sábado, 10 de julho de 2010

2010 Será o Início do Fim das Pequenas Livrarias?

Para quem ainda não se deu conta, 2010 ficará marcado na história do mercado do livro no Brasil, como o ano no qual a concentração no mercado livreiro (livrarias), chegou a um ponto irreversível, isto é, daqui para a frente a concentração da venda de livros aumentará, e muito, nas livrarias de redes, ano após ano. Alerto também que, caso não seja mudado nada no atual dia-a-dia das pequenas livrarias, para aquelas que têm uma única loja e que também não estão na web, 2010 poderá ser considerado como o ano do início do seu fim, do seu "fechar as portas", e isto num prazo de até cinco anos. Sempre existirá uma ou outra exceção, mas a tendência é o fechamento.

Partindo da premissa que não sou "maluco" e/ou "vidente", que dados tenho eu para fazer as afirmações acima? Voltando um pouco no tempo, em agosto de 2007 a Saraiva anunciou (é obrigada a fazê-lo por ter ações na Bolsa de Valores) que estava em negociações para a compra da Siciliano. Naquele ano de 2007 a posição de algumas das principais redes de livrarias era a seguinte:
com 63 lojas, a Siciliano, sendo 52 próprias e 11 franqueadas;
com 36 lojas, a Saraiva;
com 7 lojas, a Cultura;
com 7 lojas, a Fnac.

Além destas, outras redes também estavam em processo de expansão, como a Travessa no Rio, a Livraria da Vila em São Paulo, a Livrarias Curitiba na região Sul e a Leitura em Minas Gerais. No dia 6 de março de 2008 foi feito o anúncio da compra da Siciliano pela Saraiva que, portanto, passou a ter 99 lojas. Coincidência ou não, o processo de expansão das outras redes foi acelerado. A Livraria Cultura vinha abrindo uma loja por ano desde 2003 (Porto Alegre). Abriu Recife em 2004, Brasília em 2005, Market Place em São Paulo em 2006, a grande loja do Conjunto Nacional (4.300m²) em 2007. Em 2008 houve a aceleração com a abertura da loja em Campinas, da loja customizada da Cia das Letras no Conjunto Nacional e da loja do shopping Pompeia também em São Paulo. Em 2009 foi aberta a loja na Villa Daslu, além de mais duas lojas customizadas no Conjunto Nacional: IMS-Instituto Moreira Sales e Record. Em 2010 já foram abertas uma loja em Brasília (a 2ª, portanto) e outra em Fortaleza. Em agosto próximo mais uma loja da Cultura será inaugurada, agora em Salvador.

A Fnac estava com o processo de expansão parado em 2006, quando abriu no shopping Morumbi em São Paulo. Voltou a abrir lojas em 2008 em Porto Alegre e em 2009 em Ribeirão Preto, SP. Em novembro de 2010 abrirá em Belo Horizonte, no BH shopping.

A própria Saraiva não ficou acomodada e em 2009 reformou 30 lojas da bandeira Siciliano. Além disso, entre 2009 e 2010 abriu (abrirá) mais 11 lojas, como por exemplo em Manuas, Salvador, Caxias do Sul e Vitória. Como algumas das lojas da bandeira Siciliano foram fechadas, por serem deficitárias ou por estarem em espaço físico próximo demais das da bandeira Saraiva, o total de lojas neste momento da Saraiva é de 100, sendo 92 próprias e 8 franqueadas.

O que chama atenção na expansão relatada acima é que todas as lojas foram abertas em shoppings. Fica claro que não é uma mera coincidência e, sim, uma tendência do mercado varejista que tem (terá) consequências gigantescas para o mercado do livro no Brasil. Seguem alguns números relativos aos shoppings no Brasil.

No ano 2000 existiam 280 shoppings em atividade. Em 2009 o número chegou a 396 shoppings, o que é um crescimento de 41,43%. Em número de lojas o crescimento é bem mais elevado: de 34.300 lojas no ano 2000, para 70.436 lojas em 2009. Aumento de 105,35%. Um dado mais impressionante é este: a circulação média de pessoas nos shoppings por mês em 2009 foi de 348 milhões. Para comparação, a população do Brasil em 2009 era de 190 milhões de pessoas.

Para este ano de 2010 estão previstos 17 shoppings e para 2011 a previsão é de mais 26. Portanto, fica clara a migração do comércio varejista para os shoppings. O problema, no caso das pequenas livrarias, é que o custo de manutenção de uma loja em shopping é elevado demais para o seu perfil. Logo, a cada shopping que abre, mais uma loja das principais redes é inaugurada nesse espaço privilegiado de comércio e, assim, a cada mês, os clientes das pequenas livrarias tenderão a comprar nas livrarias dos shoppings, minando pouco a pouco, e de forma irreversível, a existência da pequena livraria.

Para o caso de alguém ainda ter dúvidas sobre o relatado acima, mais alguns dados:
Saraiva tem 66 das 100 lojas em shoppings: 66,00%
Leitura tem 22 das 26 lojas em shoppings: 84,62%
Curitiba tem 13 das 17 lojas em shoppings: 76,47%
Cultura tem 10 das 11 lojas em shoppings: 90,91%
Fnac tem 7 das 9 lojas em shoppings: 77,77%

No caso da Saraiva, por ter ações em Bolsa de Valores, é possível ter acesso a dados sobre o faturamento. E esses dados mostram bem a importância do shopping. Das 100 lojas, 37 delas são megastores. Essas megas representaram 47% do faturamento da Saraiva. Resumindo, 37% das lojas físicas representaram 47% do faturamento. Mais um dado fundamental: 33% do faturamento veio da ponto.com da Saraiva. Somou? É isso mesmo: 80% do faturamento da Saraiva provém das megastores (que estão nos shoppings, com uma exceção, no Rio) e da internet.

Vivemos um momento em que cada editora e cada livraria tem que repensar seu negócio, sob pena de ser excluído do mercado do livro. A era da profissionalização bate à porta diariamente e não é mais possível continuar a trabalhar do mesmo modo que se trabalhava no fim do século passado. Os exemplos de fechamento de livrarias são noticiados com frequência no PublishNews. A mais recente foi a Livraria Alemã, com 60 anos de história em Blumenau. Uma loja bem grande, mas fora do shopping.

Fica portanto o alerta e a esperança que as pequenas livrarias ainda tenham tempo para se reinventar. Um dos caminhos é a internet. É necessário que tenham páginas virtuais interessantes e interativas com seus leitores/clientes. Que participem nas comunidades sociais de relacionamento. É preciso ir em busca do cliente onde ele estiver, e não ficar esperando que ele entre na sua loja. Os novos clientes até existem, mas e os novos livreiros? O que é ser um novo livreiro? É uma questão de idade ou de atitude?

8 comentários:

Marcello disse...

Que pena a Livraria Alemã ter fechado as portas, conhecia o pessoal de lá.
Realmente, mudar pra sobreviver.
Como conversamos na Bienal de Bh, as pequenas livrarias estão em extinção, a não ser que o livreiro se especialize em algum gênero bem destacado, mas mesmo assim é complicado.

Grande abraço.

Paulo Tamburro disse...

OLÁ JAIME,

EU TENHO ABSOLUTA CERTEZA QUE AS PEQUENAS, QUALQUER COISA, IRÃO FECHAR, INCLUSIVE AS LIVRARIAS.

ESTE SERÁ O TEMPO DAS DAS CONGLOMERAÇÕES, AS MEGAS ORGANIZAÇÕES, E PRINCIPALMENTE DAS INFINITAS PARCERIAS.

NÃO CONHECIA O SEU BLOG.

ACHEI REALMENTE, MUITO INTERESSANTE E TENHA A CERTEZA DE QUE VOLTAREI SEMPRE AQUI.

TAMBÉM, APROVEITO PARA CONVIDAR VOCÊ A CONHECER O MEU BLOG:

“HUMOR EM TEXTO”.

A CRÔNICA DESTA SEMANA É SOBRE UM TEMA QUE DESPERTA CONTROVÉRSIAS E MUITA SENSUALIDADE..

SE PUDER, CONFIRA E SE QUISER COMENTE, POIS LÁ O MAIS IMPORTANTE É O SEU COMENTÁRIO.

UM ABRAÇÃO CARIOCA!

C. S. Soares disse...

Prezado Jaime,

o último parágrafo de seu ótimo artigo aponta o caminho. Na internet, estabelecer-se com sucesso, não se trata mais da questão de ser o maior, mas de ser o mais ágil.

O pequeno livreiro tem uma oportunidade na alta customização e personalização que as lojas "baseadas em software" oferecem.

O papel do livreiro continua o mesmo (relação de confiança, confidência com leitores, agregar valor ao serviço que presta, etc), mas, agora, ele tem em mãos novas ferramentas. É preciso aprendê-las, apreendê-las em suas idiossincrasias.

O livreiro precisa pensar digitalmente, entende? Não é processo fácil, sabemos, mas é preciso encarar o desafio, afinal, a questão é de sobrevivência.

Também é preciso lembrar que, em um mundo interconectado, mesmo as megastores nacionais podem, mais a frente, sofrer concorrência direta dos grandes "retailers" estrangeiros. E estes não se resumirão ao que tradicionalmente conhecíamos como livrarias.

Assim, a única certeza que sobra para todos (megastores, pequenos livreiros) é que é preciso reinventar-se, sempre, a todo instante, pois as boas ideias acabam copiadas, o que gera a necessidade de novas ideias, e assim sucessivamente.

Forte abraço,
Claudio (C. S.) Soares
http://twitter.com/pontolit

Juliana disse...

Novamente um belo post, mas estamos patinando porque sempre chegamos a um mesmo consenso, profissionalização...Além disso,com as megastores haverá lugar para os novos livreiros?

Obrigada,
Juliana

Wellington Ferreira disse...

Olá Jaime!

Bela postagem, já me indaguei sobre isso algumas vezes, tanto é que estava elaborando uma postagem sobre este assunto também. Porém, não com a mesma quantidade de informações colhidas por você.
Você autorizaria eu publicá-la no meu blog, é claro, dando os devidos créditos, e fazendo a indicação para o seu blog.
Se autorizar, me retorne no e-mail:wferreira@ovendedordelivros.com.br

Parabéns, o seu blog é fantástico, e para quem é apaixonado por livros e gosta de se manter informado a cerca deles, com certeza achou aqui mais uma bela fonte de informação.

Abraços!

Vania Lacerda disse...

Olá, Jaime.
Olha, para mim este é um post especialmente dificil de comentar. Adoraria ter algo diferente para dizer, mas infelizmente concordo com voce, em genero, numero e grau...
Como disse o Paulo aí em cima, os pequenos "qualquer coisa" vão fechar, inclusive as livrarias. Num futuro bem próximo, não haverá pequenas livrarias, como já não há mercadinhos, por exemplo. Claro que sempre haverá um "Empório Santa Maria" (para citar um exemplo paulistano), com seus produtos de altíssima qualidade e preços igualmente altissimos. Mas no caso das livrarias até essa fórmula é difícil de aplicar, já que o produto que vendemos não tem variações de qualidade. Isto é, um determinado livro é o mesmo, seja comprado pela internet no site de melhor preço, ou na charmosa livraria frequentada por gente estilosa.
Para usar um jargão da área de marketing, a "experiência de compra" nesses dois canais é bem diferente, claro. De fato é mais prazeroso comprar na livraria charmosa, mas acho que isso não é o suficiente para sustentar um negócio como o nosso, que exige muito espaço fisico, e um estoque beeeem grande, que vai girar de forma lenta.
Estou instalada num shoppig, e por enquanto não tenho tido problemas (repare no por enquanto....rsrs). No periodo JAN/MAI- 2010 o faturamento apresentou um crescimento de 7% sobre o mesmo periodo de 2009. Então me sinto como o personagem da anedota, aquele que está caindo do vigésimo andar, e ao chegar na altura do oitavo andar pensa: por enquanto está tudo bem...
É, por enquanto está tudo bem. Mas as vendas na internet crescem ano a ano, as grandes redes abrem mais lojas lindas nos melhores pontos, o e-book é uma realidade, o Submarino vende excelentes livros por um décimo de seu preço de capa...e tudo isso certamente contribui para tirar clientes de dentro das lojas pequenas e médias.
Qualquer pessoa de bom senso trataria de se retirar de um ramo de negocio com tantos riscos, com uma perspectiva de futuro tão incerta, não é mesmo?
Mas essa pessoa não sou eu: vou acompanhar de perto todas essas ameaças, combatê-las a meu modo, mas vou continuar nesse negócio. Só não vou "pagar" pra ver, é claro. Prejuízo, nem pensar. Mas enquanto estiver com lucro, embora sabendo que esse lucro poderia ser maior em outras áreas de atuação, vamos em frente.

Vania Lacerda disse...

Já que estou aqui, num domingão preguiçoso de chuva e frio, vou aproveitar para comentar outro assunto que não tem a ver com este post, mas que foi diversas vezes discutido aqui no seu blog: a consignação.
Às vezes, a própria dinâmica dos acontecimentos acelera algumas decisões. As recentes mudanças no mecanismo de consignação, necessárias por conta da legislação (necessidade de emissão de NF de devolução simbólica em cada acerto, novas NFs em qualquer reajuste de preço, etc) deixaram a consignação ainda mais trabalhosa do que sempre foi. Simplesmente não vale mais a pena. Uma compra simples, ou uma compra com direito a devolução quando isso é possível, trazem uma relação custo/benefício bem melhor.
Consignação mesmo, só será possível manter para algumas poucas editoras. Um numero entre 5 e 12...
E aí chegamos a uma questão que voce levantou tempos atrás: salvo honrosas excecões, a editora nao sabe mais vender. Se a livraria não recebe em consignação, tambem não recebe visita de representante, ninguem lhe apresenta as novidades, e por aí vai...

Ricardo disse...

Oi Jaime, você disse tudo!

Esse é um dos motivos que me motiva a fazer o que faço, porque sei que as pessoas são apaixonadas pelo livro e vão coexistir neste novo mercado. Meu trabalho é apoiar no que for possível.

Se permitirem vender meu peixe rsrs...

Loja virtual de livros a custo muito baixo para livreiros e sebos.

http://www.portaldolivreiro.com.br