segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Perda da Capacidade de Vender

Já faz alguns anos que venho tentando demonstrar para livrarias e distribuidores que a consignação, como base da comercialização do livro, não é a maravilha que parece ser. Mas, agora, acho que encontrei uma tese que pode comprovar isso, e que é a seguinte: a consignação leva à perda da capacidade de vender livros.

Explico-me: a consignação, como principal relação comercial de uma livraria, de uma distribuidora e até de uma editora, faz com que pouco a pouco, a cada ano, estas empresas e seus funcionários percam a capacidade de vender, seja para livrarias e distribuidoras, no caso da editora, seja para o consumidor final, o leitor, no caso da livraria.

O comércio, desde suas origens há alguns milhares de anos, sempre se baseou na compra e venda de mercadorias. Alguém produz, alguém compra desse produtor, e alguém vende para o consumidor final. Esta é a relação básica do comércio. Hoje, no comércio do livro, a editora produz e, na maioria dos casos, consigna para distribuidores e livrarias, no caso de atendimento direto. Os distribuidores também consignam para as livrarias que atendem. Portanto, o que deveria ser uma operação eventual, a consignação, com o tempo transformou-se na base da atual comercialização do livro no Brasil. Em casos extremos, existem distribuidores e livrarias que não admitem nem pensar na operação de compra.

Vejo vários problemas diretamente relacionados à atual prática da consignação e que dizem respeito não somente às editoras, mas também às distribuidoras e livrarias, e aos funcionários de todas elas diretamente ligados à área de vendas. É claro que existem exceções ao que será relatado abaixo.

Problema 1-acomodação: a princípio é uma palavra forte, mas que pode ser útil para chamar a atenção para o problema. Se os livros vão consignados para distribuidores e livrarias, não é necessário muito empenho para colocar o livro nas distribuidoras e estas nas livrarias. Nas livrarias, como o livro também está consignado, isto é, somente será pago às distribuidoras e editoras se for vendido, também não será necessário empenho para a venda.

Solução 1-empenho: a maioria das pessoas que entram numa livraria já sabe o que vai comprar e realizará a compra no caso da livraria ter o livro procurado. O empenho é necessário a partir deste ponto. Como vender um segundo livro para esse cliente? Como vender um livro que não está em estoque na livraria no momento? Como vender um livro que ainda não foi lançado, a pré-venda? Como trabalhar o acervo da livraria, como destacá-lo, como relacioná-lo com o que acontece no mundo em termos de economia, política, cultura etc? Agora, mais uma pergunta: se as vendas por impulso já existem e se os livros estão consignados, qual a necessidade que o funcionário tem de se empenhar para dar conta das questões acima? Existe alguma interação entre os responsáveis pelos pedidos de consignação e os vendedores da livraria? Eles se falam? Trocam ideias?

Exemplo de acomodação 1, verídico: uma amiga editora entrou numa respeitada livraria e perguntou ao vendedor/atendente/livreiro se tinha o livro X e ele foi buscá-lo na prateleira. Bom, não? Com o livro nas mãos, minha amiga perguntou se ele tinha os outros livros do autor. Para sua surpresa, a resposta atravessada por uma pergunta que a deixou boquiaberta foi: "mas a senhora vai levar esses outros livros também?" Minha amiga ainda teve presença de espírito e respondeu que não levaria nem aqueles e nem o que estava em suas mãos, e foi embora da livraria.

Exemplo de acomodação 2, presenciado: o livro da Zahar "O Andar do Bêbado" está, no momento em que escrevo, há 23 semanas nas listas de mais vendidos e aproxima-se dos 40 mil exemplares vendidos. O que se imagina da exposição de um livro com essa trajetória de vendas é que esteja em exposição bem destacada nas livrarias, sim ou não? Pois bem, semana passada visitei duas livrarias importantes no Rio e em São Paulo; numa delas estava exposto na parte inferior da principal mesa da livraria e, na outra, nem exposto estava. Só era encontrado na prateleira, na seção de física. Isso é que é capacidade de perder vendas! Agora, se o fornecimento dessas lojas fosse por compra e não por consignação, isso aconteceria? Segue um exemplo de outra forma de trabalhar.

Exemplo de empenho, também verídico: ao longo de agosto de 2009 começa a divulgação do filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, e que será lançado em março nos EUA e em abril no Brasil. O livro da Zahar "Alice edição comentada" de Lewis Carroll estava em reimpressão e chegou no final de agosto. Passei a informação para as livrarias e distribuidores. Terminou o ano e uma livraria importante vendeu 10 vezes mais que qualquer distribuidor ou outra livraria, seja de rede ou não. E essa diferença é significativa também no número de exemplares, cuja ordem de grandeza chega aos mil. Como livro tem o preço de R$ 79,00, a diferença de faturamento entre os outros e ela foi de R$ 7.900,00 para R$ 79.000,00. Coincidência ou não (a escolha é de você, leitor) essa livraria opta por comprar seu acervo. Se o acervo é comprado, o responsável pela compra sabe, assim como os vendedores da livraria, que essa mercadoria deve ser vendida dentro de um prazo X, pois precisa ser paga à editora ou distribuidora. Essa equipe de compra e vendas soube reconhecer uma oportunidade de venda diferenciada de um livro que não era uma novidade, de um livro que está em catálogo há mais de um século. É, portanto, uma equipe antenada com o que acontece para além do ambiente físico da livraria.

Problema 2-acervo sem foco: com a consignação é comum as livrarias aceitarem todo e qualquer título que as editoras e distribuidoras queiram enviar, pois, como não é comprado, acham que não tem custo. Será? Lembro do meu tempo de livraria quando algumas editoras e distribuidoras insistiam em enviar títulos de áreas que a livraria não trabalhava. Eles insistiam dizendo "mas é consignado, não tem custo". Tem sim, e muito. O primeiro custo é o administrativo/burocrático: recebimento da mercadoria; manuseio; conferência; entrada no sistema; distribuição pela loja. Depois, como o livro não venderá, vem a devolução para a editora ou distribuidora: retirar da prateleira; conferência; emissão de nota fiscal; embalar; solicitar a coleta; entregar a mercadoria. Quantas horas desperdiçadas com trabalho inútil. Um outro custo é a perda de faturamento. Como esses títulos que não têm a ver com o acervo da livraria estão na loja, acabam ocupando lugar nas prateleiras e nas mesas de exposição de lançamentos e destaques, tirando assim o espaço de títulos mais de acordo com o público da livraria. Muitas vezes vejo livrarias entulhadas de livros, mas sem foco no acervo. Não adianta uma livraria - principalmente a pequena e média, até pelo espaço físico disponível - querer ter de tudo um pouco, pois acaba não tendo nada que a diferencie nem no mercado e nem aos olhos de seus clientes.

Solução 2-especialização: para conseguir ser uma livraria de referência é necessário que as pessoas responsáveis pelas pedidos, sejam de compra e/ou consignação, conheçam os catálogos das editoras e seus perfis editoriais, além da relevância dos autores. Devem ter acesso também às informações de vendas da livraria para realizar análises e poder fazer os pedidos subsidiados por essas informações.

Problema 3-atraso na profissionalização do setor: a consignação leva a não se exigir muito dos funcionários o conhecimento do produto, no caso o livro, que devem vender. E isso vale para os três setores, editora, distribuidora, livraria.

Solução 3-ler e estudar: sei que grande parte das pessoas - se não a maioria -, que trabalham nas áreas de compra e/ou venda de editoras, distribuidoras e livrarias não têm o hábito da leitura. Também sei que é difícil que de uma hora pra outra passem a ser leitores. Mas, tenho certeza que, sem o hábito da leitura e consequente estudo, não há como crescer na profissão, ter emprego garantido e ter melhores salários.

A escolha é de cada um e boas leituras.

23 comentários:

Marcello disse...

Olá Jaime, prazer em lê-lo, trabalhei em diversas livrarias de Sp ( Fnac, Cultura e Saraiva) e na Superpedido e Ed. Gente, hoje trabalho na Leitura BH como coordenador, e a consignação sempre foi uma faca de dois gumes, se o livreiro não souber expor seus livros e não ensinar aos seus funcionários o valor de cada um deles, certamente ele terá um acervo abarrotado de títulos e um faturamento minguado.

Vale destacar aqui o trabalho da Editora Gente pelas mãos de Sérgio Pinácio e Anderson Cavalcante que ministram cursos sobre seus títulos e usam uma ferramenta muito importante chamada estoque interativo,aprendendo qual o perfil do cliente e enviando os títulos que possam ser absorvidos por esses possíveis leitores.

Vale ressaltar também a falta de empenho dos donos de livraria e dos próprios funcionários em se atualizar seja com cursos ou lendo os diversos sites e blogs sobre o mercado editorial, com exceção da Livraria Cultura, claro.

Abraços.

SÉRGIO PINÁCIO disse...

Jaime, boa tarde.
Quero parabenizá-lo pela excelente postagem.
Estou a dois anos realizado treinamentos em diversas livrarias e grandes redes do estado de São Paulo, o objetivo é conscientiza-los da importância da leitura.
Ampliando a não só o conhecimento do acervo que eles possuem, mas também da sua capacidade humana.
Evitando assim atendimentos como o da sua amiga, e a má exposição de um título com uma tragetória tão significatiava como o Andar do bebado.
Eu também concordo com você que a consignação gera acomodação, precisamos estudar e encontrar uma maneira de estimular essa nova geração de livreiros.Que se sentem mais "seguros" trabalhando com os livros consignados.
Lendo a sua postagem eu não me senti tão sozinho, na luta por um "mercado" melhor.

Um grande abraço
Sérgio Pinácio
Editora Gente

Juliana disse...

Concordo contigo em todos os sentidos? Mas será que certas livrarias e distribuidores querem pagar o preço da profissionalização? E o estado que os livros voltam desta consignação? Há muita coisa prá se pensar sobre este assunto!

Jaime Mendes disse...

Juliana, Sergio e Marcelo

que bom poder ler que vocês também estão pensando sobre a consignação e seus problemas. Acho que precisamos ampliar a discussão e encontrar alternativas para a comercialização, pois, do jeito que está hoje, vai inviabilizar o negócio do livro.

Acho que a Juliana toca em alguns pontos importantes. Vamos discutí-los?

Juliana, se puder informar, você trabalha em que empresa?

Obrigado pelos comentários.

Jaime

Vania Lacerda disse...

Olá, Jaime.
Assunto polêmico, esse. Acho a consignação um mal necessário. Dá um trabalho imenso, exige pesssoal voltado exclusivamente para controlar, fazer acertos, devoluções. Voce falou com precisão: a consignação custa, sim, e custa muito. Então, só é possível receber, mesmo consignado, o livro que se imagine ter alguma expectativa de venda.
Mas, negocialmente falando, não vejo como fazer frente à avalanche de lançamentos que saem todas as semanas, sem o mecanismo da consignação.
Livrarias especializadas talvez possam não consignar. Livrarias como a minha, que atendem a um público muito diversificado, tem que ter de tudo. E o número de lançamentos é uma coisa insana, voce há de concordar...
É preciso ter critérios, claro. Acho que o ideal é um mix entre compra e consignação. Eu cheguei a trabalhar com 70 editoras, em regime de consignação, uma loucura. Hoje trabalho com 45, o resto é compra. Pretendo chegar a um numero entre 20 e 25, e manter as demais como compra. Mas esse grupo de 20 a 25, terá que ser consignação mesmo. Uma Record, para citar algum exemplo, solta por baixo 40 novos titulos no mes. Compra firme, talvez eu fizesse de uns 6 ou sete. E os outros 33 não teriam nenhuma chance de se encontrar com o leitor, meu cliente... No "frigir dos ovos", desse grupo de 30 e tantos livros que eu provavelmente teria dispensado, sempre tem alguns que vendem surpreendentemente bem.
Olha, a Cammpus tem um livro ótimo sobre essa questão da oferta cada vez mais variada, "A Cauda Longa". Excelente, vale a leitura.

Vania Lacerda disse...

Embora eu concorde com o que vc escreveu, e assine em baixo de quase tudo, tem um ponto que minha experiência vai no sentido oposto: isso do cliente já entrar na livraria sabendo o livro que quer. Pelo menos aqui na minha realidade, ele não sabe não. A maioria tem uma área de preferência, vai naquela área, olha um livro, olha outro, até achar um que o "fisgue". Daí a importância da exposição adequada, para que o livro tenha chance de encontrar seu dono.

SÉRGIO PINÁCIO disse...

Jaime a Juliana toca em um ponto realmente muito relevante.Até que ponto o proprietário quer para o preço pela profissionalização?
A resposta fica visível quando visitamos a livraria.É por isso que uma das formas que encontrei foi de realizar treinamentos com os vendedores, proprietários e gerentes.Apesar que o interesse deveria partir do livreiro, como isso não acontece. Temos que sempre estar criando ferramentas para auxiliar e aumentar as vendas.
É uma pena mas o que percebo é que muitas empresas (livrarias) não desejam investir no profissionalismo.
Um grande abraço a todos.
Juliana, Jaime, Marcello

Juliana disse...

Eu trabalhava em uma livraria de São Paulo. No momento, estou em férias de trabalho!

Jaime Mendes disse...

Olá Vania,

Conheço e já li o Cauda Longa sim. Também recomendo.

Sei que são muitos lançamentos por dia; algo em torno de 80. É claro que é inviável comprar tudo. Por outro lado, será que é necessário ter tudo que é lançado nas livrarias? Às vezes acho, ou melhor, tenho certeza que a preocupação com os lançamentos, com as novidades, é tamanha que os livreiros se esquecem dos livros já publicados há um, dois ou 10 anos atrás. Se esquecem também que novidade é o livro que ainda não foi comprado pelo leitor.

Qual seria então uma alternativa à consignação para dar conta de todos esses lançamentos? Acho que poderia ser um sistema de compra com direito a devolução, mas com algumas regras, para não ser uma consignação disfarçada. Já comecei os testes do seguinte sistema: a cada seis meses o cliente pode devolver entre 20% e 30% do que comprar. É claro que os prazos de pagamento têm que ser um pouco maiores do que os atuais.

Quais os benefícios? O livreiro começa a ser obrigado a voltar a escolher e saber vender. Vai trabalhar melhor os títulos na livraria e, a médio prazo, vai vender mais. É claro que não vai acertar sempre e, por isso, tem a margem de segurança na devolução previamente acordada. Para a editora o benefício maior é saber que de uma tiragem de 5 mil exs, entre 20% e 30% podem ser devolvidos. Com isso, poderá fazer as reimpressões com mais segurança e sem deixar o livro em falta no mercado.
Obrigado pela participação; acho que é com a troca de ideias e experiências que poderemos melhor nosso mercado.

Jaime Mendes disse...

Vania,

posso ter exagerado um pouco na questão da maioria dos clientes já saber o que querem comprar. Mas, o que é importante, é o leitor, o cliente, ter uma ideia clara do que pode ser encontrado na livraria. Saber as áreas de especialização dessa livraria. Como você mesmo disse, o cliente vai na seção, no assunto e, aí, é que pode aparecer o diferencial de acervo de uma livraria para outra. Além disso, os livreiros têm que saber expor seu acervo e não somente os lançamentos de ontem ou de uma semana atrás.

Abraço

Vania Lacerda disse...

É, acho que dá pra buscar mecanismos de substituição à consignação, sim. Acho a compra com direito a devolução um bom sistema. E tenho experimentado, com bons resultados, o seguinte: o catálogo da editora a gente compra, porque dá pra comprar com segurança, já temos um histórico. Os lançamentos a gente consigna, e aí vamos ver...
Ri muito aqui com a história de dar mais importância aos lançamentos do que ao resto todo, é a mais pura verdade...
Mas olha, é que é chato não ter os lançamentos, a loja fica com jeitão envelhecido. É muito chato não ter o livro, mesmo fraquinho, que a Editora Globo está divulgando em suas outras midias, ou que a Fundamento está anunciando no Discovery Kids, ou que a Sextante botou um encartezinho em toooodos, tooodos os seus outros livros...
E também não achei solução ainda para aquelas editoras tipo Cosac ou Global, de ótimo catálogo, que um livreiro consciente quer ter, mas de giro muito lento.
Mas certamente as soluções hão de ir brotando assim das conversas, das opiniões. Obrigada por abrir espaço para isso, e por dividir seu conhecimento conosco.

Marcello disse...

Bom, eu acho que temos 2 problemas a serem enfrentados além da consignação.

A falta de profissionalismo nas Livrarias e o excesso de lançamentos de algumas editoras que se utilizam das livrarias como um estoque de livros consignados.

A Ed. Record faz isso há anos, títulos que não tem expressão nenhuma, são enviados em quantidades absurdas.

O que a Vania disse sobre diminuir o n° de editoras consignadas é muito importante, na Leitura em BH, sempre ocorre algum tipo de problema no acerto pq são muitas editoras,distribuidoras,autores independentes, acredito se conseguirmos diminuir para 5 editoras (as principais) seria ótimo. E quanto ao acervo, acho que a solução seria comprar os livros de curva B e os outros títulos apenas com encomenda.

O Segundo problema levantado pelo meu caro amigo Sérgio é a falta de profissionalismo, de apoio do sindicato com a formação de quem trabalha em livrarias, o mercado precisa muito de um curso técnico ou superior nessa área, eu montei um treinamento de Literatura que está sendo ministrado nas lojas de BH, e dividi o curso em 4 blocos :
- Literatura Estrangeira
- Literatuta Nacional
- Arte
- Técnicos e Jurídicos
Mas isso não basta, pq o proprietário não paga o suficiente, não há incentivos...

O que fazer então para não falharmos ???

Vania Lacerda disse...

Olá, Marcello.
Interessante essa coisa do treinamento em Literatura. Caso possa me dizer: voce parte dos titulos mais vendidos, dos autores mais importantes, ou faz por editora?

Jaime Mendes disse...

Marcello,

a questão da profissionalização dos livreiros, a cada dia que passa, fica mais evidente e pode vir a transformar-se em mais um gargalho para o crescimento do negócio do livro. Já fiz dois posts sobre essa questão; não sei se você já os leu.

http://livroslivrariaselivreiros.blogspot.com/2008/12/formao-de-livreiros-1-problemas.html

http://livroslivrariaselivreiros.blogspot.com/2009/04/formacao-de-livreiros-2-uma-solucao.html

Phallos disse...

Boa noite.
Sei que este blogue é de um grande livreiro, membro de uma editora gigante, e busca alternativas para o mercado literário como um todo. Também compreendo que a consignação é de fato problemática para o mercado (como um todo). Contudo, concordo com autores de outros blogues que apontam esta como única ferramenta para sustentação de editoras pequenas ou editoras e escritores que, embora grandes(no sentido de qualidade), não poderiam de outra forma ter seus livros acessíveis ao público.
Meu editor disse algo muito importante: se as grandes editoras são fechadas aos autores iniciantes, as grandes livrarias são ainda mais fechadas para as editoras iniciantes. Afinal, qual a grande livraria que me compraria cem exemplares de meu primeiro romance, lançado por uma editora pequena?
Queria até saber do pessoal que trabalha com consignação como faço para ter meu livro em suas livrarias. (risos)

Jaime Mendes disse...

Olá Phallos,

não é o tamanho da editora que determinará o sucesso ou não de um livro, de um título. Aliás, acho que o negócio do livro ainda é um dos poucos no qual o "tamanho não é documento".

Para exemplificar, cerca de 4 ou 5 anos atrás, o vencedor do prêmio Jabuti foi um autor do interior de SP, acho que de Ribeirão Preto, publicado por uma editora pequena. Seu nome, Menalton Braft. Depois do prêmio foi contratado pela Record e publicou por lá. Não sei se sucesso ou não.

Nos dias de hoje, com toda a web à disposição, o que é fundamental é divulgar o trabalho e, muito provavelmente, esse trabalho aparecerá, nem que seja num nicho de mercado. É ilusão achar que somente porque o livro está nas livrarias ele vai vender. Se não houver dvulgação, se não houver boca-a-boca, vai ficar na estante e talvez pegando poeira.

O que as editoras mais publicam anualmente são livros que vendem pouco, pois nosso mercado, nosso leque de leitores ainda é muito pequeno para o tamanho da população. Na verdade, as editoras com seus muitos títulos publicados a cada ano, disputam o mesmo leitor. Acontece que a capacidade de leitura das pessoas é limitada ao tempo, ao dia de 24h.

Portanto, foque na divulgação e talvez as vendas aconteçam.

Abraço
Jaime

Phallos disse...

Tenho plena consciência disso, Jaime. O escritor deve dedicar mais do seu tempo fazendo marquetim de seu livro que escrevendo, se quiser ter alguma visibilidade. Contudo, a questão que enfoquei é outra: pesquisas mostram que um livro cuja capa é mostrada na livraria vende três vezes mais que o que tem apenas sua lomabada visível. Imagine um livro que não está em nenhuma livraria, sequer com a lombada?
Há muitos leitores ainda (e os que mais cultivam o hábito de ler, que não seguem a moda, são a maioria) que ainda compram o livro depois de folheá-lo, de ler trechos, sentir a textura do papel.
Mas como levar seu livro a esse tipo de leitor, se as livrarias não tiverem uma alternativa para autores iniciantes?

Vania Lacerda disse...

Bateu no ponto, Jaime. É livro demais para um público leitor que cresce sim, mas não na mesma proporção. Como resultado, temos obras ótimas, que simplesmente passam despercebidas. O livreiro não consegue trabalhar os titulos como deveria, conhecer, oferecer. Não dá tempo, é livro demais. (aliás, esse é o titulo de um livrinho pequenininho mas bem interessante, sobre o nosso mercado, "Livros demais!"). Quanto à questão que o Phallos levantou, vamos lembrar que distribuidoras existem para isso mesmo. Para uma editora pequena, é indispensável uma boa distribuidora. E também tem que definir seu nicho: não dá pra ficar fazendo o que todo mundo já faz.

Cult disse...

Apesar de 95% do nosso acervo atual ser em consignação, Concordo plenamente com o autor do blog.

Em nossa politica comercial interna, só estamos autorizados a realizar compra direta quando o livro best-seller estiver em promoção superior a 60% de desconto em relação ao preço de capa.

Elias disse...

Absolutamente fantástica sua reflexão sobre o assunto consignação.

Faltou apenas comentar os prejuizos causados ao desenvolvimento de novos autores que, diante desse cenário, não conseguem visibilidade e oportunidade de disputar espaço com aqueles já consagrados.

Parabéns!

Elias Karan
ww.eliaskaran.com

Livraria 30porcento disse...

É fácil notar os aspectos positivos de um acervo comprado em muitos sebos de qualidade. Ao contrário do que acontece nas consignações de redes de livrarias, grande parte dos livros que chegam às prateleiras de tais sebos passam pelo crivo do responsável. E é justamente esta acomodação gerada pela segurança da consignação que faz com que raramente se encontre, aqui no Brasil, livrarias que trabalhem simultaneamente com livros novos e livros usados.

Sebo Labirinto disse...

Prezados,

Acabo de criar um sebo virtual e entrar nesse comércio de livros. Por enquanto, estou vendendo no site alguns dos meus livros (pois sou formada em Letras e leitora apaixonada, tenho pouco mais de 700 livros cadastrados no site). Porém, gostaria de começar a vender também livros novos, lançamentos. Já fiz cadastro no site de algumas editoras, mas elas sempre me redirecionam para a distribuidora. Gostaria de saber como faço para vender por consignação? Com quem tenho que entrar em contato, com a editora, com a distribuidora? Como funciona isso? Ainda estou um pouco perdida. Qualquer ajuda será bem-vinda.

Obrigada desde já.

Bianca disse...

Oi Jaime!!!Gostei da tua postagem e concordo com tudo que você escreveu.
Eu tenho uma Banca de Revista já faz 7 anos e tive muitos problemas com a “tal consignação”,quando comecei aqui em Porto Alegre existiam duas distribuidoras grandes a Dipa e a Chinaglia,eu comecei apenas com a Dipa dando um caução de 4000,00 e não pude fazer a Chinaglia porque tinha que ter um fiador com 2 imóveis na época e o meu sonho era ter as duas,para a minha alegria a Dipa comprou a Chinaglia e eu passei a receber todas as revistas mais conhecidas do Brasil e até algumas importadas.
Mas o que parecia ser bom;passou a ser um tormento,um grande problema,eu não conseguia organizar tudo o que recebia,nem o que tinha que devolver,e acabava pagando revistas que não vendia,fora quando a distribuidora cobrava algo indevido e ainda tendo que pagar o carreteiro 200 por mês na época,o que significava que eu teria que vender acima de 800,00 para obter lucro,depois de 4 anos,cheguei a conclusão que tinha mais prejuízo do que lucro,as revistas que eu vendia mais,eu tinha que implorar para que a distribuidora mandasse mais,que é o caso da Revista Caras,eu recebia apenas 4 e mesmo que tivesse 20 clientes certos,eles não mandavam mais e aquelas revistas que mão vendem,eles mandavam até 30 de cada,eu não tinha espaço nem para organizar,levava até pra casa e depois não achava para a devolução,enfim cancelei a Dipa,paguei o que eu devia e o que iria dever,até o caução perdi,mas dei graças à Deus e não quero por nada desse mundo ter esta distribuidora. Gostaria de ter outras distribuidoras pequenas,mas aqui em Porto Alegre não existem mais distribuidoras,gostaria de vender só aquilo que tenho interesse,enfim hoje em dia estou ainda na Banca,apenas vendendo Tri Legal,recarga,refri e água e os livros que sobraram ainda da distribuidora e livros de romances usados.
Mas também vejo que tudo vai mudando e se modernizando e o futuro vai ser cada vez mais tecnologia e menos papel.