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sábado, 28 de setembro de 2013

Saiu na mídia # 17: O livro de papel parece ter mais futuro hoje do que ontem

Compartilhando. Publicado no site da Exame (somente o texto)

Em tese, a pequena livraria da americana Keebe Fitch, a McIntyre’s Books, em Pittsboro, na Carolina do Norte, já deveria ter fechado as portas. Keebe viu o avanço das grandes redes, como Barnes & Noble, nos anos 90. Testemunhou também a explosão das vendas pela internet, sobretudo o fenômeno varejista Amazon, nos anos 2000.
E, mais recentemente, foi a vez de os e-books mudarem novamente o mercado livreiro nos Estados Unidos. Mas a loja de Keebe, herdada de seus pais e há 25 anos no mercado, vai muito bem: a expectativa é faturar 10% mais em 2013. E a McIntyre’s Books é tudo, menos um caso isolado. 
As vendas das chamadas livrarias alternativas nos Estados Unidos aumentaram 8% em 2012. O número de lojas também voltou a crescer. “Oferecemos uma série de serviços que enriquecem a experiência do cliente na livraria. Caso contrário, ele compraria online”, diz Keebe.

Em seu cardápio estão encontros com escritores e discussões entre leitores com interesses comuns. O curioso é que, até há pouco tempo, a morte do livro em papel era dada como certa — e, consequentemente, das livrarias. Sim, vendem-se menos livros em papel hoje do que em 2007 nos Estados Unidos, ano do lançamento do Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. O futuro, porém, não parece ser de uma onipresença eletrônica. 

Depois de um início espetacular, o crescimento da venda de e-books nos Estados Unidos, mercado considerado um laboratório das experiências digitais, perdeu fôlego. De acordo com a consultoria PricewaterhouseCoopers, as vendas de e-books devem crescer 36% em 2013, mas apenas 9% em 2017 — embora sobre uma base obviamente maior.
“Não há mais fôlego para o e-book crescer como antes”, diz o consultor Mike Shatzkin, um dos maiores especialistas em mercado editorial digital. Não é que o consumidor vá perder o interesse, pelo contrário.
No mundo, a venda de e-books deverá movimentar 23 bilhões de dólares em quatro anos. Ainda assim, de cada dez livros vendidos em 2017, apenas dois serão eletrônicos, segundo as previsões mais respeitadas. 
Não faz muito tempo, acreditava-se que a indústria do livro sofreria o mesmo destino da indústria fonográfica. O surgimento do MP3 abalou o mercado de CDs e, consequentemente, as grandes lojas de discos. O mercado de livros, no entanto, tem se comportado de maneira diferente.
Quase metade dos livros é comercializada pela internet nos Estados Unidos. Mas apenas 23% dos americanos leem livros eletrônicos. Ou seja, a experiência da leitura digital não acompanhou na mesma velocidade o hábito de comprar livros pela internet. 
Um levantamento do instituto de pesquisas Pew Research com 3 000 leitores mostra que o livro digital leva vantagem frente ao papel em algumas situações. No caso de viagens, a maioria prefere os e-books. Quando se trata de leitura para crianças, 80% preferem as edições físicas.
Essas evidências frustraram quem contava com um futuro 100% digital. A rede de livrarias americana Barnes & Noble apostou suas fichas no Nook, leitor eletrônico lançado em 2011. A venda do aparelho e de títulos digitais, porém, tem sido uma decepção. As sucessivas quedas de venda custaram o emprego de William Lynch, que até julho presidia a empresa. Especula-se que a Microsoft esteja negociando a compra do Nook.
A previsão mais aceita atualmente é de que haverá uma convivência entre e-books e papel. “A participação do livro digital deve alcançar no máximo 40% do total de vendas”, diz Wayne White, vice-presidente da canadense Kobo, fabricante de leitores eletrônicos, com 14 milhões de usuários no mundo.
Hoje, nos Estados Unidos, a fatia dos e-books na receita do setor é de 22% — no Brasil, é de 1,6%. “O livro digital será parte do negócio, não todo ele”, diz Sergio Herz, dono da Livraria Cultura, na qual os e-books representam 3,7% das vendas. É provável que não tenhamos de explicar a nossos netos o que são livros de papel — nem o prazer que temos ao lê-los.
Inauguração da Livraria Cultura no Shop Iguatemi em SP, Av. Faria Lima, em 25.09.2013

sábado, 6 de julho de 2013

A experiência multicanal no mercado do livro

O passar dos anos vem mostrando que não são mais antagônicos os canais de varejo físico e de e-commerce. A experiência multicanal é a nova realidade. O grande desafio que se apresenta é de como fazer que os dois canais sejam, cada vez mais, complementares. Abaixo, a palestra de Sérgio Herz, CEO da Livraria Cultura, no Congresso E-commerce Brasil Experiência do Cliente 2013

É uma bela aula em 26 minutos. Todos temos a aprender.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Saiu na mídia # 16: O mercado editorial na Alemanha

Compartilhando. Publicado no Publishnews

O mercado editorial na Alemanha

01/07/2013
 
Por Holger Heimann

Só as farmácias conseguem ser mais rápidas, porque providenciam remédios em apenas algumas horas. Mas, na Alemanha, quem quer fortalecer o espírito e a imaginação e não encontra o que procura numa livraria espera no máximo dois dias. Graças à logística eficiente dos grandes livreiros como Koch, Neff e Volckman (KNV) e Libri, que possuem em seus estoques centrais a maioria dos livros atuais e mais procurados, as livrarias são abastecidas da noite para o dia. Mesmo nos tempos da nova mídia, ler livros está no topo das atividades de lazer preferidas dos alemães. Além disso, a rede de livrarias na Alemanha mantém um vínculo muito estreito, difícil de se ver em outros países. Isto se dá, entre outros motivos, graças à fixação dos preços dos livros, que determina o mesmo preço para todos os locais de venda. Há 3.500 livrarias no país para uma população de 82 milhões de habitantes. Ainda hoje toda cidadezinha possui a sua livraria. Muitas vezes, além de ser um lugar onde se vendem livros, ela é o centro cultural da cidade, lugar para sarau de poetas e outras atividades literárias. Não foi à toa que o escritor Hans Magnus Enzensberger intitulou estes locais de “postos de abastecimento do espírito”.

No entanto esta imagem está mudando. Cada vez mais as pequenas livrarias se rendem, por não gerarem mais lucro, sem falar na renda irrisória de seus administradores.  Primeiro, foi a expansão das grandes redes, principalmente da Thalia e Hugendubel, e suas estratégias repressoras. Agora é a vez da ascensão do comércio livreiro virtual, com a Amazon e o aumento das vendas de e-books, do qual as lojas físicas praticamente não aproveitam, já que são negociadas diretamente com plataformas virtuais. Em 2011, pela primeira vez o resultado no comércio livreiro físico representou menos de 50% do resultado total do setor de € 9,6 bilhões. O volume de € 4,7 bilhões corresponde a uma queda de 3% em relação ao ano anterior. E algumas previsões são bastante sombrias: até 2015 o resultado no comércio livreiro físico deve cair cerca de 16%, opinam os especialistas. Quase um a cada cinco livreiros acreditam que a queda chegará a 20%, devido à importância cada vez maior do livro eletrônico. Nas vendas do Natal passado, o e-reader, principalmente o Kindle da Amazon, foi um dos presentes preferidos.
 
A Amazon, empresa ativa no mercado alemão desde 1998, também tem a agradecer o sucesso de seus leitores digitais o fato dela estar crescendo de maneira vertiginosa e constante. O resultado da Amazon Alemanha no setor livreiro foi de € 1,6 bilhões (de um resultado total de € 6,5 bilhões). Isto equivale a 74% de todo o comércio livreiro eletrônico, que representa aproximadamente um quarto do total do comércio livreiro. Com este avanço, a Amazon deixou para trás as maiores redes de livrarias, que após anos de expansão, tiveram que ir fechando cada vez mais filiais, por causa de perdas drásticas na receita.
 
Thalia, com um resultado de € 984 milhões, ficou abaixo da marca de € 1 bilhão. Esta rede do comércio livreiro pertence ao grupo Douglas, cujo setor mais rentável é o da perfumaria. Na posição abaixo, ocupando o terceiro lugar e mantendo-se bem, temos a DeutschBuchHandelsGmbH (DBH), uma fusão entre os atacadistas de livros Hugendubel e Weltbild, com receita no montante de € 695 milhões.
 
Com promoções permutáveis em espaços de venda enormes, as grandes redes foram se dirigindo para um beco sem saída. A crítica à política dos gigantes tornou-se cada vez mais veemente. “Estou certa que o aumento de filiais, que tanto a Thalia quanto a Hugendubel impulsionaram, levou a um nivelamento do comércio livreiro individual, deixando os clientes de hoje entediados. É compreensível que eles prefiram se afastar dos espaços padronizados, pois tem mais chance de encontrar produtos interessantes pela Internet”, diz Julia Claren. A gerente da Dussmann, Shopping da Cultura, mostra que é possível fazer diferente. O templo da cultura, com uma gama imensa de livros, CDs e DVDs espalhados num prédio de 5 andares no centro de Berlim, é prova viva que grandes espaços também podem ser rentáveis. No entanto o conceito da Dussmann se distancia daquele das redes livreiras, focadas em livros bestsellers; o seu se assemelha mais ao das livrarias administradas por proprietários, que investem em um atendimento competente e em um sortimento selecionado e de qualidade. “Estas são nossas pequenas irmãs”, afirma Claren.
 
Em Berlim estas são tão numerosas como em nenhum outro lugar; a densidade do comércio livreiro na cidade também é a maior do país. O que não surpreende, para uma cidade de 3,5 milhões de habitantes, a mais populosa da Alemanha. Por outro lado, aqui há um outro crescimento notável: ao contrário da tendência geral, o número de livrarias na capital aumenta: são mais de 300 atualmente. Ao empreendedor corajoso, o momento atual parece favorável para concretizar um negócio no setor livreiro, que não seja meramente voltado para as massas, mas que dê ênfase no especial, acima do trivial.
 
Provavelmente a iniciativa mais ambiciosa das recém-inauguradas é a livraria Ocelot, na capital, cujo proprietário Frithjof Klepp quer unir os mundos Online e Offline. Pelo wi-fi seus clientes não só podem como devem baixar os e-books. Mas por ora eles continuam indo às lojas, principalmente por causa da seleção primorosa de belos livros, para os quais Klepp reserva sempre um lugar de honra. “Estou certo que, mesmo nos tempos atuais, as pessoas querem ter contato com outras pessoas. Quer dizer que o cliente vai lá, onde ele se sente bem, onde espera encontrar um atendimento competente”, diz Klepp com confiança.
 
Deve ter sido graças ao otimismo e a dedicação destes empreendedores que Gottfried Honnefelder, Diretor da Associação da Bolsa do Comércio Livreiro Alemão, declarou: “É possível que agora seja a hora e vez do comércio livreiro independente”. Se e como o comércio livreiro tradicional poderá usufruir dos negócios com o e-book ainda é uma icógnita, mesmo contando com livreiros inovadores como Klepp. As previsões divergem tanto quanto o temperamento dos livreiros. Talvez Julia Claren tenha razão, ao afirmar que “sentimos uma certa ansiedade no momento, devido às transformações fundamentais. Todos nós do setor só temos a ganhar, reconhecendo que as empresas bem-sucedidas sempre se orientaram e ficaram bem atentas às necessidades dos clientes, para depois agir de maneira criativa. Quando a pressão aumenta, aparecem força e energia e se olha para frente.“
 
Holger Heimann trabalhou muitos anos como redator do Börsenblatt, a revista mais importante do setor editorial alemão. Hoje é jornalista independente em Berlim e trabalha, entre outros, para a Welt, a Rádio Alemanha e ainda para a Börsenblatt.
 
Texto traduzido por Christina Wolfensberger


O negócio do livro na Alemanha vai bem – e é muito produtivo: cerca de 80 mil novos títulos são publicados todo ano, e as vendas geram um faturamento anual de 9,52 bilhões de euros. Mas quem são os atores no cenário do livro e do mercado editorial na Alemanha? Quais regras específicas se aplicam ao mercado alemão – do preço do livro ao Börsenverein? Tendo em vista a participação da Alemanha como país convidado de honra na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e o Brasil como país convidado de honra na Feira do Livro de Frankfurt, produzimos uma série de artigos sobre o mercado editorial, e o livro em geral, na Alemanha. Apresentaremos um panorama geral do mercado, falaremos sobre agências literárias na Alemanha, sobre literatura para crianças, sobre o livro digital, as principais empresas do mercado, e muitos outros assuntos. Agradecemos ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha por seu apoio na produção desta série. Esperamos que gostem!
 
Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Saiu na mídia # 15: O futuro não é o fim, ainda

Compartilho texto publicado no jornal Valor Econômico

 


O futuro não é o fim, ainda

Por João Luiz Rosa | De São Paulo
Claudio Belli/Valor
Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet”
Há dois anos, parecia que o livro impresso começava a tomar o caminho da extinção. Em abril de 2011, a Amazon anunciou que a venda de livros eletrônicos superara pela primeira vez a de papel - 105 volumes digitais para cada 100 tradicionais - e a Borders, uma das maiores cadeias de livrarias dos Estados Unidos, baixou as portas, em setembro, apenas sete meses depois de entrar com um pedido de recuperação judicial. Das 511 lojas que tinha um ano antes restavam 399.
Agora, os sinais são diferentes. As vendas dos aparelhos eletrônicos para leitura de livros, ou e-readers, que pareciam os substitutos naturais do livro em papel, vão cair dos 5,8 milhões de unidades projetadas para este ano para 2,3 milhões em 2017, prevê a consultoria Forrester. O interesse do público parece tão morno que nesta semana a Barnes & Noble, outra gigante americana das livrarias, anunciou que vai abandonar parte da produção do seu e-reader, o Nook, depois de a receita com o negócio cair 34% no trimestre, duplicando as perdas na área.
Ainda mais significativo é que as próprias vendas dos livros digitais não seguiram o ritmo espetacular que se esperava a princípio. Em uma década, entre 2002 e 2012, os e-books saíram de invisíveis 0,05% da receita do mercado editorial americano, o mais avançado na área digital, para 20% das vendas. Em outros países, permanece longe desse patamar - 10% na Espanha, 3% na Itália, pouco mais de 2,5% no Brasil.
Contra as probabilidades, os números parecem indicar que o livro é mais resistente ao tsunami digital que a música. Segundo a IFPI, principal organização mundial da indústria fonográfica, o segmento digital representou 37% da receita total do setor no ano passado, mas os números só levam em consideração as vendas legais. O que é obtido por meio da pirataria fica fora do levantamento, o que distorce o cenário. Foram as vendas ilegais, afinal, que destroçaram as regras estabelecidas no setor, cujos personagens ainda estão em busca de novos formatos comerciais viáveis. No mercado editorial, talvez por não ter ocorrido o mesmo efeito devastador, fica a impressão de que a maré digital está fraca, mas muitos especialistas acham que a grande onda ainda está por vir.
"Há 500 anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, não se via uma revolução da mesma ordem e magnitude na indústria da informação", disse o professor Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na abertura do IV Congresso do Livro Digital, ocorrido neste mês em São Paulo. Meira, que também é cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede no Recife, contou que algum tempo atrás um executivo perguntou se as mudanças viriam antes de sua aposentadoria, daqui a dez anos. "Dez anos? Ih, pode ter certeza de que você vai enfrentar turbulência", respondeu o professor.
Tempo, portanto, ocupa um papel especial na digitalização do livro. "Eu não diria que o ritmo [de vendas dos livros digitais] está lento ou abaixo das expectativas", afirma Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e sócia-diretora da Girassol Brasil Edições. Embora o assunto esteja em discussão há anos, as vendas de e-books no país só começaram para valer no fim do ano passado, com uma resposta positiva tanto da indústria quanto do consumidor, avalia Karine. Pelas contas da CBL, o número de títulos em formato digital triplicou no Brasil em um ano, passando de 5 mil em 2011 para 15 mil no ano passado.
A expectativa é que a redução dos preços dos tablets dê um forte impulso aos livros digitais. Enquanto os e-readers, voltados basicamente para leitura, sofrem uma redução prematura das vendas, os tablets - que também permitem navegar na internet, ver filmes, ouvir música etc. - ficam mais baratos e ganham consumidores de mais classes sociais. A previsão da consultoria IDC é que as vendas mundiais de tablets vão chegar a 229,3 milhões de unidades neste ano, superando pela primeira vez a de notebooks, de 187,4 milhões de unidades. O preço médio vai ficar quase 11% mais baixo, em US$ 381. É por isso que, apesar do desinteresse pelos e-readers, os livros digitais teriam espaço para crescer. Em vez de aparelhos exclusivos para leitura, o consumidor estaria preferindo os tablets na hora de ler.
A competição acirrada pode contribuir para a adoção mais rápida dos e-books. Companhias como a Amazon, dona do Kindle, estão lançando equipamentos básicos a preços reduzidos, com margens baixíssimas de lucro, na expectativa de vender livros digitais e recuperar o investimento mais tarde. É uma manobra que tomou emprestada do setor de tecnologia da informação: fabricantes de impressoras, por exemplo, também vendem máquinas com margens apertadas para ganhar dinheiro com tinta e papel.
"O problema do tablet é que se trata de um meio individual. Cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60 e hoje cada casa tem duas ou três TVs", diz o italiano Mario Pireddu, professor da Universidade de Roma III e da Universidade IULM de Milão. "Com o tablet, multipliquei minha capacidade de leitura. Se tenho um voo de 12 horas, posso ver filmes e ouvir música, mas conto com 40 livros à disposição."
No Brasil, a arrancada do livro digital também estaria ligada a um ponto particular: o peso dos livros didáticos no mercado editorial e nos hábitos de leitura da população. Divulgada no ano passado, a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra que o número de leitores no país caiu de 95,6 milhões de pessoas em 2007, ou 55% da população, para 88,2 milhões em 2011, o equivalente a 50%. Elaborado pelo Instituto Pró-Livro e o Ibope Inteligência, o levantamento considerou como leitor a pessoa que tivesse lido pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Em média, foi lido 1,85 livro no período, sendo 1,05 por iniciativa própria e 0,81 - uma participação considerável - por indicação da escola. Desse número, 0,63 encaixava-se na categoria livro didático, deixando à literatura apenas 0,18 livro.
Ler ficou na sétima posição entre as preferências no tempo livre, com 28% das respostas, bem abaixo de ver TV (85%), o passatempo favorito dos brasileiros. Em uma pergunta que admitia até três respostas, a maioria (64%) afirmou que ler é adquirir conhecimento para a vida, mas as respostas seguintes - útil para a atualização profissional (41%) e para o conhecimento na escola (35%) - mostram que a leitura é vista muito mais como uma obrigação do que como uma fonte de prazer. A resposta "uma atividade interessante" ficou com apenas 21% das preferências e "uma atividade prazerosa", com menos ainda: 18%.
O quadro permite deduzir que para onde a escola se dirigir no Brasil o hábito de leitura vai se mover, e essa direção, em parte, é o livro digital. "Já foi definido que a partir de 2015 todos os livros didáticos que o governo adquirir terão de ter uma versão digital", diz Karine, da CBL.
A questão que começa a se discutir - e provavelmente vai dominar os debates e as ações nos próximos anos - é que tipo de livro digital chegará às salas de aula, e quais serão os ecos nos demais ramos da indústria, incluindo a ficção. Até agora, o e-book tem sido pouco mais que a transposição do livro em papel para a tela de um dispositivo eletrônico. Mas um novo conceito de publicação digital está em gestação: é a ideia de transformar o livro em componente de um sistema mais amplo, com uma forte contribuição das redes sociais. É o livro como serviço ou, numa proposição ainda mais radical, o livro como software.
Bibliotecárias sempre tiveram pavor de que usuários mais rebeldes grifassem ou fizessem anotações nas orelhas dos livros que tomavam emprestados, mas no mundo digital saber as opiniões dos outros não só é útil como tem valor econômico, defende o professor Meira. Essa concepção já seria dominante na internet, na qual as pessoas procuram pelas opiniões dos outros antes de fazer compras, decidir para onde viajar nas férias ou em que hotel ficar. O livro digital, sob esse ponto de vista, não só pode estimular que mais pessoas leiam, mas também escrevam, como prenunciam os blogs.
Claudio Belli/Valor
Pireddu, professor da Universidade de Roma III: “Creio que o tablet será o meio dominante. O problema é que cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60”
A reclamação de muitos críticos é qual a relevância de tudo isso que está sendo escrito. A maior parte dos blogs, na verdade, passa despercebida - e desaparece com a mesma facilidade com que foi criada. "Você está falando do problema do lixo [cultural], mas essa não é uma questão nova", diz Pireddu. No século XV, informa o professor, um livro publicado na Itália por um contemporâneo de Gutenberg já questionava se as facilidades proporcionadas pelos tipos móveis não cobririam a Europa de obras descartáveis. "O argumento de que os monges copistas faziam uma seleção do que deveria ser publicado era semelhante ao usado hoje", afirma o especialista. "Vai haver mais lixo, mas esse é o preço a pagar pela democratização [da produção de conteúdo]. E não é verdade que bem antes da internet as editoras já publicavam muita literatura de baixo valor?"
Ainda não está claro como o conceito da rede social pode ajudar o leitor, mas Pireddu dá uma pista. "Você pode não ter interesse em saber a opinião de um leigo sobre um livro de Shakespeare, mas e se a editora montasse um grupo que lhe permitisse compartilhar as opiniões de um crítico de teatro ou de um ator reconhecido por interpretar Shakespeare?", pergunta.
A ideia, portanto, é ligar o livro a outras fontes de conhecimento, combinando-as em um único serviço. Em vez de só ler sobre um filme de Fellini, por exemplo, o leitor poderia ver trechos do filme como extensão do livro e discutir com outras pessoas sobre o que está sendo abordado.
É nessa linha que vai o próximo livro de Meira. Com lançamento previsto para setembro, a obra terá palavras-chave associadas a cada parágrafo. Um aplicativo poderá ajudar na leitura do livro. Toda vez que uma informação nova for publicada sobre o termo em questão, o leitor será avisado pelo software, com indicações de como obter os complementos. Na prática, o livro vai se tornar uma espécie de obra aberta e atualizada constantemente, como ocorrem com alguns programas de computador. "Em determinado momento, precisei parar de escrever o livro e passei a escrever o software", contou Meira.
Se mudanças como essas se tornarem padrão, outras questões ganharão urgência, como os direitos autorais - em um ambiente coletivo, quem será remunerado pelo quê? - e os meios para financiar criações que vão requerer um aparato tecnológico para oferecer ao leitor o que prometiam a princípio. Será a hora, também, de definir quem vai pagar a conta e que modelos comerciais serão capazes de oferecer o retorno necessário para sustentar o investimento.
"A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet", diz Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais e diretor da Associação Espanhola de Economia Digital.
Até agora, os produtores de conteúdo, como autores de livros e jornalistas, criam bens culturais pelos quais os leitores pagam. Esse cenário se baseia em uma espécie de economia da escassez, na qual os produtores de informação são poucos, o que aumenta o valor do que é produzido. A internet alterou esse modelo ao multiplicar as fontes de informação, sem entrar no mérito da qualidade da produção cultural ou no fato de que muitos sites exibem propriedades pelas quais deveriam pagar.
Para não perder relevância, afirma Celaya, as empresas ligadas à informação terão de cobrar por serviços, em vez de conteúdo. Não é só o livro que será transformado em serviço, mas também os jornais, as revistas e outros meios noticiosos. E, como no livro, a carga tecnológica para promover essa transformação será intensa.
"Pense em empresas como o Google e a Amazon, que ganham dinheiro porque conhecem muito bem seus usuários", diz Celaya. As empresas jornalísticas poderiam adotar uma abordagem semelhante, afirma o especialista. Ao saber quais artigos o leitor lê por dia, quantos deles são lidos até o fim e outras informações do gênero, obtidas por meio de softwares, as companhias poderiam criar versões pessoais de suas publicações.
"O Brasil é um dos países com mais bancas de jornal, mas elas não têm muitos recursos tecnológicos", afirma Celaya. Com investimento na cadeia de distribuição, um jornal ou revista poderia identificar, por sistemas de geolocalização, que um leitor está a poucos metros de uma banca e mandar um aviso para o celular dele, com o resumo de uma notícia particularmente interessante e a sugestão de que passe pela banca no caminho.
Por enquanto, essa parece uma cena de ficção científica, mas, se o caminho se mostrar correto, finalmente será impossível dissociar meio e mensagem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Saiu na mídia #10 A Amazon vai comprar a maior rede de livrarias do Brasil?

Compartilhando o artigo de Carlo Carrenho


A Amazon vai comprar a maior rede de livrarias do Brasil?

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[Artigo originalmente publicado em inglês na Publishing Perspectives]
Livrarias raramente causam rebuliço na Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. Afinal, só uma rede de livrarias, a Saraiva SA Livreiros Editores (SLED4) – a maior do Brasil – é negociada por lá. Portanto o que aconteceu na última quarta-feira na Bolsa, poucos minutos antes do fechamento do pregão, foi realmente algo extraordinário e, talvez, simbólico das novas águas que a indústria editorial tem navegado ultimamente. O fato é que quando aBloomberg noticiou que a Amazon estava negociando a compra da Saraiva, as ações da livraria subiram até R$ 28, o valor mais alto alcançado nos últimos 12 meses, representando uma alta de 7,28% no dia – dos quais 7% aconteceram nos minutos finais do pregão. 
Outro varejista ligado ao mercado de livros e listado na Bovespa, a B2W (BTOW3), conhecido também como Submarino, não teve tanta sorte. Antes visto como um potencial alvo de aquisição da Amazon, suas ações caíram 4,34%, chegando a R$ 11,47. No dia seguinte, as ações da B2W caíram mais 8,54% até R$ 10,49, enquanto as ações da Saraiva permaneceram estáveis, caindo meros 0,36% para R$ 27,90.

A Amazon poderia chegar ao Brasil em novembro
Rumores sobre a atividade da Amazon no Brasil já circulam há anos, com cada vez mais intensidade. O fato é que não se pode mais chamá-los de rumores. Ainda não se sabe se vai acontecer com ou sem a compra da Saraiva, mas a fonte anônima da Bloomberg parece estar correta. Na semana passada, o jornalista brasileiro Lauro Jardim publicou no Radar On-Line que a Amazon decidiu que a data de lançamento no Brasil será em novembro. Todo mundo sabe, no entanto, que a Amazon raramente usa o tempo futuro em seus comunicados, portanto isso só pode ser visto como especulação, apesar de ser uma especulação bastante plausível.
E por quê? Duas razões. Primeiro, as negociações com a DLD (Distribuidora de Livros Digitais) estão perto de serem finalizadas. A DLD é um consórcio de sete grandes editoras brasileiras que controla ao redor de 35% da lista de best-sellers no país. Elas sempre negociam em conjunto e estão fazendo assim com a Amazon. E são, de longe, o maior desafio para os executivos de Seattle, já que estas editoras estão agressivamente exigindo condições comerciais favoráveis e o controle final sobre os preços. Limitar os agressivos descontos da Amazon são uma condição sine qua non para este grupo de sete empresas. No entanto, fontes no mercado já deixaram claro que um acordo com a DLD está muito perto e deve  acontecer antes do fim do ano. Além disso, de acordo com o noticiário local, a Amazon já conseguiu um acordo com a Xeriph, a principal agregadora de e-books, para distribuir pelo menos uma parte de seu catálogo digital. Então, é fato que a Amazon ou já tem ou está a ponto de ter conteúdo suficiente para abrir sua loja de e-books brasileira. Portanto, um lançamento em novembro não parece algo muito absurdo.

E os leitores digitais?
Se a Amazon chegar realmente, será que conseguirá disponibilizar Kindles no Brasil em tão pouco tempo? Bem, depende do que significa “disponibilizar no Brasil”. Se significa ter Kindles estocados localmente ou vendido em lojas físicas, a resposta é provavelmente “não”. A menos que os aparelhos já tenham chegado ao Brasil ou pelo menos já tenham sido despachados, é difícil imaginar que todo o processo de importação possa levar apenas poucas semanas, incluindo a liberação alfândegária. No entanto, se “disponibilizar no Brasil” significa que os brasileiros podem comprar Kindles online diretamente dos EUA e recebe-los em suas casas, então isto isso já é uma realidade operacional.
 Por uns US$ 216 (o preço do Kindle e-ink da geração anterior mais barata) entregue em um endereço brasileiro, com os impostos incluídos, a Amazon possui o e-reader dedicado mais barato do Brasil. Agora, imaginem se a Amazon der um desconto especial ou oferecer entrega expressa gratuita a clientes brasileiros. Nesse caso, não seria necessário um grande processo de importação. Esta é a segunda razão que torna plausível uma especulação de que a Amazon vai abrir no Brasil antes do final do ano. Quanto aos preços competitivos dos Kindles, não podemos esquecer que a Kobo e a Livraria Cultura prometeram disponibilizar seus e-readers antes de dezembro. Podemos então esperar algo como uma guerra de preço na disputa pelos clientes na época do Natal.

Mas a Amazon realmente vai comprar a Saraiva?
Não vamos esquecer o outro cenário: os rumores da aquisição da Saraiva. Se isto for verdade, as coisas poderiam acontecer de forma diferente, talvez com maior rapidez. Para entender melhor esta possibilidade, no entanto, devemos conhecer um pouco mais sobre a maior rede de livrarias brasileira.
A Saraiva foi fundada em 1914 por um imigrante português como uma livraria de livros usados especializada em Direito. Três anos depois, começou a publicar livros. Hoje, quase 100 anos e várias aquisições depois, o grupo Saraiva inclui a maior rede brasileira de livrarias e uma das editoras mais importantes do país, forte na área de didáticos – onde se beneficia das enormes compras governamentais – e na área de Direito. Outras áreas de atuação incluem mercado geral, infantis, negócios e outros setores Acadêmicos. No lado do varejo, a Saraiva possui 102 lojas, das quais 47 são megastores. Em 2008, o grupo adquiriu a Siciliano, a segunda maior rede de livrarias brasileira, e se consolidou como a maior livraria no país (para comparar, imagine a Barnes & Noble comprando a Borders, se esta ainda existisse).
De acordo com a Bloomberg, o capital da Saraiva é de US$ 355 milhões, e o grupo Saraiva foi uma das três editoras brasileiras a entrar na lista anual das maiores empresas editoriais do mundo compilada pelo consultor editorial austríaco, Rüdiger Wischenbart.
Todo o mercado editorial brasileiro está avaliado em US$ 6,7 bilhões, de acordo com o último Global Ranking of the Publishing Industries. Para dar uma idéia do poder da Saraiva, a empresa teve uma receita total de R$ 1,889 bilhões em 2011 – apesar de que mais de um terço de suas vendas venham de outros itens e não de livros. E este número continua crescendo: a empresa teve um crescimento de 20,7% em 2011 em relação a 2010, com ganhos (Ebitda) de R$ 172,6 milhões ou 9,1% de receita. Na primeira metade de 2012, a receita foi de R$ 889 milhões, um crescimento de 8,9% sobre o mesmo período de 2011. Os lucros também cresceram de R$ 65,6 milhões para R$ 79,29 milhões na primeira metade de 2012, com uma margem de 8,9%. As livrarias Saraiva, no entanto, não vendem apenas livros, mas também CDs, DVDs, computadores, aparelhos eletrônicos e suprimentos para escritório. O site deles, lançado em 1998, vende uma seleção ainda maior de itens, de bicicletas a geladeiras. Em 2011, R$ 810,3 milhões de vendas vieram de produtos que não eram livros, correspondendo a 56,2% da receita da rede.
Os números são ainda mais interessantes quando se compara o desempenho da rede de livrarias da Saraiva ao da editora Saraiva. Em 2011, só 23,7% da receita do grupo veio da editora, um valor de R$ 447,1 milhões. No mesmo ano, no entanto, os ganhos (Ebitda) do negócio editorial forma de R$ 96,7 milhões e corresponderam a 55% dos ganhos de todo o grupo. Isso foi possível porque a margem de lucro das livrarias Saraiva foi de apenas 5,4% no ano passado, enquanto que a margem da editora chegou a 19,3%. Também é importante lembrar que 35,9% ou R$ 517,3 milhões da receita de varejo eram provenientes do e-commerce.
A análise destes números é crucial para se entender os possíveis caminhos que uma aquisição da Saraiva pela Amazon poderia tomar. Há basicamente três opções:
1) A Amazon adquire todo o grupo SaraivaEsta é certamente a opção menos favorável, pois a Saraiva provavelmente não venderia sua unidade editorial, que é a parte mais lucrativa do negócio. A Amazon, por outro lado, provavelmente pensaria duas vezes antes de se tornar concorrente de outras editoras no Brasil antes mesmo de abrir sua própria loja local. Não faria sentido estratégico entrar no negócio editorial antes de começar sua atividade livreira em um novo mercado.
2) A Amazon adquire a divisão de vendas de livros da SaraivaEste poderia ser o cenário dos sonhos para a Saraiva, já que venderia sua divisão menos lucrativa e manteria seu negócio com melhores resultados. A editoria e a livraria Saraiva já estão separadas em duas entidades legais diferentes, facilitando o processo de uma possível venda parcial. Claro que neste caso alguma sinergia se perderia, mas nada que um bom contrato com obrigações futuras não possa superar. E as margens de lucro são tão diferentes entre os dois negócios que tais sinergias não seriam suficientes para evitar um acordo. Do lado da Amazon, no entanto, não parece fazer muito sentido comprar 102 livrarias. Seria a primeira vez que a gigante de Seattle teria lojas físicas. É difícil imaginar que a Amazon mudaria sua estratégia global só para entrar no mercado brasileiro. Sim, o Brasil é o país da vez, mas o mundo é um lugar muito grande e é possível imaginar a Amazon em mercados como Escandinávia, Europa Oriental, Rússia ou África do Sul antes de imaginá-la repensando sua raison d’être ou vendendo sua alma ao demônio das lojas físicas.
3) A Amazon adquire somente a loja online da SaraivaO site da Saraiva é responsável por 27,4% das receitas da Saraiva. Se a Amazon pudesse adquirir somente o negócio online, isto rapidamente abriria caminho no mercado e permitiria que ela superasse vários obstáculos sem precisar se envolver com a administração de lojas físicas. No entanto, isso não faria sentido para a Saraiva. O que seria de uma rede de livrarias sem um site no mundo de hoje? É difícil imaginar a Saraiva cometendo o mesmo erro que a Borders cometeu, deixando sua presença na web brasileira desaparecer ao vender, se associar ou fazer uma joint venture com uma empresa de e-commerce como a Amazon.
Se uma negociação entre os dois grupos realmente existe, faz sentido acreditar que ela acontece em torno das opções 2 ou 3. Uma decisão entre uma dessas opções favorece ou Amazon ou a Saraiva, dependendo de qual for a direção tomada, mas a inclusão ou não das 102 lojas físicas deve ser o ponto nevrálgico da negociação.

Brasileiros, cuidado
Qualquer que seja o modelo adotado, no entanto, uma possível aquisição da Saraiva pela Amazon não é razão para que as editoras brasileiras comemorem. Se a Amazon comprar a Saraiva, a Submarino afunda, provavelmente deixando o mercado de livros – isto se não sair do mercado de vez no médio prazo – já que aquisição fortaleceria mais ainda a posição já forte da Saraiva no mercado. O resultado final seria, ironicamente, menos competição, mais consolidação e um mercado mais difícil para as editoras.
Mais cedo ou mais tarde, a Amazon fará um comunicado. E será escrito com os verbos no passado. Até lá, tudo que podemos fazer é esperar pelo próximo capítulo da novela “A chegada da Amazon no Brasil”, enquanto day traders ganham algum dinheiro com toda a confusão.
(Tradução: Marcelo Barbão)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Saiu na mídia #9 A indústria gráfica, face-a-face com o futuro


Compartilhando o ótimo artigo de André Borges Lopes da Bytes & Types

Artigo: "A indústria gráfica, face-a-face com o futuro (Parte I)"*
Fonte: Bytes & Types   
Qua, 26 de Outubro de 2011 / 10:29
De acordo com Arthur C. Clarke, ideias novas atravessam três etapas:
  1. Isso não funciona;
  2. Pode ser que funcione, mas não vale a pena;
  3. Eu sempre soube que era uma excelente idéia!
 Em julho de 2001, fui convidado pela Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica para ministrar um workshop sobre "fotografia digital". Na época, essa nova tecnologia ainda engatinhava, e era vista com profunda desconfiança pelos fotógrafos e produtores gráficos. Câmeras digitais profissionais eram caríssimas e precárias: as então recém-lançadas Nikon D1 custavam mais de US$ 5.000 (só o corpo, nos EUA) e ofereciam de resolução singelos 2,6 megapixels. Mesmo aqui em São Paulo, pouquíssimos laboratórios recebiam arquivos digitais, e pediam entre 24 a 48 horas para entregar as fotos em papel.
Nesse workshop, deixei claro que a qualidade das fotos digitais da época era ainda muito inferior à das fotos convencionais, desde que adequadamente escaneadas. Apesar disso – e me arriscando no pantanoso terreno da futurologia – eu não tinha dúvidas de que a adesão dos fotógrafos ao digital no segmento profissional (em especial no fotojornalismo) seria extremamente rápida. As vantagens oferecidas pela facilidade e agilidade do manuseio dos arquivos eletrônicos, comparadas aos transtornos da revelação química e do escaneamento, davam aos fotojornalistas digitais um diferencial competitivo que compensava largamente todas as deficiências de qualidade. Além disso, era visível que as câmeras digitais estavam evoluindo em velocidade assustadora.
Por outro lado, eu não acreditava numa entrada rápida das câmeras digitais na fotografia amadora, nas fotos do dia-a-dia, tipo "viagem de férias" e "aniversário das crianças". Para o usuário amador, havia as dificuldades em transferir, selecionar e editar os arquivos num computador, gravar um CD-R para levar ao laboratório, aguardar os longos prazos de entrega. Um inferno perto da praticidade dos quiosques tipo "one-hour photo", nos quais deixávamos os rolinhos de filme 35mm e voltávamos alguns minutos depois para pegar as ampliações já prontas para serem colocadas nos tradicionais albuns de fotos – os quais seriam depois mostrados e compartilhados entre amigos e parentes.
Se minha previsão quanto ao fotojornalismo se revelou acertada, a segunda foi um fiasco. Cinco anos depois do workshop, câmeras de filme já eram franca minoria nas festinhas de crianças e, de lá para cá, simplesmente desapareceram. O surgimento dos sites de relacionamento social na internet – Orkut, Facebook e congêneres – e facilidade de visualizar fotos nas telinhas LCD dos celulares reduziram a uma fração o mercado da ampliação fotográfica em papel. Hoje, milhões de "albuns virtuais" de fotografias são compartilhados diariamente na rede mundial. Na última feira Photo Image Brazil – realizada no mês de agosto em São Paulo – já não se encontrava uma única câmera analógica nos estandes dos grandes fabricantes.
Revoluções expressas
Descontado o meu erro de previsão, posso dizer que essa revolução ultra-rápida da fotografia digital não chegou a ser exatamente uma surpresa para mim. Na época dessa palestra em 2001 eu já havia vivenciado pelo menos três eventos semelhantes. O primeiro havia sido a substituição das filmadoras domésticas Super-8 pela fitas de vídeo VHS, no início dos anos 1980 – em que pese o fato de que quase todos os profissionais de imagem reclamassem da precaria qualidade de gravação dos primeiros vídeo-cassetes. A segunda, alguns anos depois, havia sido a derrocada dos grandes e charmosos LPs de vinil pelas insonsas caixinhas de CD, mesmo enfrentado forte oposição dos amantes do design gráfico e dos especialistas em música, que sempre reclamaram do "som quadrado" dos arquivos digitais de áudio.
Na terceira revolução eu não havia sido apenas testemunha: fui parceiro e miltante. Trata-se da  substituição na indústria gráfica dos sistemas tradicionais de pré-impressão pelo "Desktop Publishing" (DTP). O conceito de DTP (Editoração Eletrônica, em português) havia surgido em 1985 – quando foi possível reunir a interface gráfica dos Macintosh, a linguagem de impressão PostScript, as fontes tipográficas digitais, as impressoras de imagem a laser e os primeiros aplicativos de layout de página (mais detalhes no box abaixo). No final de 1995, pouco mais de dez anos após esses lançamentos pioneiros, pude desenvolver com alguns entusiastas do DTP uma "apresentação de conceito" em parceria pelo estúdio Comdesenho (do qual eu era sócio), pelo birô Paper Express e pela gráfica Camargo Soares:  um bonito calendário de parede da Chapada Diamantina totalmente produzido em sistemas de editoração eletrônica, do escaneamento das imagens aos fotolitos limpos.
Essa revolução do DTP só agora está sendo concluída, no momento em que consolida-se a hegemonia dos sistemas Computer-to-Plate (gravação direta dos arquivos nas matrizes de impressão, sem uso de fotolito) e a completa transferência da pré-impressão para dentro das gráficas. Mas em 1995 já estava evidente que não precisávamos mais das grandes empresas de fotocomposição, paste-up, escaneamento, fotolito e provas – que por décadas haviam dominado o mercado de "prepress" em todo o mundo.
Vistos em retrospecto, esses primeiros dez anos do DTP passaram como num sopro. Mas não faltaram naquela época as legiões de céticos que duvidavam que aqueles "computadorzinhos ridículos de US$ 10 mil" iriam substituir os milhões de dólares então investidos nas grandes estações de fotocomposição, escaneamento e tratamento de imagem. Ou que iriam desempregar os milhares de profissionais de paste-up, retoque e montagem que trabalhavam nas empresas do setor. O tsunami do DTP pegou todos eles no contrapé. Tradicionais fabricantes de equipamentos como Mergenthaler, Monotype e Compugraphic – que haviam sobrevivido à substituição dos linotipos pela composição a frio duas décadas antes – não resistiram à nova mudança: desapareceram ou tornaram-se irrelevantes, para a sorte da Linotype, ITC, Aldus, Adobe, Quark, Corel e muitos outros que investiram nas novas tecnologias.
O beijo do tempo
Em resumo, na virada do milênio em 2001 já não faltavam alertas a nos preparar para o que ainda vinha pela frente. Mas o fato é que muita gente preferira não ouví-los. Há cerca de dez anos, lembro-me de escutar da boca de um competente jornalista – então trabalhando numa das maiores revistas de informática do Brasil – que a distribuição de música via arquivos digitais estava condenada ao insucesso: havia sido estigmatizada como "coisa de gente pobre", relegada aos office-boys e seus toscos aparelhos MP3 Players. Um ano depois dessa conversa, Steve Jobs nos apresentou seus iPods e iTunes, revolucionando não apenas a maneira que nós ouvimos música, mas também todo um mercado então dominado pelas grandes gravadoras.
O curioso é que eu passei boa parte da minha infância lendo Júlio Verne e invejando as pessoas que viveram nos final do século XIX, quando novas idéias e invenções surgiam a cada dia para revolucionar o mundo. Descobri, já "coroa", que não tinha motivos para inveja: nossa geração vive tempos infinitamente mais revolucionários e a cada dia somos apresentados a novos produtos, idéias e conceitos. Entretanto, apenas uma fração dessas novidades é tocada pelo "beijo do tempo": essa capacidade mágica e imponderável de mudar o mundo. Ou, como no slogan atribuido a Jobs, "to make a dent in the universe".
Eu me recordo do pressentimento de estar diante desse tipo de coisa em 1987. Eu já iniciava meu trabalho na área editorial e gráfica quando um amigo da faculdade me mostrou pela primeira vez um Mac IIx diagramando páginas numa versão pioneira do software QuarkXPress. Lembro-me de ver o aplicativofuncionando e pensar "Danou-se, o mundo vai desbar à nossa volta". Senti o mesmo pela segunda vez em 1998, quando outro amigo me pediu para postar na sua "página pessoal" na internet (nem se falava ainda em "blog") um texto sobre o uso de maconha que eu havia escrito para uma revista de universitários: poucos dias depois, um marinheiro porto-riquenho servindo em Guam, no Oceano Pacífico, entrou em contato comigo perguntando se eu podia providenciar uma versão em inglês para republicação.
A sensação também estava comigo em 1994, quando vi em ação uma impressora digital E-Print 1000, primeira geração das hoje consagradas HP Indigo. E repetiu-se na feira Drupa de 2008, ao sermos apresentados às novas inkjet industriais coloridas de alta produtividade, rotativas que produzem impressos digitais de baixo custo em uma velocidade assustadora. Para mim, está evidente que o ciclo das matrizes de tipos móveis, inaugurado por Gutemberg e seus contemporâneos no século XV, começa a se esgotar rapidamente – dando lugar a uma nova forma de pensar a transmissão de informações que ainda usa papel pintado como suporte.
Estudando com o inimigo
Em agosto desse ano, topei novamente com essa sensação de assombro: um amigo de Fortaleza postou no Facebook a foto de um outdoor onde se lia: Tablet substitui livros. Trata-se de propaganda um colégio cearense anunciando o projeto "Sistema Ari de Sá de Ensino Digital": a partir de 2012, os alunos do Ensino Médio poderão ter os livros didáticos e conteúdos pedagógicos, produzidos pelo SAS oferecidos em dispositivos digitais de leitura, os famosos "tablets" (no caso, iPads da Apple). Sobre o assunto, há também um vídeo promocional no You Tube: http://youtu.be/v2xeHMWHy0k.
Nesse caso, o assombro não se deveu ao inesperado: todos sabemos que em países do primeiro mundo esse processo já está em andamento. Escolas particulares de elite aqui em São Paulo também começam a incluir alguns livros digitais no cardápio dos seus alunos. O assombro se dá pela absurda proximidade dessa idéia de "substituição". Não é mais na distante Coréia do Sul, é logo ali em Fortaleza; não é daqui a dez anos, é dentro de poucos meses. E o projeto do Ari de Sá traz um conceito importante: não são "livros digitais", trata-se de um "sistema de ensino" que foi convertido para iPad. "Sistema de ensino digital": anote esse conceito, ele será importante. Falarei mais dele num próximo artigo.
Para completar os agouros de agosto, no último dia 22 a RISI publicou um estudo intitulado "O impacto da mídia em tablets nos mercados de papéis editoriais" que pode ser visualizado nesse link, avaliando qual o efeito do crescimento exponencial da venda desses dispositivos de leitura no mercado papeleiro. Num horizonte próximo, o estudo conclui que "ainda que os tablets possam causar um efeito positivo nos hábitos de leitura, estima-se que o uso de papel em revistas irá cair pelo menos 20% nos próximos 5 anos".
Não é preciso ser do ramo para concluir que impacto igual ou maior recairá sobre o segmento da indústria gráfica dedicado a atender esse mercado. Estamos falando de nada menos que algumas dezenas de grandes empresas, com milhões de dólares investidos em sofisticadas impressoras offset planas e rotativas, prestes a enfrentar os fantasmas de uma crescente capacidade ociosa e de uma concorrência predatória brutal pelo que restar do mercado.
Para enxergar as estrelas
"O livro em papel nunca vai acabar""a informação impressa transmite mais confiabilidade""os arquivos digitais são voláteis, o que está no papel é perene" – são algumas colocações que nos acostumamos a ouvir hoje da boca dos que se recusam a enxergar a tempestade à sua frente. Todos esses argumentos são verdadeiros, mas não se esqueçam que também era verdade que o Super 8 tinha mais qualidade que os antigos VHS, que o som de um bom LP de vinil era melhor que o dos CDs, que as ligações de celular tem menos qualidade e custam muito mais caro que as de um telefone fixo. Por acaso alguma dessas verdades teve o poder de segurar o tsunami das mudanças?
Para mim é evidente que o livro impresso não vai acabar, ao menos não dentro do nosso horizonte de previsão. Também me parece óbvio que, por décadas, haverá leitores preferindo receber seus jornais e revistas em papel. Da mesma forma, dificilmente a educação dos seres humanos poderá prescindir tão cedo dos livros e demais publicações impressas. Mas é preciso entender que não é disso que estamos falando.
Sejamos conservadores e vamos admitir que, num prazo de cinco anos, algo como 30% do mercado de livros comerciais, 20% do mercado das grandes revistas e 10% do mercado de livros didáticos migre para os leitores digitais. Dá para compreender o tamanho da confusão na qual a indústria gráfica estará metida nessa década que se inicia? Adotar a tática de avestruz e fazer de conta que nada vai acontecer é, sem dúvida, a pior alternativa. Desde a primeira revolução industrial, a História está cheia de exemplos de empresas grandes e poderosas que desapareceram em poucas décadas por não conseguirem prever e se adaptar aos novos tempos.
Por outro lado, também não é caso para pânico e desespero. Recorro a uma figura de linguagem do último (e na minha opinião o melhor) discurso do reverendo Martin Luther King, o célebre I've Been to the Mountaintop:
"Somente quando está muito escuro é que você consegue ver as estrelas"
Mas isso discutiremos no nosso próximo texto.
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DESKTOP PUBLISHING, UMA CRIAÇÃO COLETIVA
Ao contrário do que supõe a revista Veja (que na sua edição nº 2238 atribui unicamente a Steve Jobs a gênese do conceito de Desktop Publishing), poucas criações tão revolucionárias no mundo da tecnologia foram mais coletivas que a do DTP. Sem entrar no mérito da ordem de importância de cada um, podemos com facilidade montar uma grande lista de  “pais” dos produtos que foram os marcos iniciais da editoração eletrônica.
• Steve Jobs da Apple ao colocar num computador pessoal relativamente barato (um Macintosh custava em 1985 cerca de US$ 2.500, pouco mais de US$ 5.200 em dinheiro de hoje) uma interface gráfica de usuário (Graphic User Interface) que não apenas usava recursos sofisticados de tipologia como permitia a construção de documentos com o conceito de WYSIWYG (What You See Is What You Get - O que você vê é o que você obtém).
• John Warnock e Charles Geschke, fundadores da Adobe, ao inventar e desenvolver a linguagem PostScript – que permitia aos computadores enviar às impressoras arquivos relativamente pequenos, contendo código com as instruções para que fossem construídos nos interpretadores locais (que chamamos atualmente de RIPs, mas já foram conhecidos como "placas PostScript") os gigantescos arquivos rasterizados de alta resolução das páginas gráficas. Posteriormente, a Adobe lançaria também três aplicativos fundamentais do DTP: o Illustrator, o Photoshop e – bem mais tarde – o Acrobat. (1984-1989)
• Jobs, novamente, ao lançar em 1985 a Apple Laser Writer, uma impressora laser P&B de pequeno porte que reunia um engine de impressão da Canon com uma placa processadora de PostScript. Não foi a primeira laser de pequeno porte (essa primazia cabe à HP) mas foi a primeira impressora de baixo custo dedicada à impressão de páginas gráficas. Embora fosse bem mais cara do que um Mac (ela custava na época US$ 7.000) ainda era 10 vezes mais barata que as laser gráficas da Xerox e da IBM.
• Aaron Burns, co-fundador da ITC, que lançou em 1985 as primeiras famílias de fontes tipográficas vetoriais em linguagem PostScript.
• Paul Brainerd, fundador da Aldus, que ao lançar em 1985 o PageMaker completou o quebra-cabeça do DTP com a peça que faltava: um aplicativo de layout de páginas baseado na interface gráfica no Mac e na linguagem PostScript. A Aldus ainda lançaria o FreeHand, de ilustração, e – já incorporada à Adobe – forneceu o núcleo do que viria a ser o InDesign.
• Jonathan Seybold, um respeitado técnico e consultor especialista em artes gráficas e pré-impressão, que enxergou o potencial dessas novas tecnologias em desenvolvimento e teve um importante papel ao apresentar essas pessoas umas às outras e orientá-los para que atendessem aos requisitos do setor gráfico. (1983-1987)
• Wolfgang Kummer, da Linotype, tradicional fabricante de equipamentos de pré-impressão, que decidiu incorporar o PostScript às suas fotocomponedoras a laser, desenvolvendo as primeiras imagesetters (Linotronic 100, 300 e 500) e abrindo para o DTP a opção das saídas em alta resolução. Mais tarde, a Linotype também se tornaria importante desenvolvedora de fontes tipográficas PostScript e, associada a Hell, produziria os primeiros scanners de cilindro de alta qualidade compatíveis com a tecnologia do DTP. (1983-1986)
• Tim Gill, fundador da Quark, que lançou em 1987 o então revolucionário QuarkXPress, elevando a paginação em DTP a um nível de profissionalismo até então inédito.
• Por fim, podemos incluir indiretamente nessa lista o Douglas Engelbart, que inventou o mouse na década de 60, embora somente em 1981 ele começasse a ser utilizado sem muito entusiasmo pela Xerox (que o incluiu como periférico de seu computador Star). Poucos anos depois, a Apple solicitou à Xerox as especificações do dispositivo para que pudesse incluir um mouse junto com o seu Macintosh para facilitar enormemente o manuseio da interface gráfica.

De como chegamos a este estado de coisas

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