda a favor dos livrarias independentes, ao mesmo tempo que revelou a preparação de "medidas muito fortes" contra a companhia americana de venda onlineAmazon, acusada de concorrência desleal.
"Todo mundo está farto da Amazon", declarou a ministra francesa em entrevista à emissora de rádio "RTL", na qual, inclusive, assinalou que esse sentimento existe em seu país de origem, os Estados Unidos, onde 10 mil empregos foram perdidos nas livrarias.
Segundo Aurélie, as medidas começaram a ser apresentadas na última segunda-feira aos profissionais franceses, com uma verba suplementar de 2 milhões de euros para o Centro Nacional do Livro (CNL), valor que se soma aos nove milhões de euros anunciados em março.
A ministra insistiu que "é preciso respeitar o preço único do livro", algo que, segundo sua opinião, não é seguido pela Amazon. A lei do preço único foi implantada na França em 1981 para proteger as livrarias independentes frente à concorrência das grandes cadeias de lojas de produtos culturais.
Os livrarias independentes, essencialmente pequenas e médias empresas, supõem entre 2,5 mil a 3 mil pontos de venda e 13 mil empregos. Segundo a ministra, seu faturamento caiu 8% entre 2003 e 2012.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Saiu na mídia # 12: Entre letras e números

Compartilhando o ótimo texto de Josélia Aguiar publicado no Valor Econômico em 28.03.2013



Otávio Marques da Costa enviou o currículo pelo site. Advogado jovem num grande escritório de São Paulo, queria mudar de profissão. Começou a cursar outra faculdade, de história, aventava um mestrado no exterior e, enquanto não se decidia, passou a se ocupar nas horas vagas como preparador de texto, um tipo avançado de revisor. Pelo site, seu currículo chegou até a diretora editorial da Companhia das Letras, então Maria Emília Bender. Contratado como assistente por um salário que correspondia a metade do que ganhava, mudou de emprego sem hesitar.
Contado até aí, o enredo se presta a um livro sobre gestão de carreira, título que talvez tivesse boa acolhida sem alcançar as listas de mais vendidos. Com o desfecho, dá até best-seller: depois de cinco anos, o funcionário que se distinguiu por um comprometimento singular acaba de assumir o recém-criado cargo de publisher, o que representa chefiar o coração de uma das mais prestigiosas editoras do país. A virada representa bem a ousadia na hora de apostar e a velocidade para obter resultados que exige hoje o mercado editorial brasileiro, espelho de grandes praças estrangeiras.
A função é compartilhada. Ao lado de Costa, assumiu Júlia Moritz, filha do fundador, Luiz Schwarcz. Ambos têm 31 anos, dividiam a mesma sala e agora participam juntos de temporadas de imersão no grupo britânico Penguin, que comprou 45% da Companhia das Letras em 2011. A mudança no organograma levou à saída de gente que estava havia décadas na casa, como a própria Maria Emília, e à promoção de assistentes para cargos de editores, agora ocupados também com novos selos editoriais, como Paralela e Seguinte, que marcam a entrada em nichos comerciais. Coordenados pela dupla de publishers, oito editores na faixa dos 30 anos leem, aprovam ou descartam obras oferecidas por agentes, "scouts" ou os próprios autores. Antes se responsabilizavam pela edição do texto - encomendas de tradução, preparação e revisão -, que cabe hoje a um núcleo criado exclusivamente para a tarefa.
A renovação das equipes - não só a troca, o rejuvenescimento de seus componentes - é uma das mudanças por que passam editoras de médio e grande porte diante de um mercado que tende a ficar ainda mais aguerrido. Pelo menos cinco das mais importantes editoras do país reestruturaram recentemente seu corpo editorial - além da Companhia, Record, Objetiva, Globo, Cosac Naify - e duas se constituíram ou deram sua arrancada há pouco tempo - LeYa e Intrínseca. Não só mais jovens, os editores, mais envolvidos do que antes com a escolha dos títulos, precisam estar mais pragmáticos. Num ofício historicamente associado à ideia de arte e artesania, não parece mais possível sobreviver alheio aos números.
O novo perfil de editor-gestor, que substitui o do editor que só atentava para o texto, e o formato de empresa mais diversificada, que não se acanha em abranger obras comerciais, são, em parte, a adaptação da editora de Schwarcz a um mercado que está modificado desde a criação de sua casa editorial, em 1986.
Nos últimos tempos, as vendas de livros têm crescido concentradas em poucos títulos comerciais, os chamados mega-sellers. Não são novidade na praça - o "Harry Potter", da Rocco, é de fins da década de 1990 -, mas agora praticamente dominam as listas de mais vendidos. O sucesso, que se dá em escala mundial, é levantado por estratégias de marketing agressivas.
Com a quantidade maior de títulos, operação com que as grandes ganham em escala, sobra pouco lugar nas vitrines para obras de arte ou não comerciais, os chamados long-sellers ou "fundo de catálogo", obras que, a despeito de sua qualidade e relevância, vendem aos poucos, sem instantânea pirotecnia. A vocação da grande literatura é sobreviver ao tempo. Num balanço de empresa, porém, é um valor dramaticamente não computável.
Costa e Júlia preferem não dizer qual é a nova cara da empresa. A pergunta é difícil e restritiva. "Um título talvez possa simbolizar a atual fase", sugere Costa. Da estante, pega a capa cítrica, o desenho de um imenso bigode. "Toda Poesia", de Paulo Leminski, cultuado poeta curitibano que morreu em 1989, cuja obra, dispersa em vários volumes, estava fora da praça. Saiu com tiragem atípica, alta para o gênero, 5 mil exemplares. Esgotou-se em dois dias. Uma nova tiragem de 5 mil foi encomendada e vendida. Na semana passada, o livro entrou na lista de mais vendidos na Livraria Cultura, rede com público mais intelectualizado, à frente da série pornô soft "50 Tons de Cinza", de E.L. James, publicada pela Intrínseca.
Um mega-seller exige ousadia e velocidade: para identificá-lo, oferecer nos leilões uma soma que os concorrentes não vão se arriscar em pagar, traduzi-lo a tempo e colocar nas livrarias em tiragens altas, indicando para livreiro e público que vale o negócio. Um pouco o "efeito-Tostines": vende mais porque é mais lido ou é mais lido porque vende mais.
Atentas às listas, editoras montadas na virada para a década zero zero especializaram-se, com equipe enxuta e capital de giro, na busca de livros campeões. A pioneira é a Sextante, fundada no Rio pelos irmãos Marcos e Tomás Pereira, em 1998. "O Código Da Vinci", de Dan Brown, inaugurou a sequência de feitos. Entre as mais recentes nesse filão, há a Novo Conceito, de porte menor que a Sextante, criada pelo casal Milla e Fernando Baracchini, de Ribeirão Preto, em 2004. Colocou nas listas romances açucarados como os de Nicholas Sparks -"Querido John" e "Um Homem de Sorte" -, formato que antes só se encontrava nas bancas de jornal.
Ninguém parece simbolizar mais essa nova geração de editores, que percebe o potencial de vendas de uma história, do que Jorge Oakim, da carioca Intrínseca, dono do "blockbuster" "50 Tons de Cinza", da britânica E.L. James. Para vencer o leilão do livro, ofereceu baita soma: US$ 780 mil. Um quarto disso já é considerado alto valor no mercado editorial. Até agora, vendeu 3,1 milhões em menos de um ano, cópias vendidas a R$ 39,90.
O economista com experiência no mercado financeiro começou modestamente sua editora em 2003. Só após quatro anos deslanchou. Seu primeiro best-seller, "A Menina Que Roubava Livros", de Markus Zusak, chegou a 1 milhão de cópias. Depois veio a série romântica de vampiros "Crepúsculo", de Stephenie Meyer, 5,5 milhões. A concorrente Sextante se animou com o desempenho do jovem editor, hoje com 43 anos, e se associou à empreitada, adquirindo 50%. Com a parceria, Oakim continua a cuidar da aquisição, da edição, da produção e do marketing. À Sextante cabem "back office", distribuição e comercial, processos que, para pequenas e até médias editoras, são de execução dificílima: um mega-seller naufraga se uma dessas etapas emperra.
O sucesso não se deve apenas à juventude da empresa e de seu público, mas ao modelo de negócio: "Publicamos poucos e bons livros, o que nos possibilita trabalhar cada título em profundidade, com projeto digital completo, campanha de marketing e de divulgação cuidadosa", respondeu Oakim ao Valor quando adquiriu a obra de Elio Gaspari. Em média, são 30 livros por ano. O mesmo que a Companhia das Letras publica em um mês. Ainda menos do que os 60 lançados mensalmente por um grupo grande como o Record, sediado no Rio. Uma sutileza que não deve passar despercebida: para descrever sua editora, Oakim não usa a palavra "comercial", termo que talvez soe pejorativo. Prefere "entretenimento".
O catálogo é um misto de pop, ação e suspense, obras que saem com tiragens iniciais de 50 mil exemplares - numa editora de qualidade, são comuns títulos de 3 mil a 5 mil exemplares. O movimento de sofisticação da casa, como levar Elio Gaspari - ex-Companhia das Letras, diga-se -, não é isolado. Oakim, que garante só publicar aquilo que leu e de que gostou, passou a garimpar literatura e jornalismo de gabarito, vencedores de Pulitzer como Jeniffer Egan, de "A Visita Cruel do Tempo". Não são títulos para repetir façanhas vendedoras, mas podem render prestígio, com resenhas em cadernos de cultura e mesas em festas literárias, espaços ocupados por editoras de qualidade.
Esse cenário mais competitivo demanda um novo profissional. Não basta só entender de letras, como na tradição editorial brasileira. Tem de entender também de números. Usar a designação "publisher" em vez de "editor" é mais do que se adaptar a um jargão da cultura de língua inglesa. Editor relaciona-se ao conteúdo: lida com o autor e o texto, a produção editorial em suas diversas etapas. O publisher se vincula ao negócio: escolhe, compra e publica, etapas que envolvem ideias, ofertas, pagamentos, campanhas e promoções.
Uma década e meia atrás, "publisher" era a palavra usada na imprensa para definir o estilo de Roberto Feith, hoje com 60 anos, à frente da carioca Objetiva. No seu catálogo, o ecletismo e a atualidade dos títulos garantiam presença constante nas listas: biografias, grandes reportagens, livros com temas prementes do país e do exterior, temperatura alta associada ao jornalismo.
A investida em títulos abertamente comerciais ocorreu a partir de 2005, quando surgiram os selos Suma, de ficção, e Fontanar, de não ficção. "A diversificação da linha editorial, com novos selos voltados para cada gênero, é o novo paradigma", constata Feith, há sete anos parte do grupo espanhol Santillana/Prisa. A razão não é outra: "Dificilmente uma editora poderá manter-se saudável e vigorosa se estiver voltada para um único segmento ou nicho." Entre best-sellers recentes, "Comer, Rezar, Amar", de Elizabeth Gilbert, vendeu no país 500 mil exemplares. Com fôlego financeiro, mantêm-se selos como o Alfaguara, com autores com prestígio entre a crítica.
Não é sem preocupação que Feith acompanha a queda de vendas da boa literatura, clássica ou contemporânea. "A ênfase das redes de livrarias costuma ser no que vende rápido, caso contrário deixa de ser exposto", comenta. O risco é o de a literatura se tornar cada vez mais restrita. "A boa ficção literária ajuda-nos a entender quem somos e o tempo em que vivemos. Isso tem valor."
A avalanche dos comerciais nas listas coincide com o aparecimento de um novo leitor no país, "ingresso no mundo da leitura após o prolongado período de crescimento por que passa a economia", afirma Pascoal Soto, de 47 anos, diretor-editorial da LeYa Brasil, filial do maior grupo editorial português, com escritórios em São Paulo e no Rio. "Antes conhecíamos os leitores pelo RG e CPF, os habituais. Continuam a existir e a aumentar em número, mas não na mesma proporção em que cresce o de não habituais", observa.
A intenção de atender esse público menos afeito a títulos intelectualizados caracteriza a LeYa desde sua chegada ao país, em 2009. Cresceu rapidamente. Desocupou o pequeno escritório da avenida Angélica para se estabelecer numa grande casa do Pacaembu. O ritmo é de média-grande, são já 330 livros publicados, 40 figuraram em listas de mais vendidos. Entre os lançamentos que alcançaram as listas, a série de fantasia "Guerra dos Tronos", de George Martin, os cinco títulos com vendas de 1,4 milhão de exemplares.
Para o bolso do consumidor, o custo do livro se tornou menos pesado. Com a concorrência, que levou à multiplicação das edições pocket, o preço médio caiu 46% de 2004 a 2011, segundo a Fipe. A expectativa agora é que, com as novas tecnologias, se resolvam outros antigos entraves, como o da distribuição num país continental.
O crescimento do digital ainda está em curso e deve trazer novidades ao mercado brasileiro nos próximos anos, comenta Marcos Strecker, diretor-editorial da Globo Livros. A venda de e-book cresce exponencialmente, mas ainda de efeito irrisório no faturamento, segundo as editoras consultadas. "A internet como meio de venda e de divulgação passa a ter um papel cada vez maior, talvez determinante", observa Strecker. Potencial que tem sido explorado: como conta Oakim, da Intrínseca, em blogs e redes sociais identifica autores e enredos do gosto do seu público.
Depois do sucesso de obras como "Ágape", do padre Marcelo Rossi, 6 milhões de cópias em 13 meses, esperava-se que a Globo assumisse uma atuação bastante comercial. Não foi o que ocorreu. A empresa "continuará a ter títulos comerciais muito fortes, mas vai fortalecer seu catálogo de prestígio", esclarece Strecker. No último ano, reorganizou o catálogo em novos selos, como o Biblioteca Azul, que relançou os 17 volumes da "Comédia Humana", de Balzac, clássico entre os clássicos.
O mix qualidade + comercial não é novo. Alfredo Machado, que fundou a Record há 70 anos, costumava dizer que fazia um pouco como Robin Hood: com o dinheiro que faturava com os best-sellers, dava para publicar autores de qualidade desconhecidos ou, sendo conhecidos, de baixas tiragens. Parece ser a receita para toda editora pequena-média que começa a crescer, se quer se tornar grande.
Seu sucessor, o filho Sergio Machado, 64 anos, que divide a direção com a irmã, Sônia Jardim, diz que não há um percentual fixo - x% comercial, x% de qualidade - para alcançar o equilíbrio num catálogo. "É um pouco como receita de bolo: cada vez que você faz, altera um pouco algum dos ingredientes, livros de risco e livro de retorno certo." Em quatro décadas, diz que já viu um pouco de tudo, desde editoras de qualidade se abrindo para ter selos comerciais quanto o contrário, editoras de autoajuda investindo em autores de prestigio para diminuir a volatilidade. Não se deve esquecer, como lembra, que muitas vezes o de qualidade vende bastante bem, como Umberto Eco. "O que não se pode, mesmo, é ficar apenas num nicho, seja qual for."
A Record também passou por uma reestruturação em seu corpo editorial. Luciana Vilas-Boas, diretora editorial por 17 anos da Record e um dos nomes mais importantes no mercado, saiu no começo do ano passado. O cargo foi abolido, quatro pessoas repartem a função.
Esse processe de rejuvenescimento nas equipes ocorre em meio à descoberta, depois do boom "Harry Potter", do chamado "leitor jovem adulto, faixa que vai até os 30 anos, que é antenado e está nas mídias sociais". Jovens editores em tese teriam mais convivência com esse público-alvo. Machado diz que as mudanças no mercado - os mega-sellers, os "players" internacionais - não alteraram a liquidez do grupo, que reúne seis editoras incorporadas ao longo de sua história, como a José Olympio, a Civilização Brasileira e, há poucos meses, a Paz e Terra. Ocupar a lista de mais vendidos às vezes significa pouco em relação ao balanço financeiro. Não há, por ora, a expectativa de a empresa, 100% nacional, vir a ter participação estrangeira. Não é, porém, hipótese que descarta.
Editoras de prestígio tentam recuperar parte do espaço tomado pelas abertamente comerciais. Essas, por sua vez, tentam adquirir um pouco da sofisticação das primeiras. Bons nichos podem ficar a descoberto - publishers que não querem perseguir best-sellers apostam nisso. "Sem dúvida vamos tentar fazer as coisas legais que as editoras de qualidade não vão mais conseguir", anima-se Florencia Ferrari, de 36 anos, diretora-editorial da Cosac Naify há quase um ano. O maior desafio da casa editorial paulistana, conhecida pelos livros de arte e humanidades de acabamento luxuoso, não é a concorrência, mas, sim, tornar os projetos financeiramente cabíveis. Em seus 15 anos, fez fama de vender livros caros e viver no vermelho, sobrevivência ajudada com aportes dos sócios, Charles Cosac e Michael Naify.
O símbolo da virada da Cosac é a "Coleção Portátil", de bolso e mais barata, com 20 títulos que incluem de Dostoiévski a Cacaso. Com design à Cosac Naify: um grande planejamento, coordenado entre as várias equipes, do editorial à produção, permitiu, por exemplo, o uso de papel importado, mais caro. O gasto foi compensado com economia feita na gráfica, rodando 20 títulos ao mesmo tempo. Uma gestão somente pragmática não combinaria com a filosofia da empresa, como reconhece Florencia: "Queremos ter projetos sustentáveis mantendo a nossa identidade". Fecharam o ano fiscal de 2012 no azul. "Se conseguirmos provar que uma editora assim pode funcionar, e se for um exemplo para que surjam outras editoras como a nossa, o Brasil vai ganhar", diz. A aposta é que, "assim como há cada vez mais consumidores exigentes, haverá cada vez mais leitores exigentes".
A literatura brasileira, na atual fase de novos autores com atenção na mídia, entusiasma a Cosac Naify. As tiragens são pequenas, se comparadas às de títulos comerciais - ainda mais se comparadas às dos mega-sellers -, mas editores ouvidos pelo Valor dizem que o autor nacional de qualidade tende a vender mais que seu colega estrangeiro de igual talento, porém desconhecido no país. O motivo para apostar nessas novas vozes não é só financeiro, como explica a diretora-editorial Florencia: "O autor brasileiro 'dá vida' a uma editora fincada em obras de referência como a nossa". A esse nicho se dedicam não só grandes-médias, também as editoras de porte menor, como a 34 e a Iluminuras, de São Paulo, que publicam autores que arrebatam júris especializados. A investida vai contar com gente que está há tempos no ramo. Como em qualquer campo, artilheiros são levados de um time a outro. Heloisa Jahn e Marta Garcia, com décadas de Companhia das Letras, agora são do time da Cosac Naify.
O caminho até o cargo de publisher requer virtudes reconhecíveis pelos pares. É o caso de Luiz Schwarcz e Otávio Marques da Costa, da Companhia das Letras: quem convive nota a semelhança de perfil. Caxias. "Otávio é como meu pai era na idade dele", imagina Júlia. "Tirei uma foto dos dois parados na rua, de lado, iguaizinhos", acrescenta, entre risos. Costa repara: "Mas ele diz que é muito mais bonito".
A filha tentou evitar seguir o mesmo caminho. Receava que a decisão se devesse apenas à influência da família. Cresceu ajudando o pai a escolher capas, acompanhava-o nas visitas às livrarias nos fins de semana, quando ia à paisana saber se os livros da editora estavam vendendo bem. Via a mãe, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, também editora, anotar à caneta os originais que levava para ler em casa. Por fim estudou história e entrou como estagiária na empresa. Está lá há 12 anos. Parte da formação se deu como editora do selo infantil, período em que teve duas filhas, hoje com 6 e 4 anos, experiência que ampliou sua visão do público-alvo.
A carreira é chamada de "editoração" nas poucas universidades nacionais em que o curso é oferecido. Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), é recente a pós-graduação de gestão editorial. Na tradição de arte e ofício, costuma passar de pai para filho. Além dos laços familiares citados até aqui, lembre-se que Marcos e Tomás Pereira, da Sextante, parceiros de Jorge Oakim, são netos de José Olympio, outro dos principais nomes da história editorial brasileira.
Editores-fundadores também elegem discípulos mesmo sem grau de parentesco. Os talentos são recrutados em áreas como letras, história, ciências sociais, filosofia e jornalismo. Começam cedo, em funções de assistente - a dupla de publishers e a equipe de oito editores da Companhia das Letras foram em maioria formados por Schwarcz e a diretora-editorial por décadas, Maria Emília Bender.
Florencia Ferrari concluía um mestrado em antropologia - é Ph.D. na área - quando se tornou, em 2002, ajudante de Augusto Massi, na época diretor-presidente da Cosac Naify. Seu crescimento na empresa se deu ao mesmo tempo em que a editora se desenvolvia. Não é apenas uma intelectual de sólida formação. A capacidade de gestão é elogiada desde a época de assistente. No caratê, chegou à faixa preta, esporte temporariamente interrompido - está grávida da segunda filha.
Pascoal Soto, da LeYa, tinha pouco mais de 20 anos em 1987 ao ingressar na Editora Moderna como ajudante de armazéns gerais: carregava e descarregava caminhões de livros e papéis. Passaria por quase todas as áreas nos 15 anos seguintes até chegar ao editorial. Foi editor-sênior na Salamandra, comprada pela Moderna, e na Planeta, quando a Moderna passou a integrar o grupo Prisa/Santillana. Entre seus mestres, cita Ricardo Feltre, ex-dono da Moderna, "empresário exemplar, construiu a Moderna à base de sacrifício e paixão pelo livro". Depois, Ricardo Arissa Feltre, "filho que herdou todas as qualidades do pai". A tradição perpassa até trajetórias que parecem não estar relacionadas.
Quando não são talentos nascidos nas casas editoriais, editores e publishers migram do jornalismo. Marcos Strecker, da Globo Livros, fez longa carreira em jornal impresso. Não é um neófito em gestão. Antes, administrou a própria empresa, da área de comunicação, e concluiu um MBA pela FGV. O cinema é uma de suas grandes paixões: publicou livros na área e fez um filme sobre a mãe de Thomas Mann, que era brasileira.
Roberto Feith, da Objetiva, vem de uma família de empresários e foi correspondente internacional da Rede Globo - na internet, entre outros, é possível ver a cobertura que fez da invasão soviética do Afeganistão, em 1979. O catálogo em que ressoa o jornalismo se explica. Como ressalta, "diversas das aptidões que fazem um bom repórter se aplicam ao editor". No jornalismo foi buscar editores seus, como Arthur Dapiève, que cuida do selo Objetiva nacional, e Marcelo Ferroni, do Alfaguara. Enumera essas aptidões: "A percepção dos assuntos que interessam ao leitor, uma sensibilidade sobre como abordá-los, saber o que configura um texto bem escrito, a capacidade de trabalhar em equipe; enfim, não é coincidência que tantos profissionais já fizeram a transição da imprensa para as editoras ou vice-versa".
Os requisitos básicos, as virtudes de fundo, continuam iguais. "Ser um bom leitor, ter um bom texto e um bom repertório", diz Florencia, da Cosac. De diferente, há a necessidade de ver o livro num "contexto comercial e estratégico", afirma Strecker, da Globo. Com as novas exigências do mercado editorial, Soto, da LeYa, diz acreditar que será cada vez mais receptivo aos profissionais de marketing. Não vê, no entanto, uma substituição completa do editor pelo gestor. "Há os que entendem muito de finanças e gestão e há os que entendem muito de livros. Ter um grande gestor à frente de uma editora não é garantia de sucesso no mercado editorial. Entretanto, sem um bom editor não há gestor que faça milagre." Apesar dos números, prevalecem as letras.