segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Comercialização e Distribuição dos E-Books

Algumas editoras brasileiras começam a entrar na fase dos e-books, do livro digital. Dia 2 de junho de 2010 foi anunciada a criação da Distribuidora de Livros Digitais (DLD), empresa que conta com a participação das editoras Objetiva, Record, Sextante, Rocco e Intrínseca como sócias fundadoras. Nas notícias divulgadas pela imprensa não foi informada a participação societária de cada uma delas.

A editora Zahar, pioneira na comercialização de e-books desde dezembro de 2009 através da Gato Sabido, escolheu outro caminho e vem desenvolvendo uma plataforma para distribuição e comercialização de seus e-books, o Xeriph, que deve entrar em operação no próximo mês.

Do outro lado do Atlântico, há menos de um mês atrás, em 11 de maio de 2010, foi anunciada na Espanha a criação da Libranda, também uma plataforma para a distribuição e comercialização de e-books. A Libranda é constituída pelos grupos Planeta, Santillana, Random House Mondadori, SM, Wolters Kluwer, Ediciones 62 e Roca Editorial.

Na Itália, em maio de 2010 foi criada a plataforma Edigita – Editoria Digitale Italiana, uma associação dos grupos Feltrinelli, Messaggerie Italiane con GeMS e RCS Libri e aberta a todos os editores italianos. Já conta com 40 editoras.

Na França esse processo começou um pouco antes. Em outubro de 2009 foram criados dois grupos para a distribuição e comercialização de e-books: o Eden Livres ("Entreprise de distribution de l'édition numérique"), formado pela Flammarion, Gallimard e La Martinière/Le Seuil, e o Eplateforme, formado por Editis e Média Participations/Michelin. Desde o ano 2000 já existe o Numilog, empresa independente (na sua fundação) aberta a todas as editoras e que oferece serviços de digitalização e conversão dos livros para o formato digital, a proteção dos direitos de autor, além de gerenciar as vendas online dos e-books. Foi comprada em 05 maio de 2008 pela Hachette Livre. Conta com cerca de 60 editoras e já tem disponíveis mais de 57 mil títulos. O Numilog tem venda direta para o consumidor final.

Está previsto para outubro de 2010 a associação, na França, desses três grupos para a criação do portal 1001libraires.com, que vai permitir que livrarias independentes possam ter acesso à venda online de e-books.

Mas, por que toda esta movimentação das editoras para a criação de plataformas para a distribuição e comercialização de e-books? A resposta é simples e óbvia: para poder saber quantos exemplares de e-books serão vendidos. Explicando melhor: na comercialização do livro físico, a editora, ao emitir uma nota fiscal em papel ou agora no formato nota fiscal eletrônica, tem o completo controle de toda a movimentação de seus títulos e exemplares, seja como venda, seja como consignação. A partir deste controle pode prestar contas aos seus autores e organizar o dia-a-dia da editora com relação a recebimentos, pagamentos, investimentos e projetos de curto, médio e longo prazos.

Com o e-book, as editoras não podem simplesmente enviar seus arquivos dos livros para as livrarias, sejam de que tamanho forem, e esperar que a cada 30 dias, a cada semana ou diariamente, elas informem a quantidade de e-books vendidos. Além disso, existe a questão da segurança com relação à reprodução de cópias piratas, que o digital potencializa enormemente. E, como nenhum negócio vai funcionar se o produtor do bem a ser comercializado não tiver o controle das vendas, faz-se necessária, portanto, a criação dessas plataformas de comercialização e distribuição. O funcionamento básico será o seguinte: a livraria disponibiliza no seu site determinado título para venda no formato digital. O cliente interessado clica e faz a compra. Nesse momento, o sistema da livraria vai na plataforma responsável pela distribuição daquele título e baixa, já com a proteção DRM, a quantidade de exemplares de e-books solicitados pelo seu cliente. É feito o registro dessa operação na plataforma e depois, de acordo com as condições comerciais negociadas entre a plataforma distribuidora e a livraria, será feita a cobrança/pagamento da operação.

Mais alguns pontos importantes a destacar:
1-as plataformas Libranda, a Distribuidora de Livros Digitais e o Xeriph têm em comum a posição de não vender direto para o consumidor final. É uma posição fundamental pois, sem livrarias, não é possível existir um mercado do livro, seja ele físico e/ou digital. A concorrência entre livrarias e outros pontos de venda é imprescindível para a independência de linhas editoriais e para o consumidor final, tanto com relação a preço quanto com relação a oferta de títulos;

2-com o e-book as atuais empresas distribuidoras de livros físicos ficarão de fora da comercialização deste produto, assim como as livrarias físicas que não tiverem site para vendas. Isto, certamente, terá impacto na tradicional cadeia de comercialização do livro: editora-distribuidora-livraria, mas ainda é dificil avaliar as consequências.

3-a Distribuidora de Livros Digitais (DLD) vai aceitar adesões de outras editoras a quem prestará os serviços de "hospedagem e logística vitual, garante a proteção contra a pirataria e a qualidade e integridade do processo para toda a cadeia, inclusive para o leitor. Cada editora que utiliza a DLD negocia diretamente com as livrarias on-line suas condições comerciais." Roberto Feith, da Objetiva, em O Globo dia 04.06.2010, Segundo Caderno. É claro que a DLD receberá destas editoras um pagamento pela prestação do serviço.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Com o Livro Digital, Será o Fim das Editoras?

Já li alguns comentários na internet relacionando a chegada do livro digital ao fim das editoras, isto é, que estas não seriam mais necessárias para que um autor publicasse seu livro. Que os autores cuidariam diretamente da venda de seus livros e, portanto, poderiam ganhar mais. Mas, será que essa questão é tão simples assim?

Comecemos por imaginar a seguinte situação: um jovem e brilhante universitário, porém desconhecido como autor, acaba de defender sua tese de mestrado e recebe da banca examinadora a nota máxima: 10 com louvor e a recomendação "para publicação". Imaginemos um pouco mais. Dois caminhos para este jovem autor:

01-converte sua tese digitada em word para PDF e a envia para ser vendida no site da Amazon, do Gato Sabido ou de quaisquer outras livrarias virtuais.

02-envia cópias da sua tese para algumas editoras comerciais tradicionais e de reconhecida qualidade e, uma delas, resolve publicar sua tese.

Pergunta: por qual destes dois caminhos o jovem e brilhante, mas ainda desconhecido mestre/autor, terá a possibilidade de obter sucesso de crítica e de vendas?

A resposta é que o sucesso terá maior chance de acontecer via editora comercial, mesmo que o livro seja publicado por esta também na versão digital. Vejamos os porquês:

O trabalho realizado numa editora e que antecede a publicação de um livro, seja no formato agora denominado tradicional (impressão em papel), seja no formato digital, é grande. Exige o envolvimento de vários profissionais com formação técnica e universitária específicas e, via de regra, é desconhecido por parte das pessoas que trabalham nas empresas da cadeia produtiva do livro, como livrarias e distribuidores, além dos leitores e, em alguns casos, até de autores.

O primeiro passo nesse trabalho editorial é a escolha do título a ser publicado, o que já requer um conhecimento acumulado durante vários e vários anos, por parte dos responsáveis nesse processo de escolha. Nessa seleção devem ser avaliados três pontos basilares:
1-a pertinência do título para o catálogo da editora;
2-a qualidade do texto;
3-a viabilidade comercial do título, o que geralmente é difícil de avaliar;

Decidida a escolha, o texto original começa a ser trabalhado por um editor; a leitura do texto por parte desse profissional tem por objetivos (aleatoriamente listados):
a) adequá-lo às normas de padronização da editora;
b) verificar a fluência do texto e identificar repetições desnecessárias;
c) verificar a organização e a clareza das ideias que formam o texto;
d) verificar a ortografia e a sintaxe do texto;
nota: sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e a das frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre si.
e) propor alterações no texto, sejam adições e/ou exclusões;
f) redigir as notas do editor, para esclarecer e/ou situar o próprio texto ou algumas passagens;
g) identificar a necessidade de uma revisão técnica;
h) organizar a bibliografia e pesquisar quais livros citados já têm traduções publicadas;
i) preparar glossário e índice remissivo;
j) verificar a necessidade de iconografia para o livro, sejam fotos, mapas, gráficos etc. e cuidar da seleção e da liberação dos direitos autorais desse material;
k) identificar a necessidade de se convidar algum especialista para escrever prefácio e/ou introdução;
l) organizar a estrutura do livro, revendo a divisão hierárquica de partes, capítulos, entretítulos etc., e montar o sumário a partir disso;

Depois existe a fase do projeto gráfico onde são definidos elementos como (aleatoriamente listados):
a) formato do livro
b) margem
c) mancha, que é a parte ocupada pelo texto
d) tipo da letra e seu corpo (tamanho)
e) entrelinha (o espaço em branco entre as linhas)
f) aberturas de capítulos e partes
g) epígrafes
h) cabeço (com "o" mesmo)
i) numeração das páginas
j) formatação do sumário
k) etc., etc.

Após esse trabalho de edição e copidesque o texto passa para a diagramação, que é a fase de inserir o texto no projeto gráfico resultante de um estudo feito por um designer gráfico. Depois da diagramação ainda existem as seguintes partes a serem executadas:
1) duas revisões tipográficas;
2) criação da capa;
3) preparação dos textos de orelha, quarta capa e divulgação;
4) assessoria de imprensa;
5) ações de marketing;
6) comercialização.

Portanto, como é que um autor, além do enorme trabalho que já tem para escrever um livro, como é que esse autor ainda vai cuidar de todo o processo descrito acima? Quem acha que isso pode ser viável?

Segue a opinião de um grande pesquisador da história do livro, Robert Darnton, no seu livro "A Questão dos Livros: passado, presente e futuro" publicado pela Companhia das Letras no final de abril de 2010. A citação está na página 16, mas recomendo, com ênfase, a leitura do livro inteiro.

"Como insistem os historiadores do livro, autores escrevem textos, mas livros são produzidos por profissionais do livro, e esses profissionais exercem funções que vão muito além de manufaturar e difundir um produto. Editores são guardiões de portais, responsáveis por controlar o fluxo do conhecimento. Da variedade sem limites de material suscetível de ser tornado público, selecionam o que, acreditam, irá vender ou deve ser vendido, conforme suas habilidades profissionais e convicções pessoais. Os juízos dos editores, delineados por uma longa experiência no mercado das ideias, determinam aquilo que chega aos leitores, e numa era de sobrecarga de informação os leitores precisam confiar mais do que nunca nesse julgamento. Ao selecionar textos, editá-los, permitir sua legibilidade e trazê-los à atenção dos leitores, os profissionais do livro fornecem serviços que sobreviverão a todas as mudanças tecnológicas." [os grifos são meus].


Este post começou a ser escrito em 03.02.2010 e contou com informações de Rita Jobim e Carolina Falcão para as partes mais técnicas.

terça-feira, 13 de abril de 2010

As Livrarias e a Formação de Leitores

O mote para este pequeno post veio a partir de uma conversa com Tiago Ribeiro da Livraria Cultura, em Recife. Falávamos de livros, leitura e formação de novos leitores quando ele contou um caso recente. Certo dia entrou na livraria um menino de uns 10 ou 12 anos e perguntou pra ele onde ficava a seção de mitologia. Após o espanto inicial, de onde viria o interesse do menino por mitologia? Afinal, era um menino "comum" para a idade que aparentava ter.

Quem pensou em "Percy Jackson e os Olimpianos", a série infanto-juvenil da Intrínseca, acertou. Mas, e o que isso tem a ver com as livrarias ajudando na formação de novos leitores?

Deixando no ar a pergunta e voltando bastante no tempo, lembro que quando tinha uns 13 anos de idade, um dos livros que tive que ler para a escola foi Dom Casmurro, do grande Machado de Assis. É claro que tive muita dificuldade para ler o texto. Era chato parar a leitura, a cada página do livro, para ir consultar o dicionário para saber o significado das palavras escritas em 1900. Portanto, não foi uma leitura agradável e esse livro, naquele momento, não me teria despertado o interesse, nem fixado em mim o gosto pela leitura. Por ocasião do centenário de Dom Casmurro, no ano 2000, li novamente o livro e adorei.

Parece-me óbvio que a insistência de muitas escolas em indicar os chamados clássicos da literatura, principalmente aqueles com uma linguagem bem distante do mundo infanto-juvenil atual, não é a melhor forma de conquistar esses jovens para o gosto pela leitura. A leitura, a vontade de ler esses clássicos, provavelmente, virá depois.

Voltando à questão proposta, as livrarias devem aproveitar esta nova onda de interesse juvenil (a 1ª onda foi em 2000 com Harry Potter), para pesquisar nos catálogos das editoras títulos relativos às mais diversas mitologias, fazer exposição diferenciada desses títulos e, dentro das condições de cada uma, organizar eventos como contação de histórias, pequenas palestras, grupos ou clubes de leitura etc.

É importante perceber essas ondas de interesse de leitura que às vezes aparecem no mercado e tentar fazer que elas perdurem, que elas se espalhem para outros gêneros literários. Infelizmente, com algumas poucas exceções, não sinto essa preocupação por parte dos livreiros. Acho que já é hora de ampliar os horizontes e entender que a responsabilidade pela formação e manutenção de novos leitores não pode ficar restrita à escola e aos pais. Livrarias e editoras, por exemplo, devem participar desta formação de novos leitores. Deixando o "romantismo" de lado, estes jovens leitores, afinal, serão os futuros consumidores de seus produtos (no caso das editoras) e de suas mercadorias (no caso das livrarias), por consequência, os consumidores que garantirão seus negócios.

Como sugestão seguem alguns títulos da Zahar relacionados com o tema mitologia:

Para jovens
Diário de Pilar na Grécia
Agito de Pilar no Egito
Folia de Pilar na Bahia






Para aprofundar
Guia de Mitologia
Viagem Através dos Mitos, Uma
Do Olimpo a Camelot: um panorama da mitologia europeia
Dicionário de Mitologia: grega e romana

segunda-feira, 22 de março de 2010

E-Commerce? É Lógico que Dá Certo!

Foi publicada a 21ª edição do WebShoppers, relativa ao ano de 2009, que pesquisa o e-commerce no Brasil. Para quem continua descrente e sem dar a devida importância, seguem os números:

a) crescimento de 30% com faturamento de R$ 10,6 bilhões. O tíquete médio foi de R$ 335,00.

b) 17,6 milhões de pessoas no Brasil compraram pela internet; crescimento de 33% em relação a 2008. Aqui existe um potencial enorme de crescimento pois, segundo pesquisa do Ibope Net Ratings, o Brasil teve 66,6 milhões de internautas em 2009. Portanto, somente 26% dos que já são internautas compraram pela internet.

c) a confiança do e-consumidor nas lojas virtuais durante todo ano de 2009 esteve entre 85% e 87%.

d) livro continua sendo a categoria mais vendida na internet. As cinco principais são:
1º livros e assinaturas de jornais e revistas
2º saúde, beleza e medicamentos
3º eletrodomésticos
4º informática
5º eletrônicos

e) na comparação entre compras na web X lojas físicas, com relação ao produto livro, nos últimos 3 meses, 40% das pessoas compraram na internet e 36% compraram em lojas físicas.

f) com relação à expectativa de compras para os próximos 3 meses, 32% das pessoas vão comprar livros na internet e 18% em lojas físicas.

Mesmo assim, a maioria das livrarias físicas ainda não está na web vendendo livros. Com isto, este importante espaço de vendas está sendo ocupado e, cada vez mais disputado, por empresas que, originalmente, não eram livrarias. Segue um pequeno levantamento:

Submarino
Americanas
Extra
Wal-Mart
Compra Fácil
Livraria da Folha

Lojas Colombo

Ainda é possível entrar neste mercado? Acho que sim, mas o tempo está acabando...

Leia também o post Crise? Na Web, Não

domingo, 14 de março de 2010

Indicações #5 Eu Sou o Último Judeu

Muito já foi escrito e filmado sobre a 2ª Guerra Mundial e o Holocausto. Mesmo assim, vez por outra, aparece algo novo. No caso, refiro-me ao livro "Eu Sou o Último Judeu: Treblinka, 1942-1943", publicado pela Zahar. Se algum escritor de ficção ou algum roteirista de cinema tentasse imaginar, descrever, criar Treblinka, creio que não conseguiria. A realidade que foi Treblinka é esmagadora, inimaginável para os padrões mínimos de civilização e, em vários momentos, pensei em parar a leitura; mas, vale a pena ir em frente e terminar o livro.

O primeiro ponto a esclarecer é a diferença entre campo de concentração e campo de extermínio.
Concentração: sistema de encarceramento dos vários "inimigos" do Estado nazista, tais como judeus, comunistas, homossexuais, ciganos etc. Estas pessoas eram obrigadas a trabalhos forçados em prol de várias empresas alemãs, e milhares morreram nesses campos.
Extermínio: o objetivo único era matar, exterminar, principalmente os judeus.


A história narrada por Chil Rajchman passa-se na Polônia ocupada pelo exército nazista. O campo de Treblinka foi implantado em junho de 1942, a aproximadamente 100 Km a nordeste de Varsóvia, a capital. Rajchman chegou a Treblinka em outubro de 1942; sobreviveu, de forma inesperada, por 10 meses, até fugir em 2 de agosto de 1943, após a insurreição da qual foi um dos líderes. Passou dois meses fugindo dos nazistas, de esconderijo em esconderijo, até chegar a Varsóvia onde ficou escondido num bunker, durante mais três meses e meio até a libertação, em 17 de janeiro de 1945, pelo Exército Vermelho.

Uma diferença fundamental do relato de Chil Rajchman para outros existentes sobre o Holocausto, é que ele foi escrito ainda em plena guerra, quando o autor ainda corria risco de morte, escondido em Varsóvia. Foi escrito em íidiche num pequeno caderno que ficou inédito até a publicação em livro, na França, em 2009. Chil Meyer Rajchman faleceu em 2004, aos 90 anos de idade, em Montevidéu, Uruguai, para onde tinha emigrado após a libertação.

No prefácio deste livro, Annette Wieviorka, Diretora de Pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, destaca que:
"Este texto pertence a uma categoria de escritos reduzida e bastante particular: a daqueles redigidos na sombra trazida pela morte, antes do fim da guerra, para preservar o rastro de acontecimentos que desafiam a imaginação."

Dois outros textos deste gênero chegaram até nós: o de Calel Perechodnik e o de Simha Guterman. Ambos morreram na insurreição de Varsóvia. Ainda citando Annette Wieviorka:
"Nesses três textos, os autores ofuscam-se diante do que pretendem descrever. A violência, a crueza do relato, a falta de indulgência ou de mascaramento sobre o que eles fizeram só se explicam pela incerteza sobre sua própria sobrevivência. Os fatos que eles descrevem prevalecem sobre o desejo de construir uma imagem de si ou de suscitar simpatia ou compaixão.
[...]
A acuidade e crueza da descrição e a violência de um relato livre do estereótipo que às vezes encontramos nos testemunhos a posteriori dos sobreviventes deveriam pôr este livro [Eu Sou o Último Judeu] no cânone dos grandes textos da literatura do desastre."

Treblinka foi concebido de maneira profissional. No relato de Chil Rajchman:
"À primeira vista, poderíamos julgar tratar-se de uma estação ferroviária comum. A plataforma é suficientemente comprida para receber um trem normal, com até 40 vagões. A alguns metros da plataforma, dois galpões, um defronte do outro. No da direita, estoca-se a comida que as pessoas trouxeram em suas bagagens [as pessoas podiam levar cerca de 50 Kg de bagagem, pois pensavam que era uma mudança para campos de trabalho]. No da esquerda, as mulheres e crianças deixam suas roupas. [...]

À esquerda da plataforma, há algumas construções de madeira, entre as quais a cozinha e as oficinas. Em frente, os dormitórios. O galpão dos SS não fica longe. É equipado com todo o conforto. À direita da plataforma, o vasto espaço reservado ao empilhamento das peças de vestuário: calçados, roupas, lenços, cobertores etc. Detentos fazem a triagem das roupas e as armazenam num lugar separado para serem expedidas para a Alemanha.

O acesso às câmaras de gás começa em frente à plataforma onde estão os dormitórios. É conhecido como Schlauch [passarela]. Plantado com arbustos, lembra uma aleia de um parque público. As pessoas que o percorrem são obrigadas a correr, nuas. Ninguém retorna. São violentamente espancadas e espetadas a golpes de cassetete e baioneta, de modo que, depois que passam, esse corredor de areia branca cobre-se de sangue."

Nota: a passarela, Schlauch, apelidada pelos nazistas de "himmelfahrstrasse" (caminho do céu), é uma passagem em ângulo reto que desemboca nas câmaras de gás. Esse traçado tinha como objetivo ocultar, o máximo de tempo possível, a fim de evitar qualquer revolta, as instalações destinadas ao assassinato.


legendas
23 plataforma de chegada dos trens

24 depósitos de roupas e bagagens camuflados como estação
the tube: "o schlauch" caminho de acesso às câmaras de gás
32 e 33 câmaras de gás
34 valas de enterro coletivo
35 fogueiras para incineração de cadáveres

Voltando ao relato de Rajchaman. "Uma brigada especial, a brigada do Schlauch, [composta por judeus], intervém após cada comboio para limpá-la e espalhar areia limpa e fina a fim de que as vítimas recém-desembarcadas não percebam nada.
[...]
A câmara de gás mede 7mX7m. No meio do recinto há orifícios de chuveiro, pelos quais o gás chega. Um tubo corre ao longo de uma parede para sugar o ar. O prédio comporta dez câmaras de gás como essa. Um pouco adiante, uma construção menor abriga outras três."

Nota: o monóxido de carbono era o gás utilizado em Teblinka; era produzido por um motor a diesel proveniente de um tanque soviético recuperado pelos nazistas.

Até 15 de dezembro de 1942 os comboios chegaram regularmente com cerca de 10 mil pessoas por dia, que eram assassinadas em questão de horas. Todo o trabalho de separar as roupas, os objetos, comida, ouro, jóias e dinheiro que os judeus traziam nas suas bagagens, cortar os cabelos das mulheres e guardá-los, limpar as câmaras de gás, retirar os corpos assassinados, transportar esses corpos, arrancar os dentes com obturações, enterrar esses corpos em grandes valas comuns etc, etc era feito por algumas centenas de judeus selecionados ao acaso. Parte dessas equipes de trabalho era trocada diariamente, isto é, essas pessoas também eram assassinadas, e substituídas por outras egressas dos próximos comboios, para evitar que existisse comunicação entre os que já estavam em Treblinka e os que diariamente chegavam.

Além da vontade de sobreviver, Chil Rajchman também contou com o acaso. "No início, era muito raro que os detentos se conhecessem entre si, pois diariamente recém-chegados substituíam os que haviam sido eliminados. Depois, como o trabalho não avançava suficientemente rápido em virtude da inexperiência dos novatos, os assassinos mudaram de tática."

Em dezembro de 1942, fogueiras são instaladas para queimar os cadáveres. "Não compreendíamos por que buscavam um meio de queimar as pessoas que eles tinham asfixiado com gás. [...] Soubemos a razão disso por acaso: um dos assassinos nos trouxe um pedaço de pão enrolado num jornal. Uma das reporagens dizia que o exército alemão descobrira um cemitério clandestino contendo milhares de corpos de oficiais poloneses, que pareciam ter sido mortos pelos soviéticos. Era a razão pela qual eles queriam queimar os cadáveres, a fim de que não restasse vestígio de seus excessos."

Nota: em abril de 1943 a rádio alemã anuncia a descoberta de 4 mil cadáveres de oficiais poloneses na floresta de Katyn, perto de Smolensk, assassinados pelo Exército Vermelho. A URSS contesta a acusação, objeto de uma polêmica internacional ao longo de toda a Guerra Fria. Apenas em 1990 Mikhail Gorbatchev irá finalmente admitir a responsabilidade soviética.

O relato de Chil Rajchman é muitíssimo mais impactante que esta simples resenha; não citei passagens cuja leitura, certamente, perturbará quem o ler. Estima-se que entre 750 e 900 mil pessoas foram assassinadas em Treblinka. Apenas 57 sobreviveram, sendo Chil Rajchamn uma delas.

Pra terminar, cito da orelha do livro: "o ritmo acelerado, a frieza e a objetividade dos trabalhos forçados refletem-se no texto de Rajchman. Talvez consciente de que o mais importante era registrar o que vivera e sabia, seu relato jorra num impulso, praticamente sem emitir opiniões ou buscar efeitos narrativos. Mas o impacto sobre o leitor é atroz."

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Resenha #1 Aprendendo a Pensar com a Sociologia

Partindo da premissa que a informação e o conhecimento devem circular e que nem todos podem ter tido acesso anteriormente, vou passar a reproduzir no blog, com os devidos créditos, opiniões de outras pessoas que julgo importantes e que podem vir a interessar a quem acompanha este blog. Virão sempre com o título de Resenha # e uma numeração sequencial. Para começar, nada melhor que um grande pensador, Zygmunt Bauman, resenhado por um grande escritor, José Castello.

Sociologia da Imperfeição

Escrita por José Castello

Publicada no Jornal Valor Econômico, 12/2/2010




[Zygmunt Bauman rebate aqueles que creem que as ciências sociais se tornaram inúteis. Para o autor polonês, elas continuam a desafiar os clichês do senso comum.

A queda do Muro de Berlim, a crise do marxismo e a decadência das utopias tiveram efeitos devastadores sobre o saber sociológico. No mundo líquido, fragmentado e disforme onde vivemos, dominado pelas formas imperfeitas, não parece mais possível pensar no estudo científico das sociedades e na definição das leis que as regem. Para muitos, a sociologia perdeu a importância. Já não pode dar conta de um mundo que se dilui e não mais se submete a leis fixas.

Não é bem o que pensa o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 84 anos. Em "Aprendendo a Pensar com a Sociologia" (trad. Alexandre Werneck, Jorge Zahar Editor, 304 págs., R$ 29,90), livro escrito com Tim May, ele defende a ideia de que a sociologia continua potente, porque continua a desafiar os clichês do senso comum.

Praticada não mais como dogma, mas como um instrumento de interrogação da vida social, ela nos faz ver que os aspectos mais familiares da vida, aqueles que nos parecem simples e banais, podem ser repensados. Com isso, facilita o fluxo e a troca de experiências e transforma nosso cotidiano. Se a filosofia nos ajuda a morrer, a sociologia nos ajuda a viver. (grifo meu)

Em seu novo livro, Bauman reflete sobre o modo como a sociologia pode nos ajudar, objetivamente, em nossa vida pessoal. A maneira como ela estabelece limites, molda perspectivas, enfim, desenha opções e, também, impossibilidades. A seu ver, a sociologia é, antes de tudo, uma prática. "Ao ampliar o horizonte de nosso entendimento, ela é capaz de lançar luz sobre o que de outra maneira poderia passar despercebido no curso dos acontecimentos", escreve.

A sociologia, diz Bauman, parte da constatação de que as condições gerais da sociedade produzem consequências drásticas em nossa vida pessoal. Que elas atingem nosso cotidiano e influem nas coisas mais banais da existência. Isso não quer dizer que não tenhamos escolha ou que não sejamos livres; quer dizer que essas escolhas e essa liberdade estão moldadas pela força das contingências. Saber pesar a relação entre liberdade pessoal e dependência é a chave do viver bem. Ficar só com um dos aspectos - julgar-se absolutamente livre ou irremediavelmente prisioneiro - só bloqueia nosso caminho.

A vida em sociedade nos leva a deparar com pessoas "estranhas", isto é, que não se enquadram em nossos modelos e expectativas, lembra o sociólogo. Com a globalização e a profusão de "estranhos", expandiram-se os mecanismos de segregação social - seguranças, grades, crachás, bilheterias, recepções, etc. Em vez de dominar esses "estranhos" ou de fixá-los em padrões, afirma Bauman, a sociologia nos ajuda a lidar com eles. Desse modo, deixa de ser uma ciência dura, que estabelece e define, para se tornar um saber móvel, que busca uma sincronia com o mundo.

"Isso não significa dizer que a sociologia tenha o monopólio da sabedoria no que diz respeito às experiências", alerta Bauman. "Muito embora sem dúvida as enriqueça nos ajudando a compreender melhor com os outros e por meio dos outros." Ciência, antes de tudo, do outro, a sociologia não pode se congelar no culto ao mesmo e à repetição. Ela é um "pensamento que não refreia", define, e facilita o fluxo e a troca de experiência entre os diferentes.

Ainda assim, no confuso mundo de hoje, inquietos, buscamos "soluções" para nosso desassossego. Para conter as incertezas, preferimos nos fixar em uma imagem qualquer, nem que seja na simples aparência. Baseada nas semelhanças, a aparência pode nos dar a ilusão - porque usamos a mesma marca de automóvel, de perfume ou de tênis - de que pertencemos a determinado grupo. Pode nos fazer crer que sabemos onde estamos e quem somos. Quando, na verdade, continuamos perdidos.

Outros "se salvam" da inquietação adotando uma rotina ou imitando rotinas alheias. Essa proximidade, no entanto, não assegura o sentimento de "responsabilidade moral" - que surge quando um sentimento de responsabilidade brota em nós, voltado para o bem-estar e a felicidade do outro. Ao contrário: o sentimento moral, diz Bauman, frequentemente aparece entre pessoas que não têm a mesma aparência e estão fisicamente muito distantes. Nem as aparências nem as semelhanças garantem a fraternidade.

Uma comunidade não se define pela proximidade física ou pelas semelhanças aparentes, ele insiste. Uma comunidade se define por uma "unidade espiritual". Resume: "A comunidade é mais um postulado que uma realidade". Compartilhar as mesmas inquietações e dividir os mesmos ideais, e não estar lado a lado fisicamente ou se espelhar no outro, isso sim é viver em comunidade. As redes sociais se formam graças às expectativas em comum - e não por causa de alguma condição natural ou de coincidências.

O dever moral, admite Bauman, costuma entrar em colisão com o sentimento de autopreservação. "Um não pode reivindicar ser mais natural que o outro." Há, sempre, uma tensão em jogo e é preciso enfrentá-la, administrá-la - embora nunca se chegue a resolvê-la. O mesmo ocorre nas relações amorosas. Nelas, as realidades dos dois parceiros nunca são idênticas. A própria ideia de intimidade pode ser uma armadilha. As diferenças podem ser tão esmagadoras, ele adverte, que os parceiros farão exigências um ao outro que jamais poderão cumprir. Também no amor, o estar ao lado exige respeito. Amar é trocar diferenças e estilos. É mais uma troca que um encontro.

Não se deve esperar, diz Bauman ainda, que a sociologia "solucione problemas". A vida não é um "problema a resolver". Ele alerta: "Cada nova tentativa de ordenar uma parcela ou uma área específica da atividade humana cria novos problemas". Não se deve querer que a sociologia forneça soluções para os conflitos sociais. A sociologia não nos diz como resolver um problema. Ela se limita a apontar o problema com que devemos lidar. E isso já é muito.

É verdade, isso nos frustra. Na sociedade de mercado, lamenta Bauman, só queremos a perfeição. Consumimos compulsivamente, em busca de um estilo de vida perfeito. Nunca o atingimos, e isso perpetua o consumo, mas não nos aproxima de uma solução. "Somos continuamente encorajados a consumir em nossa busca do inatingível - o estilo de vida perfeito em que a satisfação reine, suprema."

Muitos ainda acreditam que sociologia pode nos apontar o melhor caminho rumo à perfeição. Não pode. Nem é para isso que ela existe, adverte. A sociologia, ao contrário, mostra que a solução inexistente é, na verdade, o que nos impede de aceitar o outro e de avançar. É a busca frenética de uma solução que nos impede de viver. Nesse sentido, toda sociologia é uma sociologia da imperfeição. "O grande serviço que a sociologia está preparada para oferecer à vida humana é a promoção do entendimento", diz. Não existe sociologia sem tolerância. ]

Relação dos 19 livros de Zygmunt Bauman publicados pela Zahar até fevereiro de 2010:
Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos
Aprendendo a Pensar com a Sociologia
Arte da Vida, A
Comunidade: a busca pr segurança no mundo atual
Confiança e Medo na Cidade
Em Busca da Política

Europa: uma aventura inacabada
Globalização: as consequências humanas
Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi

Medo Líquido
Modernidade e Ambivalência
Modernidade e Holocausto
Modernidade Líquida
Mal-Estar da Pós-Modernidade
Sociedade Individualizada: vidas contadas e histórias vividas

Tempos Líquidos
Vida Líquida

Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria
Vidas Desperdiçadas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Entrevista de Pedro Herz, da Livraria Cultura, à Folha de São Paulo

Reproduzo abaixo a entrevista de Pedro Herz à Folha de São Paulo publicada em papel e na internet, inclusive com o link para a página da Folha. Na entrevista Pedro Herz fala de alguns pontos importantes para o mercado do livro e que merecem ser pensados e debatidos.

Crédito da foto: Karime Xavier/Folha Imagem

Destaco os seguintes pontos sobre os quais, inclusive, já emiti opinião neste blog:
01-o livro digital não é e, não será, uma ameaça ao livro impresso;
02-a importância da venda pela internet; é a segunda loja da Cultura;
03-a migração do comércio para os shoppings;
04-a deficiência do ensino e a não formação de leitores em quantidade é que são a ameaça ao comércio do livro;
05-falta de profissionalização no negócio do livro;
06-a visão de buscar fidelizar clientes e, não, simplesmente, vender livros.

21/02/2010 - 07h42 Folha online

Ameaça ao livro não é e-reader, mas falta de novos leitores, diz dono da Livraria Cultura

FABIO VICTOR da Folha de S.Paulo

Numa viagem recente a Nova York, o dono da Livraria Cultura, Pedro Herz, fez um teste: ao andar de metrô pela cidade, observou quantos passageiros portavam e-readers. Em dez dias, encontrou um único leitor com o novo equipamento.

Herz diz já ter visto burburinho semelhante em outros tempos, avalia que tudo não passa de "uma nuvem" e atribui tanto barulho à sede da indústria eletrônica por escoar os novos produtos que cria em velocidade incontrolável. A ameaça real ao futuro do livro, opina, é ausência de novos leitores entre os jovens.

Apesar do ceticismo quanto à nova coqueluche do mercado, ele informa que em março a Cultura passará a vender 150 mil títulos de e-books em suas lojas.

Neste ano, a rede, que tem nove unidades (cinco em São paulo e as outras em Campinas, Recife, Porto Alegre e Brasília), abrirá mais três: Salvador, Fortaleza e uma segunda na capital federal. Com mais de 3 milhões de títulos em catálogo e 1.400 funcionários (serão mais 400 para as três novas lojas), a Cultura teve faturamento de R$ 274 milhões em 2009, crescimento de 18% em relação a 2008.

Segundo Herz, está mantida a decisão de pôr fim à empresa familiar na terceira geração (ou seja, a de seus filhos) e de abrir em breve o capital. Por ora deu apenas o primeiro passo, se associando no ano passado ao fundo de investimento Capital Mezanino. O fundo tem hoje 16% da empresa e família Herz, 84% --Pedro é o presidente do Conselho de Administração.

Leia a seguir a entrevista que ele deu à Folha num restaurante paulistano.

Folha
- Quando a internet surgiu como uma ameaça ao mercado de livros, você começou antes a vender online. Agora, que o livro eletrônico paira como ameaça ao livro de papel, o que a Cultura vai fazer?
Pedro Herz
- Em março vamos disponibilizar 150 mil títulos em formatos para e-readers. Eu acho que é uma opção a mais para o leitor. Não vamos vender o hardware, só conteúdo. Os formatos são tantos que pode ser que você compre num formato que o seu leitor [equipamento] não leia. A Amazon fez isso com o Kindle, se você comprar um e-book na [livraria] Barnes & Noble e tem um Kindle, não conseguirá ler. Foi um tiro no pé da Amazon, obrigar o leitor a comprar no seu formato. É o carregador de celular que só serve no seu, uma ideia totalmente superada. Os formatos são vários, dependerá de como cada editora vai digitalizar seus livros. Vai ser uma barafunda, porque se você tem um formato e teu e-reader não lê, onde o leitor vai reclamar? É o que está acontecendo um pouco nos EUA, com a MacMillan e a Amazon, mas pela guerra de preços [por discordância sobre o valor dos livros, títulos da editora foram retirados do catálogo da Amazon, mas depois elas chegaram a acordo].
Não sei bem, está tudo muito cru, muito no início, e não sei bem como serão as vendas. Acho que bem pequenas.
Acho o e-reader uma ferramenta fantástica, mas daí a virar o substituto do livro... Já vi esse filme antes, já vi o VHS chegar e dizer que ia acabar com o cinema. Já vi, na Feira de Frankfurt, dizerem que o mundo ia virar CD-ROM, e o mundo não virou CD-ROM. Dois anos depois não se falava nisso, as editoras me falavam: "Pô, perdemos um dinheirão, admitimos um monte de gente e não deu em nada". A sensação que eu tenho é que a gente está vendo uma nuvem, que vai passar. Pode ser que chova, mas, num curto prazo, não vai acontecer nada.

Folha - O sr. tem e-reader, usa para ler?
Herz - Não, tem um monte na livraria, mas eu não uso.

Folha - E tem um monte para quê?
Herz - Pra conhecer. Eu estive em Nova York há pouco, passei dez dias, e fiquei muito atento a quantas pessoas eu ia ver lendo em e-reader. Gastei mais de US$ 80 em metrô, pra cima e pra baixo. Se eu te disser que vi um único cidadão com um na mão, você acredita? Em dez dias em Nova York, andando de metrô, onde todo mundo lia --ou uma revista, ou um jornal ou um livro--, eu vi uma pessoa com um e-reader. Um detalhe que me chamou a atenção foi que esse leitor lia segurando o aparelho com as duas mãos, e as pessoas que liam livros usavam uma mão apenas. São coisas interessantes. Dos leitores que entrevistei informalmente nas livrarias, 100% disseram que não vão trocar.

Folha - Em que medida o rebuliço em torno do e-reader se deve ao poder de marketing da indústria eletrônica?
Herz
- Não só o marketing é tão forte como a indústria, qualquer indústria, tem necessidade de criar modelos novos, seja do que for, e escoar os modelos novos. E existem coisas paradoxais: todo mundo trabalha para ter mais tempo de lazer, aí chega a indústria e desenvolve um computador que é um centésimo de milésimo de segundo mais rápido do que aquele que você tem e tenta te convencer a comprar o desgraçado. Peraí, mas se eu quero ter mais tempo, por que meu computador tem que ser Fórmula 1? Eu não tenho certeza se as pessoas querem essa velocidade toda. Eu troco de carro a cada cinco anos, e sou um cara que ando pouco, quando compro um carro algum amigo já diz: "Esse carro é meu quando você vender". Se você me perguntar por que que eu troquei, eu não sei te responder direito.

Folha - Qual a principal desvantagem do livro de papel?
Herz - Imagina um advogado que vai fazer uma audiência no Acre e tem que levar aquela papelada do processo. Um editor de uma grande editora de livros, que recebe 50 livros novos por semana de todo mundo, para resolver se vai publicar ou não, ter isso digitalizado e num voo de 12 horas para a Europa ir dando uma olhada no que interessa ou não. É de uma utilidade fantástica, mas não sei se é a melhor ferramenta para o leitor de livros. E tem outra pergunta que eu faço: fará novos leitores? Quem não lê livro de papel, não vai passar a ler por causa do livro eletrônico. Eu não sei como reagirão os que estão na maternidade.
Acredito que quem faz leitor são os pais, inegavelmente. Os jovens leitores são filhos de leitores. Dificilmente aparece uma criança ou adolescente que não tenha os pais leitores. A grande campanha que na minha opinião deveria ser feita pelo governo é mais ou menos assim: "Se você não lê, como quer que seu filho leia?". Essa é a pergunta que deve ser feita. Porque os meus filhos "liam" sem ser alfabetizados, pegavam o livro na mão para imitar os meus gestos.

Folha - As vendas de livros pela internet representam quanto do total de vendas da Livraria Cultura?
Herz
- É a nossa segunda loja. A primeira é a da Paulista. [As vendas pela internet] representam 16% do faturamento [em 2009].

Folha - Esse índice vem crescendo nos últimos anos?
Herz - Vem, mas as vendas das lojas físicas também.

Folha - Proporcionalmente, qual cresceu mais?
Herz - Não tenho a informação, teria de separar isso, ver quanto a internet cresceu sem abertura de lojas. Vi uma coisa interessante: abri uma loja em Brasília, que vai super bem. A [venda pela] internet na região fez isso [faz com a mão gesto de subida]. É de alguma forma um símbolo de segurança para o comprador. E muita gente usa a internet para pesquisa, e realiza a compra fisicamente. É muito comum você ver o cara chegar na livraria com o que ele imprimiu na internet.

Folha - Li numa reportagem, com dados da Associação Britânica de Livreiros, que houve uma queda de 27% no número de lojas de rua em dez anos no Reino Unido --só em 2009 foram fechadas 102 lojas. É uma tendência inevitável também no Brasil? O sr. tem dados?
Herz
- São dados poucos confiáveis, não são representativos do mercado. Nós não somos sócios de nenhuma das entidades de classe. Os números de consumo de livros divulgados no Brasil embutem compras do governo, e eu não sei se são confiáveis.

Folha - Mas uma pesquisa de 2009 encomendada por CBL (Câmara Brasileira do Livro) e Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) fazia a separação entre essas compras...
Herz
- Eu não sou fornecedor do governo, não sei se o governo comprou mais ou menos, tenho que acreditar naquilo que dizem. Acho que falta nesta pesquisa um ingrediente que, não sei por que razão, fica fora, que é o fabricante de papel. Quanto foi vendido para publicar livro, que é isento de imposto. Os fabricantes de papel concordam com esse aumento? Houve um aumento de quantas toneladas de papel para livro? Eu não sei.

Folha - Mas o fechamento das chamadas livrarias de rua parece inexorável, as lojas novas que a própria Livraria Cultura abrem são todas em shoppings...
Herz
- É, tem uma série de componentes. Por que se prefere o shopping? Por que é mais seguro, facilidade de estacionar. São poucas lojas de rua que oferecem essa comodidade. Numa cidade como São Paulo, onde o transporte público é ruim, você tem que andar não sei quantas quadras para deixar o carro numa loja de rua, o medo toma conta, os pais não deixam os filhos, isso no Brasil. Em Nova York ou Londres é um pouco diferente.

Folha - Como a crise de 2008/2009 atingiu o mercado?
Herz - O mercado eu não sei, a nós não atingiu. Nós crescemos legal, 18%. Acho que a solução continua nos livros, então as pessoas começaram a ler, procurando explicações [para a crise], porque não aconteceu nada de novo, nós já vimos isso outras vezes.

Folha - O sr. vê algum novo nicho a ameaçar as vendas de livros nas livrarias?
Herz - A grande ameaça que existe é a não-formação de novos leitores. As famílias [ricas] que tinham cinco filhos há um século, hoje ou não têm nenhum ou têm um, no máximo dois. O número de leitores cresce pouco, se é que cresce. Se você pegar o universo da classe D, esse pai não tem orgulho nenhum do que faz, nem a mãe. Então a compra de um lápis significa para ele um investimento na educação de um filho. Acho isso extremamente bacana, é um raciocínio válido, mas sabemos que é insuficiente. O apagão do ensino taí, a dificuldade que temos de admitir gente é homérica. A gente aplica testes básicos dos básico de conhecimentos gerais razoáveis. A gente quer que o candidato leia jornais, uma revista, que seja atualizado. Você pergunta para ele quem escreveu "Dom Casmurro", metade levante e vai embora. E são todos universitários formados. E não sou o único que tem esse tipo de problema. Falei com outros empresários, de outras áreas, que têm exatamente o mesmo problema. Gente que não encontra engenheiros, que não encontra médicos. Veja o resultado do Enem. Está difícil acreditar. Esse crescimento anunciado é sustentado? Ou é um momento de paternalismo que está aí? Estou procurando gente [para as lojas] no Nordeste, tem gente que não quer ser registrada. Perguntamos por que, e dizem: "Ah, porque eu recebo a Bolsa [Família], minha mulher recebe a Bolsa. E a população cresce nesses lugares do Nordeste. E gente esclarecida que pode ter filhos está tendo cada vez menos, se é que está tendo. Conheço casais de amigos, leitores, muito bem casados, felizes, que preferiram não ter filhos.

Folha - O aumento da oferta de livros nos supermercados e expansão do comércio de livros usados online, por exemplo, podem ameaçar as vendas nas livrarias?
Herz
- Minha mãe começou a livraria achando que muito livro valia a pena ser lido e não ser comprado. Ela começou alugando livro. Sou francamente favorável ao comércio de livros usados. E há espaço para todo mundo. A rua da Consolação está cheia de loja de lustres. Peraí, o Brasil é muito grande. Sou francamente favorável. O que eu condeno é que um irmão mais novo não possa aproveitar o livro do irmão mais velho na escola. O que é que mudou na aritmética e na geografia? Por que tem que jogar fora esse livro. Hoje o governo até faz uma campanha para o aproveitamento [do livro didático], extremamente salutar, mas não é só. Por que o livro novo tem que ter um leitor por exemplar? Não tem biblioteca. Um livro, um leitor, é pouco.
Supermercado não me afeta em nada. Eu acho que contribui para a formação do leitor. Eu não quero fazer uma venda, eu quero um cliente. Se ele começar a gostar de ler, o próximo passo daquele que comprou um livro no supermercado será a livraria.

Folha - O que achou da Biblioteca de São Paulo, cujo modelo foi inspirado, segundo a Secretaria Estadual de Cultura, em livrarias tipo megastores?
Herz - O [secretário estadual de Cultura, João] Sayad me falou que eles se inspiraram muito no modelo da [Livraria Cultura da avenida] Paulista, que é um local onde as pessoas ficam. Fiquei orgulhoso. É possível criar um lugar onde as pessoas se entretêm, têm opções para aprender e ver alguma coisa de concreto. A coisa mais bacana que achei é que ela vai funcionar nos fins de semana. Gente, o Brasil é o único país em que as bibliotecas fecham no fim de semana, quando os pais podem levar os filhos.

Folha - Por que a Livraria Cultura resiste a entrar nas entidades de classe?
Herz - Não vejo o porquê. Não vejo muito sentido para as entidades de classe em meu ramo. Não acredito muito no que eles estão fazendo ou fizeram em benefício [do setor].

Folha - Já sofreu represália por isso?
Herz
- Não, nunca sofri. E nós nos falamos, numa boa, com a Câmara [Brasileira do Livro], a ANL [Associação Nacional de Livrarias], o sindicato [nacional de editores de livros, o Snel]. A relação é muito cordial. Mas não participo de reuniões, nem de feiras, nem de bienais. Acho que qualquer feira é um lugar de plantio, não de colheita. E as bienais são de colheita, mas é impossível colher alguma coisa na bienal. Todo mundo diz que perde dinheiro. Então está na hora de repensar esse modelo.
E tem coisas de que a indústria não tem interesse. Por que o livro do irmão mais velho não pode ser aproveitado pelo mais novo?

Folha - Numa entrevista em 2006, o sr. afirmou que a indústria editorial era defasada, não tinha visão e não tratava o livro como negócio. Permanece assim?
Herz - Bastante. Quando comecei [a vender livros] na internet [em 1995], a gente desenvolveu um software para as editoras nos mandarem os seus catálogos num formatinho já pronto, txt, com informações básicas (autor, título, sinopse), para alimentar a internet. Se eu te disse que zero respondeu. Tive que fazer tudo eu. Para divulgar o livro de uma editora xis. Ninguém viu o potencial da internet do qual falo há 15 anos. Está tudo pronto lá, autor, página, preço, medidas. Não quero informação confidencial, quero informação que eu não tenha que sacar funcionários para fazer uma coisa que já está pronta. Hoje uma grande queixa dos internautas é a falta de resenhas [sinopses] dos livros. Eu que tenho que fazer a resenha do livro que você editou? Pô, me entrega isso pronto, amigo. Muitas mandam, mas muitas não.

Folha - Qual o cronograma de abertura das novas lojas?
Herz
- Brasília será a primeira, entre abril e maio. Fortaleza está marcado para 19 de maio. E Salvador em julho. Estamos procurando um lugar no Rio de Janeiro, mas está dificílimo. Não acho lugar, não tem um espaço. O Rio tem uma geografia que não nos ajuda. O problema de espaço é tão complicado que um prédio encosta no outro. Tenho que chegar ao Rio com a mesma identidade, não posso chegar com um posto de serviços. Preciso de pelo menos 1.800 m2, com um pé direito que permita um mezanino. Não acho nem para discutir o valor.

Folha - De início o sr. resistiu a vender outros produtos e virar megastore. O que mais poderá ser agregado às vendas nas suas lojas?
Herz - Chegamos à conclusão de que o leitor também ouve música e vê filme.

Folha - Mas, por esse raciocínio, esse mesmo leitor assiste a TVs de plasma, compra aparelhos eletrônicos... Significa que outros produtos poderão ser vendidos também?
Herz
- Dessa linha não.

Folha - Então de que outra linha?
Herz
- Não sei. Temos alguma coisa de produtos educativos, uma pequena parte de Lego. E começamos uma pequena coisa agora [no final do ano passado] com games, mas não hardware.

Folha - Em relação ao caso do cliente que foi atacado [na cabeça com um taco de beisebol por um homem] dentro de uma loja da Livraria Cultura em dezembro passado, o que mudou para vocês?
Herz
- [estende um exemplar do último número da Revista da Cultura] É o meu editorial. [Herz se refere ao episódio como o "triste dia 21 de dezembro", no qual "Um cliente e nós fomos violenta e covardemente agredidos. É assim que me sinto". Diz que o caso é "muito revelador sobre o mundo em que vivemos, sobre a legislação que nos rege (aparentemente um doente mental reincidente que estava à solta e só agora, que agrediu uma vida, e não algo material, foi detido)". "Quantos doentes mentais estão na rua agredindo pessoas... E o que fazer? A resposta eu não tenho. Só reflexões e pesar."]

Folha - Há algo que possa ser feito para evitar casos como esses?
Herz - Tem, com relação à lei. Ele já tinha quebrado os vidros da livraria [um ano antes], e o delegado soltou ele meia hora depois. Para agir contra ele [na época], eu teria de abrir um processo. Só que ele não fala uma frase emendada na outra, é um doente mental, é louco. Então o Estado não cuida do doente mental. A ideia de abolir o manicômio foi para que a família tomasse conta, mas a família aí se dá conta que dá muito trabalho e que custa dinheiro, e abandona o cara, que fica solto, até fazer o que ele fez. [Segundo Herz, o agredido continuava em coma à época da entrevista, e o agressor permanecia detido por tentativa de homicídio].

Folha - Vocês modificaram algo na segurança das lojas?
Herz - Não há o que mudar. Entre a entrada do cara na livraria e a agressão passaram-se menos de dois minutos. O delegado falou que se as imagens da agressão vazarem na internet, esse preso corre risco de vida, porque ele agride de uma maneira tão violenta e tão covarde que os presos não toleram isso. O cara está agachado olhando o livro numa estante embaixo, ele vem por trás e mete o taco na cabeça do cara. Ele entrou sem nada na mão, só com o taco e o facão dentro da mochila, de boné, bermuda...

De como chegamos a este estado de coisas

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