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terça-feira, 28 de abril de 2020

Boi de Piranha 2: o livro


Warren Buffett vendeu ações do Wal-Mart.
De 56 milhões de ações que tinha no fim de 2015, passou para apenas 1 milhão e 400 mil em fevereiro de 2017.
Mas o que isto tem a ver com o mercado do livro?
Tudo!

A estratégia de Buffett segue a realidade nos USA. No primeiro trimestre de 2017 foram fechadas 2.880 lojas físicas, contra 1.153 no mesmo período em 2016. A causa é o comércio online ou, se quiserem um nome, a Amazon, que em 2017 ficou com 44% das vendas do e-commerce segundo pesquisa da One Click Retail (fonte: Portal NOVAREJO).

No Brasil, em 2016, foram fechadas quase 109 mil lojas físicas, segundo a CNC – Confederação Nacional do Comércio.
E varejo, o que é?
Varejo é a atividade econômica da venda de um bem ou um serviço para o consumidor final, ou seja, uma transação entre um CNPJ e um CPF.

As vendas pelo e-commerce crescem a cada ano e, no Brasil, não é diferente. Pelos dados da E-bit, o faturamento foi de R$ 44,4 bilhões em 2016 e de R$ 47,7 bilhões em 2017. Desse faturamento o livro representou apenas 3,2% em 2016, ficando na 8ª posição.

Dados referentes a 2016:



Em 2017, em faturamento, o livro nem aparece entre os 10 primeiros, representando, portanto, menos de 2,2%.

Dados referentes a 2017:



Mas, se é tão pouco, por que dos 5 maiores varejistas do e-commerce, 4 vendem livros (não considerei a Privalia por somente fazer ações pontuais), e nenhum deles é um e-commerce que também tem livraria física?



É sempre bom lembrar que o primeiro produto a ser comercializado no e-commerce foi o livro, mais precisamente em 03/04/1995 na Amazon. O primeiro exemplar foi “Fluid Concepts and Creative Analogies: computer models of the fundamental mechanisms ot thought”, de Douglas Hofstadter. Um livro da categoria CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais) sobre inteligência artificial e aprendizado de máquina. Profético, não?

Durante muitos anos, até 2009, o livro foi a categoria mais vendida em quantidade de pedidos no e-commerce no Brasil. Com o crescimento e amadurecimento deste mercado, ano após ano, vem sendo ultrapassado por outras categorias, mas ainda está entre as 10 mais.

Dados referentes a 2016:



Dados referentes a 2017:


 O ponto fundamental é que livro propicia conhecimento, certo? Mas, no e-commerce, o conhecimento buscado com avidez é de outro tipo. É conhecimento sobre o e-consumidor e, não exatamente, o conteúdo que está nos livros. Mas, como o livro ajuda nisso? Vamos lá...

Em 2013, depois de 32 anos trabalhando (em livraria e editoras) com livros de Humanas, Literatura e Literatura infantil e Infanto-Juvenil, entrei no segmento de livros CTP. Coincidiu com o lançamento de uma nova edição do principal título da editora: Sobotta-Atlas de Anatomia Humana em 3 vols. Preço de capa atual: R$ 883,00. E o que acontecia no e-commerce? Um dos principais players vendia esse livro com desconto maior do que o desconto que recebia da editora. Portanto, vendia com prejuízo! E isso, para mim, não fazia sentido.

Depois dos três primeiros meses de adaptação ao novo segmento, aprende-se a fazer algumas perguntas. Boas perguntas podem ser esclarecedoras.
Pergunta: Quem compra o livro Sobotta-Atlas de Anatomia Humana?
Resposta: Estudante de Medicina de 1º período, principalmente.
Se a pergunta fosse sobre quem compra o livro do Padre Marcelo Rossi, a resposta seria: milhões de pessoas, inclusive, possivelmente, um estudante de Medicina de 1° período.

Acontece que E-commerce precisa de segmentação máxima sobre quem compra. Por quê? Para poder sugerir, com grande grau de assertividade, produtos que possam interessar ao cliente. Sugestões equivocadas podem fazer com que o cliente clique no opt-out do e-mail marketing, por exemplo. E isso sai muito caro. Conquistar um cliente novo custa 10 vezes mais do que manter um.

E como as empresas que operam no e-commerce fazem essa segmentação?
Inicialmente pelo cadastro básico: nome, endereço completo com cidade e estado, além de CPF e e-mail, que são dados necessários para emissão de uma nota fiscal. Isso é comum a qualquer e-commerce. Além disso, dependendo da visão de negócio e da capacidade de processamento e análise de dados da empresa, ela pode pedir sua data de nascimento, seu gênero etc. Depois pelas compras do cliente, é claro, mas isso pode demorar meses ou anos. Mas tem uma informação que nenhuma empresa, por maior que seja, pede. Sabe qual é? Sua faixa de renda. Guarde isso.

Voltando ao livro Sobotta-Atlas de Anatomia Humana, a partir de uma única compra é possível deduzir, com alto grau de assertividade (o que não é 100%, é claro), o seguinte sobre o cliente:
1-tem alto poder aquisitivo. Salário mínimo é R$ 954,00; preço do livro R$ 883,00;
2-cliente tem entre 18 e 21 anos;
3-mora com os pais;
4-não trabalha, pois curso de Medicina é em horário integral;
5-tem até 10 anos de estudo pela frente: 6 do curso regular e até 4 de Residência Médica. São 10 anos comprando livros. Aluno de Medicina, via de regra, não abandona o curso;
6-se comprou um Sobotta, será potencial comprador do Moore-Anatomia Orientada para a Clínica, do Junqueira-Histologia Básica etc., etc.; isto é, permite indicar e saber a próxima compra;
7-ao se tornar um profissional vai continuar comprando livros, agora na sua área de especialização;
8-neste momento não é comprador de fogão, geladeira, eletrodomésticos, mesmo sendo produtos de ticket elevado. São os pais que compram, pois mora com eles;
9-mas já é potencial comprador do novo iPhone, do novo Moto, do novo Galaxy e seus acessórios;
10-é potencial comprador do novo notebook;
11-é potencial comprador de pacotes de viagens; etc.

Imagine-se que esse e-commerce tenha perdido R$ 88,00 com essa venda do Sobotta (10% do preço de capa). É um custo muito baixo para a quantidade de conhecimento que adquiriu sobre o cliente (e isso é muito mais do que simples informação), com uma única venda. E quanto esse cliente pode trazer de faturamento ao longo de um ano, ao longo de 10 anos?

Esse tipo de cliente é potencial consumidor de R$ 1.000,00 por mês, em média, no e-commerce. São R$ 12.000,00 no ano. Se esse e-commerce vender 1.000 exs do Sobotta por ano, pode trazer um faturamento de R$ 12 milhões por ano.
Quantas editoras faturam R$ 12 milhões por ano? Menos de uma centena.
Quantas livrarias faturam R$ 12 milhões por ano? Algumas dezenas.
Em 10 anos, só os compradores do Sobotta em um único ano, podem trazer um faturamento de R$ 120 milhões!

Portanto, vender livro, ficou estratégico para o varejo em geral. Não é mais somente uma questão de editora e livraria, de mercado editorial. O varejo vai cada vez mais para o canal do e-commerce e este será dominado pelos grandes Marketplaces.

Números comprobatórios?
Em 2016, dos 50 maiores grupos varejistas, 31 deles ou 62%, têm operação de e-commerce. E dos 10 maiores, 70% têm Marketplace. Se olharmos apenas para os 7 primeiros, 6 deles ou 86% têm Marketplace.

E o que é Marketplace? Basicamente uma plataforma de e-commerce onde vários varejistas podem vender, mediante o pagamento de uma comissão para o Marketplace. Portanto, não é necessário ter um site próprio para vender no e-commerce.

O primeiro Marketplace foi lançado em 1995, uma start-up do Vale do Silício fundada por Pierre Omidyar, e seu nome era Auction Web. Já ouviu esse nome antes? Não? E eBay? Então, são a mesma “pessoa”. A partir de 1997 o nome eBay passa a ser usado e está aí até hoje, como um dos gigantes do e-commerce. E este passou a ser o modelo de negócio perfeito, pois recebe uma comissão por cada venda, sem ter os custos de estoque e envio.

A Amazon inicialmente até seguiu o modelo do eBay, de venda por leilão, e lançou o Amazon Auction em 1999, como uma aba dentro do site da Amazon. Não deu certo, pois o eBay já tinha estabelecido o tráfego. Assim, aprendendo também com os erros, a Amazon lançou no ano 2000 seu Marketplace com a venda direta de produtos por diferentes varejistas. Começou também com o livro, desta vez o usado. Todas as ofertas de venda de um produto apareciam na mesma página desse produto da própria Amazon. Este formato da venda direta com preço, e não o leilão, prevaleceu e também já é o principal no eBay, há muito tempo.

Estava assim lançada a base que pode permitir que se concretize o discurso de Jeff Bezos em Março de 1999 na Association of American Publishers: “Não nos vemos como uma livraria nem como um loja de música. Queremos ser o lugar onde uma pessoa encontra e descobre tudo que quer comprar.” Citado por Brad Stone in A Loja de Tudo.

No Brasil o primeiro Marketplace foi o Mercado Livre, fundado em Agosto de 1999 na Argentina, e que aqui começou as operações em Outubro desse mesmo ano.

Voltando para o livro, das 70 maiores empresas de e-commerce, as 3 maiores são Marketplaces que também vendem livros. E, destas 70, 10 delas são Marketplaces. Com a Saraiva são 4 ou 40% dos Marketplaces que vendem livros.


Nos próximos anos a disputa vai ser acirrada no e-commerce e entre os Marketplaces. Nos que vendem livros, a disputa será entre (em ordem alfabética): Amazon; B2W (Americanas, Shoptime, Submarino); Buscapé; Cultura (Fnac, Estante Virtual); Magazine Luiza; Mercado Livre; Ricardo Eletro; Saraiva; Via Varejo (Casas Bahia, Extra, Ponto Frio); WalmartDestes 10 concorrentes, somente 3 ainda têm o livro como principal produto em faturamento: Amazon, Cultura e Saraiva.

Parece um cenário assustador, não? A concentração vai aumentar ainda mais. No segmento de livros CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais) as livrarias físicas vão perder espaço muito rapidamente, a cada ano. Hoje, entre 50% e 60% do que é vendido para um cliente CPF já é via algum e-commerce.

Como vai ser para o segmento de livros de Interesse Geral, como Literatura? Acho que ainda existe um espaço maior para as livrarias físicas neste caso. Mas, certamente, não será para as que apostam as fichas em best-sellers. Esse tipo de livro será comprado no e-commerce. Qual será o modelo sobrevivente? Não sei, mas deixo uma pista: estudem a Blooks Livraria.

Para as editoras a concentração também não é boa, é claro. Entretanto, passou a existir uma variável interessante, que pode vir a evitar que fiquem reféns, se conseguirem pensar e agir mais a longo prazo, e não no imediatismo, como é usualmente feito.

Como o livro é “boi de piranha” para os grandes varejistas já mencionados, será muito arriscado para qualquer um deles, que compra direto de editora, exigir mais vantagens comerciais (desconto, prazo, devolução, frete, verba de marketing etc) e, caso não consigam, fazer alguma espécie de retaliação e não disponibilizar os best-sellers, por exemplo. E sabe por quê? Por dois motivos principais. Um: porque no e-commerce tráfego para o site é condição básica para faturamento. Livro proporciona isso, como já demonstrado. E dois: porque o concorrente de um grande varejista não é uma livraria e, sim, os outros gigantes do varejo, seus concorrentes diretos, que também vendem de tudo, inclusive livros.

Mais uma prova? É só lembrar que o faturamento de um único grande varejista, a B2W em 2016, foi de R$ 10 bilhões e, o faturamento de todo o mercado do livro (exceto governo), foi de R$ 4 bilhões, segundo a pesquisa FIPE. Portanto, fica alguma dúvida de que o livro não é o produto, não é o objetivo direto para o faturamento dos grandes varejistas?

Por outro lado, terão as editoras nervos de aço e/ou caixa para resistir e sobreviver neste momento de definição de cotas de mercado entre os gigantes? Ah, ainda falta chegar o chinês, o Alibaba Group...


Publicado originalmente no Publishnews em 24/04/2018

terça-feira, 2 de julho de 2013

Saiu na mídia # 16: O mercado editorial na Alemanha

Compartilhando. Publicado no Publishnews

O mercado editorial na Alemanha

01/07/2013
 
Por Holger Heimann

Só as farmácias conseguem ser mais rápidas, porque providenciam remédios em apenas algumas horas. Mas, na Alemanha, quem quer fortalecer o espírito e a imaginação e não encontra o que procura numa livraria espera no máximo dois dias. Graças à logística eficiente dos grandes livreiros como Koch, Neff e Volckman (KNV) e Libri, que possuem em seus estoques centrais a maioria dos livros atuais e mais procurados, as livrarias são abastecidas da noite para o dia. Mesmo nos tempos da nova mídia, ler livros está no topo das atividades de lazer preferidas dos alemães. Além disso, a rede de livrarias na Alemanha mantém um vínculo muito estreito, difícil de se ver em outros países. Isto se dá, entre outros motivos, graças à fixação dos preços dos livros, que determina o mesmo preço para todos os locais de venda. Há 3.500 livrarias no país para uma população de 82 milhões de habitantes. Ainda hoje toda cidadezinha possui a sua livraria. Muitas vezes, além de ser um lugar onde se vendem livros, ela é o centro cultural da cidade, lugar para sarau de poetas e outras atividades literárias. Não foi à toa que o escritor Hans Magnus Enzensberger intitulou estes locais de “postos de abastecimento do espírito”.

No entanto esta imagem está mudando. Cada vez mais as pequenas livrarias se rendem, por não gerarem mais lucro, sem falar na renda irrisória de seus administradores.  Primeiro, foi a expansão das grandes redes, principalmente da Thalia e Hugendubel, e suas estratégias repressoras. Agora é a vez da ascensão do comércio livreiro virtual, com a Amazon e o aumento das vendas de e-books, do qual as lojas físicas praticamente não aproveitam, já que são negociadas diretamente com plataformas virtuais. Em 2011, pela primeira vez o resultado no comércio livreiro físico representou menos de 50% do resultado total do setor de € 9,6 bilhões. O volume de € 4,7 bilhões corresponde a uma queda de 3% em relação ao ano anterior. E algumas previsões são bastante sombrias: até 2015 o resultado no comércio livreiro físico deve cair cerca de 16%, opinam os especialistas. Quase um a cada cinco livreiros acreditam que a queda chegará a 20%, devido à importância cada vez maior do livro eletrônico. Nas vendas do Natal passado, o e-reader, principalmente o Kindle da Amazon, foi um dos presentes preferidos.
 
A Amazon, empresa ativa no mercado alemão desde 1998, também tem a agradecer o sucesso de seus leitores digitais o fato dela estar crescendo de maneira vertiginosa e constante. O resultado da Amazon Alemanha no setor livreiro foi de € 1,6 bilhões (de um resultado total de € 6,5 bilhões). Isto equivale a 74% de todo o comércio livreiro eletrônico, que representa aproximadamente um quarto do total do comércio livreiro. Com este avanço, a Amazon deixou para trás as maiores redes de livrarias, que após anos de expansão, tiveram que ir fechando cada vez mais filiais, por causa de perdas drásticas na receita.
 
Thalia, com um resultado de € 984 milhões, ficou abaixo da marca de € 1 bilhão. Esta rede do comércio livreiro pertence ao grupo Douglas, cujo setor mais rentável é o da perfumaria. Na posição abaixo, ocupando o terceiro lugar e mantendo-se bem, temos a DeutschBuchHandelsGmbH (DBH), uma fusão entre os atacadistas de livros Hugendubel e Weltbild, com receita no montante de € 695 milhões.
 
Com promoções permutáveis em espaços de venda enormes, as grandes redes foram se dirigindo para um beco sem saída. A crítica à política dos gigantes tornou-se cada vez mais veemente. “Estou certa que o aumento de filiais, que tanto a Thalia quanto a Hugendubel impulsionaram, levou a um nivelamento do comércio livreiro individual, deixando os clientes de hoje entediados. É compreensível que eles prefiram se afastar dos espaços padronizados, pois tem mais chance de encontrar produtos interessantes pela Internet”, diz Julia Claren. A gerente da Dussmann, Shopping da Cultura, mostra que é possível fazer diferente. O templo da cultura, com uma gama imensa de livros, CDs e DVDs espalhados num prédio de 5 andares no centro de Berlim, é prova viva que grandes espaços também podem ser rentáveis. No entanto o conceito da Dussmann se distancia daquele das redes livreiras, focadas em livros bestsellers; o seu se assemelha mais ao das livrarias administradas por proprietários, que investem em um atendimento competente e em um sortimento selecionado e de qualidade. “Estas são nossas pequenas irmãs”, afirma Claren.
 
Em Berlim estas são tão numerosas como em nenhum outro lugar; a densidade do comércio livreiro na cidade também é a maior do país. O que não surpreende, para uma cidade de 3,5 milhões de habitantes, a mais populosa da Alemanha. Por outro lado, aqui há um outro crescimento notável: ao contrário da tendência geral, o número de livrarias na capital aumenta: são mais de 300 atualmente. Ao empreendedor corajoso, o momento atual parece favorável para concretizar um negócio no setor livreiro, que não seja meramente voltado para as massas, mas que dê ênfase no especial, acima do trivial.
 
Provavelmente a iniciativa mais ambiciosa das recém-inauguradas é a livraria Ocelot, na capital, cujo proprietário Frithjof Klepp quer unir os mundos Online e Offline. Pelo wi-fi seus clientes não só podem como devem baixar os e-books. Mas por ora eles continuam indo às lojas, principalmente por causa da seleção primorosa de belos livros, para os quais Klepp reserva sempre um lugar de honra. “Estou certo que, mesmo nos tempos atuais, as pessoas querem ter contato com outras pessoas. Quer dizer que o cliente vai lá, onde ele se sente bem, onde espera encontrar um atendimento competente”, diz Klepp com confiança.
 
Deve ter sido graças ao otimismo e a dedicação destes empreendedores que Gottfried Honnefelder, Diretor da Associação da Bolsa do Comércio Livreiro Alemão, declarou: “É possível que agora seja a hora e vez do comércio livreiro independente”. Se e como o comércio livreiro tradicional poderá usufruir dos negócios com o e-book ainda é uma icógnita, mesmo contando com livreiros inovadores como Klepp. As previsões divergem tanto quanto o temperamento dos livreiros. Talvez Julia Claren tenha razão, ao afirmar que “sentimos uma certa ansiedade no momento, devido às transformações fundamentais. Todos nós do setor só temos a ganhar, reconhecendo que as empresas bem-sucedidas sempre se orientaram e ficaram bem atentas às necessidades dos clientes, para depois agir de maneira criativa. Quando a pressão aumenta, aparecem força e energia e se olha para frente.“
 
Holger Heimann trabalhou muitos anos como redator do Börsenblatt, a revista mais importante do setor editorial alemão. Hoje é jornalista independente em Berlim e trabalha, entre outros, para a Welt, a Rádio Alemanha e ainda para a Börsenblatt.
 
Texto traduzido por Christina Wolfensberger


O negócio do livro na Alemanha vai bem – e é muito produtivo: cerca de 80 mil novos títulos são publicados todo ano, e as vendas geram um faturamento anual de 9,52 bilhões de euros. Mas quem são os atores no cenário do livro e do mercado editorial na Alemanha? Quais regras específicas se aplicam ao mercado alemão – do preço do livro ao Börsenverein? Tendo em vista a participação da Alemanha como país convidado de honra na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e o Brasil como país convidado de honra na Feira do Livro de Frankfurt, produzimos uma série de artigos sobre o mercado editorial, e o livro em geral, na Alemanha. Apresentaremos um panorama geral do mercado, falaremos sobre agências literárias na Alemanha, sobre literatura para crianças, sobre o livro digital, as principais empresas do mercado, e muitos outros assuntos. Agradecemos ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha por seu apoio na produção desta série. Esperamos que gostem!
 
Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Saiu na mídia # 15: O futuro não é o fim, ainda

Compartilho texto publicado no jornal Valor Econômico

 


O futuro não é o fim, ainda

Por João Luiz Rosa | De São Paulo
Claudio Belli/Valor
Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet”
Há dois anos, parecia que o livro impresso começava a tomar o caminho da extinção. Em abril de 2011, a Amazon anunciou que a venda de livros eletrônicos superara pela primeira vez a de papel - 105 volumes digitais para cada 100 tradicionais - e a Borders, uma das maiores cadeias de livrarias dos Estados Unidos, baixou as portas, em setembro, apenas sete meses depois de entrar com um pedido de recuperação judicial. Das 511 lojas que tinha um ano antes restavam 399.
Agora, os sinais são diferentes. As vendas dos aparelhos eletrônicos para leitura de livros, ou e-readers, que pareciam os substitutos naturais do livro em papel, vão cair dos 5,8 milhões de unidades projetadas para este ano para 2,3 milhões em 2017, prevê a consultoria Forrester. O interesse do público parece tão morno que nesta semana a Barnes & Noble, outra gigante americana das livrarias, anunciou que vai abandonar parte da produção do seu e-reader, o Nook, depois de a receita com o negócio cair 34% no trimestre, duplicando as perdas na área.
Ainda mais significativo é que as próprias vendas dos livros digitais não seguiram o ritmo espetacular que se esperava a princípio. Em uma década, entre 2002 e 2012, os e-books saíram de invisíveis 0,05% da receita do mercado editorial americano, o mais avançado na área digital, para 20% das vendas. Em outros países, permanece longe desse patamar - 10% na Espanha, 3% na Itália, pouco mais de 2,5% no Brasil.
Contra as probabilidades, os números parecem indicar que o livro é mais resistente ao tsunami digital que a música. Segundo a IFPI, principal organização mundial da indústria fonográfica, o segmento digital representou 37% da receita total do setor no ano passado, mas os números só levam em consideração as vendas legais. O que é obtido por meio da pirataria fica fora do levantamento, o que distorce o cenário. Foram as vendas ilegais, afinal, que destroçaram as regras estabelecidas no setor, cujos personagens ainda estão em busca de novos formatos comerciais viáveis. No mercado editorial, talvez por não ter ocorrido o mesmo efeito devastador, fica a impressão de que a maré digital está fraca, mas muitos especialistas acham que a grande onda ainda está por vir.
"Há 500 anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, não se via uma revolução da mesma ordem e magnitude na indústria da informação", disse o professor Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na abertura do IV Congresso do Livro Digital, ocorrido neste mês em São Paulo. Meira, que também é cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede no Recife, contou que algum tempo atrás um executivo perguntou se as mudanças viriam antes de sua aposentadoria, daqui a dez anos. "Dez anos? Ih, pode ter certeza de que você vai enfrentar turbulência", respondeu o professor.
Tempo, portanto, ocupa um papel especial na digitalização do livro. "Eu não diria que o ritmo [de vendas dos livros digitais] está lento ou abaixo das expectativas", afirma Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e sócia-diretora da Girassol Brasil Edições. Embora o assunto esteja em discussão há anos, as vendas de e-books no país só começaram para valer no fim do ano passado, com uma resposta positiva tanto da indústria quanto do consumidor, avalia Karine. Pelas contas da CBL, o número de títulos em formato digital triplicou no Brasil em um ano, passando de 5 mil em 2011 para 15 mil no ano passado.
A expectativa é que a redução dos preços dos tablets dê um forte impulso aos livros digitais. Enquanto os e-readers, voltados basicamente para leitura, sofrem uma redução prematura das vendas, os tablets - que também permitem navegar na internet, ver filmes, ouvir música etc. - ficam mais baratos e ganham consumidores de mais classes sociais. A previsão da consultoria IDC é que as vendas mundiais de tablets vão chegar a 229,3 milhões de unidades neste ano, superando pela primeira vez a de notebooks, de 187,4 milhões de unidades. O preço médio vai ficar quase 11% mais baixo, em US$ 381. É por isso que, apesar do desinteresse pelos e-readers, os livros digitais teriam espaço para crescer. Em vez de aparelhos exclusivos para leitura, o consumidor estaria preferindo os tablets na hora de ler.
A competição acirrada pode contribuir para a adoção mais rápida dos e-books. Companhias como a Amazon, dona do Kindle, estão lançando equipamentos básicos a preços reduzidos, com margens baixíssimas de lucro, na expectativa de vender livros digitais e recuperar o investimento mais tarde. É uma manobra que tomou emprestada do setor de tecnologia da informação: fabricantes de impressoras, por exemplo, também vendem máquinas com margens apertadas para ganhar dinheiro com tinta e papel.
"O problema do tablet é que se trata de um meio individual. Cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60 e hoje cada casa tem duas ou três TVs", diz o italiano Mario Pireddu, professor da Universidade de Roma III e da Universidade IULM de Milão. "Com o tablet, multipliquei minha capacidade de leitura. Se tenho um voo de 12 horas, posso ver filmes e ouvir música, mas conto com 40 livros à disposição."
No Brasil, a arrancada do livro digital também estaria ligada a um ponto particular: o peso dos livros didáticos no mercado editorial e nos hábitos de leitura da população. Divulgada no ano passado, a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra que o número de leitores no país caiu de 95,6 milhões de pessoas em 2007, ou 55% da população, para 88,2 milhões em 2011, o equivalente a 50%. Elaborado pelo Instituto Pró-Livro e o Ibope Inteligência, o levantamento considerou como leitor a pessoa que tivesse lido pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Em média, foi lido 1,85 livro no período, sendo 1,05 por iniciativa própria e 0,81 - uma participação considerável - por indicação da escola. Desse número, 0,63 encaixava-se na categoria livro didático, deixando à literatura apenas 0,18 livro.
Ler ficou na sétima posição entre as preferências no tempo livre, com 28% das respostas, bem abaixo de ver TV (85%), o passatempo favorito dos brasileiros. Em uma pergunta que admitia até três respostas, a maioria (64%) afirmou que ler é adquirir conhecimento para a vida, mas as respostas seguintes - útil para a atualização profissional (41%) e para o conhecimento na escola (35%) - mostram que a leitura é vista muito mais como uma obrigação do que como uma fonte de prazer. A resposta "uma atividade interessante" ficou com apenas 21% das preferências e "uma atividade prazerosa", com menos ainda: 18%.
O quadro permite deduzir que para onde a escola se dirigir no Brasil o hábito de leitura vai se mover, e essa direção, em parte, é o livro digital. "Já foi definido que a partir de 2015 todos os livros didáticos que o governo adquirir terão de ter uma versão digital", diz Karine, da CBL.
A questão que começa a se discutir - e provavelmente vai dominar os debates e as ações nos próximos anos - é que tipo de livro digital chegará às salas de aula, e quais serão os ecos nos demais ramos da indústria, incluindo a ficção. Até agora, o e-book tem sido pouco mais que a transposição do livro em papel para a tela de um dispositivo eletrônico. Mas um novo conceito de publicação digital está em gestação: é a ideia de transformar o livro em componente de um sistema mais amplo, com uma forte contribuição das redes sociais. É o livro como serviço ou, numa proposição ainda mais radical, o livro como software.
Bibliotecárias sempre tiveram pavor de que usuários mais rebeldes grifassem ou fizessem anotações nas orelhas dos livros que tomavam emprestados, mas no mundo digital saber as opiniões dos outros não só é útil como tem valor econômico, defende o professor Meira. Essa concepção já seria dominante na internet, na qual as pessoas procuram pelas opiniões dos outros antes de fazer compras, decidir para onde viajar nas férias ou em que hotel ficar. O livro digital, sob esse ponto de vista, não só pode estimular que mais pessoas leiam, mas também escrevam, como prenunciam os blogs.
Claudio Belli/Valor
Pireddu, professor da Universidade de Roma III: “Creio que o tablet será o meio dominante. O problema é que cada pessoa precisa ter o seu. Mas a TV também era algo raro nos anos 50 e 60”
A reclamação de muitos críticos é qual a relevância de tudo isso que está sendo escrito. A maior parte dos blogs, na verdade, passa despercebida - e desaparece com a mesma facilidade com que foi criada. "Você está falando do problema do lixo [cultural], mas essa não é uma questão nova", diz Pireddu. No século XV, informa o professor, um livro publicado na Itália por um contemporâneo de Gutenberg já questionava se as facilidades proporcionadas pelos tipos móveis não cobririam a Europa de obras descartáveis. "O argumento de que os monges copistas faziam uma seleção do que deveria ser publicado era semelhante ao usado hoje", afirma o especialista. "Vai haver mais lixo, mas esse é o preço a pagar pela democratização [da produção de conteúdo]. E não é verdade que bem antes da internet as editoras já publicavam muita literatura de baixo valor?"
Ainda não está claro como o conceito da rede social pode ajudar o leitor, mas Pireddu dá uma pista. "Você pode não ter interesse em saber a opinião de um leigo sobre um livro de Shakespeare, mas e se a editora montasse um grupo que lhe permitisse compartilhar as opiniões de um crítico de teatro ou de um ator reconhecido por interpretar Shakespeare?", pergunta.
A ideia, portanto, é ligar o livro a outras fontes de conhecimento, combinando-as em um único serviço. Em vez de só ler sobre um filme de Fellini, por exemplo, o leitor poderia ver trechos do filme como extensão do livro e discutir com outras pessoas sobre o que está sendo abordado.
É nessa linha que vai o próximo livro de Meira. Com lançamento previsto para setembro, a obra terá palavras-chave associadas a cada parágrafo. Um aplicativo poderá ajudar na leitura do livro. Toda vez que uma informação nova for publicada sobre o termo em questão, o leitor será avisado pelo software, com indicações de como obter os complementos. Na prática, o livro vai se tornar uma espécie de obra aberta e atualizada constantemente, como ocorrem com alguns programas de computador. "Em determinado momento, precisei parar de escrever o livro e passei a escrever o software", contou Meira.
Se mudanças como essas se tornarem padrão, outras questões ganharão urgência, como os direitos autorais - em um ambiente coletivo, quem será remunerado pelo quê? - e os meios para financiar criações que vão requerer um aparato tecnológico para oferecer ao leitor o que prometiam a princípio. Será a hora, também, de definir quem vai pagar a conta e que modelos comerciais serão capazes de oferecer o retorno necessário para sustentar o investimento.
"A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet", diz Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais e diretor da Associação Espanhola de Economia Digital.
Até agora, os produtores de conteúdo, como autores de livros e jornalistas, criam bens culturais pelos quais os leitores pagam. Esse cenário se baseia em uma espécie de economia da escassez, na qual os produtores de informação são poucos, o que aumenta o valor do que é produzido. A internet alterou esse modelo ao multiplicar as fontes de informação, sem entrar no mérito da qualidade da produção cultural ou no fato de que muitos sites exibem propriedades pelas quais deveriam pagar.
Para não perder relevância, afirma Celaya, as empresas ligadas à informação terão de cobrar por serviços, em vez de conteúdo. Não é só o livro que será transformado em serviço, mas também os jornais, as revistas e outros meios noticiosos. E, como no livro, a carga tecnológica para promover essa transformação será intensa.
"Pense em empresas como o Google e a Amazon, que ganham dinheiro porque conhecem muito bem seus usuários", diz Celaya. As empresas jornalísticas poderiam adotar uma abordagem semelhante, afirma o especialista. Ao saber quais artigos o leitor lê por dia, quantos deles são lidos até o fim e outras informações do gênero, obtidas por meio de softwares, as companhias poderiam criar versões pessoais de suas publicações.
"O Brasil é um dos países com mais bancas de jornal, mas elas não têm muitos recursos tecnológicos", afirma Celaya. Com investimento na cadeia de distribuição, um jornal ou revista poderia identificar, por sistemas de geolocalização, que um leitor está a poucos metros de uma banca e mandar um aviso para o celular dele, com o resumo de uma notícia particularmente interessante e a sugestão de que passe pela banca no caminho.
Por enquanto, essa parece uma cena de ficção científica, mas, se o caminho se mostrar correto, finalmente será impossível dissociar meio e mensagem.

sábado, 10 de novembro de 2012

Saiu na mídia #11: Mapa global dos mercados editoriais 2012

Compartilhando post de Arantxa Mellado. 

Aqui o documento original da International Publishers Association


Mapa Global de los Mercados Editoriales 2012

Por Arantxa Mellado
Recientemente se ha hecho público el Mapa Global de Mercados Editoriales, la primera representación visual de la edición y sus números en el mundo, un mapa que representa los mercados editoriales locales según el valor de mercado a precio de consumo.
Como se ve, para España se calculan 1890 millones de euros como el total de ingresos netos de lo editores por año, lo que la situa en sexta posición en el ranking mundial (a falta de conocer estos datos para Japón y China).
En cuanto al valor de mercado a precios al consumidor, el valor del mercado español se estima en 2890 millones de euros, lo que situa al país como octavo de la lista, por debajo de Gran Bretaña, Alemania, Francia e Italia.
Sin embargo, España está en el segundo puesto en cuanto a cantidad de nuevos títulos y reediciones anuales por millón de lectores y año, lo que -en comparación con los datos anteriores- viene a demostrar que se publica mucho para lo poco que se compra.

Metodología de creación del Mapa Global de Mercados Editoriales
El primer paso fue recopilar todos los datos de las mejores fuentes disponibles y de la forma más realista posible, para iniciar una base de datos que registren tres indicadores principales: en primer lugar, las ventas netas totales de los editores en un mercado; en segundo lugar, el valor del mercado a precios al consumidor, y el tercero, el número de lanzamiento de nuevos títulos y reediciones. Los datos se basaron principalmente en las aportaciones de las asociaciones nacionales de editores y organizaciones relacionadas. Para la mayoría de los países, estaban disponibles sólo las ventas editoriales o el valor de mercado, cuando lo estaban. Los lanzamientos de nuevos títulos y reediciones funcionaron como datos en un primer contexto. Estos primeros resultados se verificaron en cuanto a errores y verosimilitud a través de un pre-lanzamiento en 2011 y principios de 2012.
El segundo paso fue pedir a los profesionales de la industria -en particular a los editores, los organizadores de Ferias del Libro y a los intermediarios locales- su evaluación crítica de los resultados iniciales. Un segundo cuerpo de datos, principalmente las estadísticas de exportación de los mercados exportadores más grandes (Reino Unido, EE.UU., Francia y España), se añadió como punto de referencia. Estos datos se utilizan para arrojar algo de luz sobre las zonas que tenían poca o incluso ninguna estadística del mercado editorial.
El tercer paso fue explorar el contexto de la edición, pues se observó que los mercados editoriales reflejan parámetros socioeconómicos de un país y pueden correlacionarse de manera significativa con el tamaño de la población y el PIB per cápita. Esto nos ha permitido desarrollar un primer (y todavía experimental) algoritmo para estimar sistemáticamente el tamaño de los mercados editoriales para los que no hay datos empíricos disponibles. Estas estimaciones fueron cruzadas con los números respectivos de los países con datos fiables y con las evaluaciones realizadas por expertos locales.
La investigación inicial se inició en 2011 por la Asociación Internacional de Editores (IPA), con fondos adicionales de la Feria del Libro de Londres y Book Expo America. La metodología y la investigación han sido desarrolladas y ejecutadas por Rüdiger Wischenbart Content and Consulting.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Concentração no mercado editorial brasileiro


A economia de um país é formada por cadeias produtivas. As cadeias são constituídas por setores. No caso do livro, os setores são os seguintes: autoral, editorial, gráfico, produtor de papel, produtor de máquinas gráficas, distribuidor, atacadista, livreiro, bibliotecário. A interface entre firmas/empresas de pelo menos dois desses setores forma um mercado. O senso comum para mercado do livro é constituído pelos setores editorial e livreiro, intermediado ou não pelo setor distribuidor.

Característica importante deste mercado é a falta de dados atualizados e com elevado grau de confiabilidade sobre produção, venda e consumo do livro. Desde 1991 a CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) patrocinam a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. A partir de 2007 a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP foi contratada e é a responsável pela pesquisa.

Entre novembro de 2010 e abril de 2011 a FIPE realizou a pesquisa O Censo do Livro (dados referentes a 2009). Seguem alguns números: existem no Brasil 498 editoras. A definição de editora é a da UNESCO: edição de pelo menos 5 títulos no ano e produção de 5 mil exemplares.

Com relação ao faturamento anual, temos a seguinte divisão:
231 editoras com faturamento anual até R$ 1 milhão (46,39%);
189 editoras com faturamento anual entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões (37,95%);
62 editoras com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões (12,45%);
16 editoras com faturamento anual acima de R$ 50 milhões (3,21%).

Portanto, são essas editoras que disputam o mercado editorial brasileiro, que vem crescendo a cada ano. Em 2009, o valor total recebido pelas editoras foi de 4,16 bilhões de reais e, em 2010, aumentou para 4,50 bilhões de reais. Crescimento de 8,12%. Uma das explicações visíveis para este crescimento é que o valor médio recebido pelas editoras vem caindo desde 2004. O acumulado está em 34%. O valor médio recebido em 2009 foi de R$ 13,61 e em 2010 foi de R$ 12,94. Portanto, chega-se a um preço de capa médio de R$ 27,22 e R$ 25,88 respectivamente. O livro está com o preço ao consumidor, ao leitor, mais baixo a cada ano.

Esse faturamento tem origem nas vendas para mercado e nas vendas para governo.
Mercado em 2009: 3,25 bilhões de reais (78%);
Mercado em 2010: 3,34 bilhões de reais (74,31%). Crescimento de 2,99%.
Governo em 2009: 916 milhões de reais (22%);
Governo em 2010: 1,15 bilhões de reais (25,69%). Crescimento de 26,32%.

Mas, o que representa o mercado do livro na economia do país? Os números do PIB são a melhor comparação. O PIB brasileiro em 2009 foi de 3,143 trilhões de reais. Como o mercado do livro foi de 4,16 bilhões de reais, este nosso mercado representou 0,13% do PIB. Para 2010 os números foram: PIB 3,675 trilhões de reais. Mercado do livro de 4,50 bilhões de reais, o que representou 0,12% do PIB.
Outro dado interessante é a relação livro/habitante. A população do Brasil em 2010 era de 190.755.799 habitantes. Nesse mesmo ano foram vendidos, somente para mercado, 258.697.092 exemplares. Portanto, tem-se a média de 1,36 livro comprado por habitante. Há muito para crescer.

A metodologia da pesquisa divide o mercado em quatro grandes segmentos:
Didáticos
Obras Gerais
Religiosos
CTP – científicos, técnicos e profissionais
Considerando o faturamento total (mercado + governo), temos os seguintes dados:
Segmento
2009 fat R$
2010 fat R$
2009 exs
2010 exs
Didáticos
43,09%
46,65%
45,35%
46,27%
Obras Gerais
29,93%
25,92%
31,74%
30,88%
Religiosos
9,66%
11,02%
16,31%
16,92%
CTP
17,32%
16,41%
6,59%
5,93%

Outra característica do mercado é com relação ao número de lançamentos anuais, isto é, títulos em 1ª edição. Em 2009 foram 17.183 títulos e, em 2010, 18.712 títulos. Crescimento de 8,90%.
O ano tem 365 dias; excluindo-se 104 dias (sáb e dom) e 12 dias de feriados nacionais, sobram 249 dias. Se dividirmos o número de lançamentos por esses 249 dias temos a média de 69 novos títulos/dia em 2009, que aumenta para 75 novos títulos/dia em 2010. Livros demais?

Toda essa produção é comercializada através dos seguintes canais, cuja representatividade é:
Ano 2009
Canal de comercialização
Ano 2010
42,44%
Livrarias físicas + seu braço e-commerce
40,51%
23,78%
Distribuidores
22,55%
16,64%
Porta-a-porta
21,66%



82,86%
Sub-total
84,72%






2,91%
Supermercado
1,47%
2,32%
Igrejas e templos
1,26%
1,68%
Escolas e colégios
1,43%
1,41%
Editoras direto por e-commerce
1,54%
8,82%
outros
9,58%

O mercado do livro também acompanha uma das características da economia mundial: a concentração por meio de aquisições, fusões e joint-ventures. No Brasil começou pelas editoras, tanto nacionais quanto estrangeiras. (Não tenho como garantir que o levantamento abaixo é 100% preciso, mas é próximo disso. A quem tiver mais informações, agradeço que possam compartilhar).

A Guanabara Koogan (criada em 1932) começou as compras:
1994 a LTC (criada em 1968)
2007 a Forense (criada em 1904)
2007 a Método (criada em 1996)
2008 a Santos (criada em 1981)
2010 a Forense Universitária (criada em 1973)
2011 a EPU (criada em 1952)
2011 a Roca
2011 a AC Farmacêutica (criada em 2005)
Todas essas editoras estão sob a holding GEN – Grupo Editorial Nacional criado em 2007.

A Record (criada em 1942) também foi às compras e fez as seguintes:
1997 a Bertrand Brasil
1997 a Civilização Brasileira
1997 a Difel
2001 a José Olympio
2004 a Best-Seller
2005 joint-venture com a canadense Harlequim Books
2010 a Verus

A Saraiva comprou:
1998 a Atual
2000 a Renascer
2001 a Solução
2003 a Formato
2008 a ARX
2008 a ARX Jovem
2008 a Futura
2008 a Caramelo

A Ediouro comprou:
2002 a Agir
2004 a Relume-Dumará
2005 e 2007 a Nova Fronteira
2006 parceria com a Thomas Nelson
2007 a Nova Aguilar
2008 a Desiderata

A Sextante comprou:
2007 a Intrínseca (50%)

A Artmed comprou:
2009 a McGrae-Hill Education no Brasil

A IBEP/Companhia Editora Nacional comprou:
2010 a Conrad

Com relação às editoras estrangeiras, temos a seguinte cronologia:
Em 1976 a Elsevier (Holanda) entra no mercado nacional em parceria com a Campus. Suas compras foram as seguintes:
2002 a Alegro
2002 a Negócio
2005 a Impetus

Grupo Pearson (Inglaterra) entrou no mercado em 1996 e comprou a Makron Books no ano 2000.

Grupo Vivendi (França), em parceria com o grupo Abril comprou a Ática e a Scipione em 1999. Saiu do Brasil em 2004 e a Abril comprou a sua parte.

Grupo Prisa-Santillana (Espanha) entrou no mercado em 2001 com a compra da Moderna e da Salamandra. Em 2005 comprou 75% da Objetiva.

A Larousse (França) chegou em 2003 e, em 2007, comprou a Escala.

Grupo Planeta (Espanha) chegou em 2003. Em 2006 comprou a Academia da Inteligência.

Edições SM (Espanha) chegou em 2004.

Almedina (Portugal) chegou em 2005.

Penguin Books (USA) em 2005 fez uma joint-venture com a Companhia das Letras e, em 2011, comprou 45% do capital dessa editora.

Grupo Leya (Portugal) chegou em 2009. Em 2010 fez uma parceria com a Barba Negra. Em 2011 comprou a Casa da Palavra.

Thomson Reuters (USA) em 2010 comprou a editora Revista dos Tribunais.

Babel (Portugal) chegou em 2011.


A outra ponta da concentração está no setor livreiro. O marco divisório aconteceu em 2008 quando a Saraiva comprou o grupo Siciliano. Atualmente as principais redes de livrarias, com foco em obras gerais, são:
100 lojas, a Saraiva. Base São Paulo. Dessas, 46 são megastores. As outras 54 lojas (54%) representam apenas 14% de seu faturamento anual;
32 lojas, a Leitura. Base Minas Gerais;
20 lojas, a Livrarias Curitiba. Base Paraná;
13 lojas, a Cultura. Base São Paulo (abrirá mais 4 lojas ainda em 2012);
11 lojas, a Fnac. Base São Paulo;
7 lojas, a Travessa. Base Rio de Janeiro;
6 lojas, a Livraria da Vila. Base São Paulo (abrirá duas lojas em 2012 e mais 2 em 2013).

Esta concentração nas livrarias de rede também é facilitada pela migração do comércio em geral para os shoppings que, como têm um custo elevado para a manutenção de uma loja, viram uma barreira de acesso para as livrarias como menor capital. No ano 2000 o Brasil tinha 280 shoppings. Fechou 2011 com 430 shoppings (+ 53,57%). Em 2012 serão mais 43 e, por enquanto, estão previstos mais 31 para 2013. Para se ter uma ideia da força deste novo local de consumo, de compras, circulam nos shoppings 376 milhões de pessoas por mês. A população do Brasil é de 191 milhões de pessoas. Impressiona, não?

Não existe uma pesquisa confiável com relação ao número de livrarias existentes no Brasil. A ANL – Associação Nacional de Livrarias fez em 2009 um primeiro levantamento através de questionários enviados a diversos pontos de venda de livros, e chegou ao número de 2.980 “livrarias”. Livraria para a ANL é “uma empresa que oferece um bom acervo de livros em seu mix de produtos para venda.” Portanto, essa definição é muito vaga em relação ao censo comum de livraria. Talvez fosse melhor usar como parâmetro o número de exemplares no acervo de cada “livraria”. Por exemplo, acervo mínimo de 10% da produção anual de novos títulos em 1ª edição, o que, em relação à produção das editoras em 2010, seria de 1.871 exemplares por loja.

No levantamento de 2011 da ANL o número de livrarias chegou a 3.481. Como o país tem 5.564 municípios, além do Distrito Federal, teríamos a média de 0,63 livrarias por município. É claro que a distribuição dessas livrarias pelo território brasileiro acompanha a economia e a escolaridade de cada região geográfica. Os dados são os seguintes:
52,54% das livrarias na região Sudeste;
21,00% das livrarias na região Sul;
16,83% das livrarias na região Nordeste;
6,18% das livrarias na região Centro-Oeste;
3,45% das livrarias na região Norte;

A concentração nos diversos setores da economia do livro avança e fica maior a cada ano. Onde os livros serão vendidos em 2015?

De como chegamos a este estado de coisas

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