Já faz alguns anos que venho tentando demonstrar para livrarias e distribuidores que a consignação, como base da comercialização do livro, não é a maravilha que parece ser. Mas, agora, acho que encontrei uma tese que pode comprovar isso, e que é a seguinte: a consignação leva à perda da capacidade de vender livros.
Explico-me: a consignação, como principal relação comercial de uma livraria, de uma distribuidora e até de uma editora, faz com que pouco a pouco, a cada ano, estas empresas e seus funcionários percam a capacidade de vender, seja para livrarias e distribuidoras, no caso da editora, seja para o consumidor final, o leitor, no caso da livraria.
O comércio, desde suas origens há alguns milhares de anos, sempre se baseou na compra e venda de mercadorias. Alguém produz, alguém compra desse produtor, e alguém vende para o consumidor final. Esta é a relação básica do comércio. Hoje, no comércio do livro, a editora produz e, na maioria dos casos, consigna para distribuidores e livrarias, no caso de atendimento direto. Os distribuidores também consignam para as livrarias que atendem. Portanto, o que deveria ser uma operação eventual, a consignação, com o tempo transformou-se na base da atual comercialização do livro no Brasil. Em casos extremos, existem distribuidores e livrarias que não admitem nem pensar na operação de compra.
Vejo vários problemas diretamente relacionados à atual prática da consignação e que dizem respeito não somente às editoras, mas também às distribuidoras e livrarias, e aos funcionários de todas elas diretamente ligados à área de vendas. É claro que existem exceções ao que será relatado abaixo.
Problema 1-acomodação: a princípio é uma palavra forte, mas que pode ser útil para chamar a atenção para o problema. Se os livros vão consignados para distribuidores e livrarias, não é necessário muito empenho para colocar o livro nas distribuidoras e estas nas livrarias. Nas livrarias, como o livro também está consignado, isto é, somente será pago às distribuidoras e editoras se for vendido, também não será necessário empenho para a venda.
Solução 1-empenho: a maioria das pessoas que entram numa livraria já sabe o que vai comprar e realizará a compra no caso da livraria ter o livro procurado. O empenho é necessário a partir deste ponto. Como vender um segundo livro para esse cliente? Como vender um livro que não está em estoque na livraria no momento? Como vender um livro que ainda não foi lançado, a pré-venda? Como trabalhar o acervo da livraria, como destacá-lo, como relacioná-lo com o que acontece no mundo em termos de economia, política, cultura etc? Agora, mais uma pergunta: se as vendas por impulso já existem e se os livros estão consignados, qual a necessidade que o funcionário tem de se empenhar para dar conta das questões acima? Existe alguma interação entre os responsáveis pelos pedidos de consignação e os vendedores da livraria? Eles se falam? Trocam ideias?
Exemplo de acomodação 1, verídico: uma amiga editora entrou numa respeitada livraria e perguntou ao vendedor/atendente/livreiro se tinha o livro X e ele foi buscá-lo na prateleira. Bom, não? Com o livro nas mãos, minha amiga perguntou se ele tinha os outros livros do autor. Para sua surpresa, a resposta atravessada por uma pergunta que a deixou boquiaberta foi: "mas a senhora vai levar esses outros livros também?" Minha amiga ainda teve presença de espírito e respondeu que não levaria nem aqueles e nem o que estava em suas mãos, e foi embora da livraria.
Exemplo de acomodação 2, presenciado: o livro da Zahar "O Andar d
o Bêbado" está, no momento em que escrevo, há 23 semanas nas listas de mais vendidos e aproxima-se dos 40 mil exemplares vendidos. O que se imagina da exposição de um livro com essa trajetória de vendas é que esteja em exposição bem destacada nas livrarias, sim ou não? Pois bem, semana passada visitei duas livrarias importantes no Rio e em São Paulo; numa delas estava exposto na parte inferior da principal mesa da livraria e, na outra, nem exposto estava. Só era encontrado na prateleira, na seção de física. Isso é que é capacidade de perder vendas! Agora, se o fornecimento dessas lojas fosse por compra e não por consignação, isso aconteceria? Segue um exemplo de outra forma de trabalhar.
Exemplo de empenho, também verídico: ao longo de agosto de 2009 começa a divulgação do filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, e que será lançado em março nos EUA e em abril no Brasil. O
livro da Zahar "Alice edição comentada" de Lewis Carroll estava em reimpressão e chegou no final de agosto. Passei a informação para as livrarias e distribuidores. Terminou o ano e uma livraria importante vendeu 10 vezes mais que qualquer distribuidor ou outra livraria, seja de rede ou não. E essa diferença é significativa também no número de exemplares, cuja ordem de grandeza chega aos mil. Como livro tem o preço de R$ 79,00, a diferença de faturamento entre os outros e ela foi de R$ 7.900,00 para R$ 79.000,00. Coincidência ou não (a escolha é de você, leitor) essa livraria opta por comprar seu acervo. Se o acervo é comprado, o responsável pela compra sabe, assim como os vendedores da livraria, que essa mercadoria deve ser vendida dentro de um prazo X, pois precisa ser paga à editora ou distribuidora. Essa equipe de compra e vendas soube reconhecer uma oportunidade de venda diferenciada de um livro que não era uma novidade, de um livro que está em catálogo há mais de um século. É, portanto, uma equipe antenada com o que acontece para além do ambiente físico da livraria.
Problema 2-acervo sem foco: com a consignação é comum as livrarias aceitarem todo e qualquer título que as editoras e distribuidoras queiram enviar, pois, como não é comprado, acham que não tem custo. Será? Lembro do meu tempo de livraria quando algumas editoras e distribuidoras insistiam em enviar títulos de áreas que a livraria não trabalhava. Eles insistiam dizendo "mas é consignado, não tem custo". Tem sim, e muito. O primeiro custo é o administrativo/burocrático: recebimento da mercadoria; manuseio; conferência; entrada no sistema; distribuição pela loja. Depois, como o livro não venderá, vem a devolução para a editora ou distribuidora: retirar da prateleira; conferência; emissão de nota fiscal; embalar; solicitar a coleta; entregar a mercadoria. Quantas horas desperdiçadas com trabalho inútil. Um outro custo é a perda de faturamento. Como esses títulos que não têm a ver com o acervo da livraria estão na loja, acabam ocupando lugar nas prateleiras e nas mesas de exposição de lançamentos e destaques, tirando assim o espaço de títulos mais de acordo com o público da livraria. Muitas vezes vejo livrarias entulhadas de livros, mas sem foco no acervo. Não adianta uma livraria - principalmente a pequena e média, até pelo espaço físico disponível - querer ter de tudo um pouco, pois acaba não tendo nada que a diferencie nem no mercado e nem aos olhos de seus clientes.
Solução 2-especialização: para conseguir ser uma livraria de referência é necessário que as pessoas responsáveis pelas pedidos, sejam de compra e/ou consignação, conheçam os catálogos das editoras e seus perfis editoriais, além da relevância dos autores. Devem ter acesso também às informações de vendas da livraria para realizar análises e poder fazer os pedidos subsidiados por essas informações.
Problema 3-atraso na profissionalização do setor: a consignação leva a não se exigir muito dos funcionários o conhecimento do produto, no caso o livro, que devem vender. E isso vale para os três setores, editora, distribuidora, livraria.
Solução 3-ler e estudar: sei que grande parte das pessoas - se não a maioria -, que trabalham nas áreas de compra e/ou venda de editoras, distribuidoras e livrarias não têm o hábito da leitura. Também sei que é difícil que de uma hora pra outra passem a ser leitores. Mas, tenho certeza que, sem o hábito da leitura e consequente estudo, não há como crescer na profissão, ter emprego garantido e ter melhores salários.
A escolha é de cada um e boas leituras.
Explico-me: a consignação, como principal relação comercial de uma livraria, de uma distribuidora e até de uma editora, faz com que pouco a pouco, a cada ano, estas empresas e seus funcionários percam a capacidade de vender, seja para livrarias e distribuidoras, no caso da editora, seja para o consumidor final, o leitor, no caso da livraria.
O comércio, desde suas origens há alguns milhares de anos, sempre se baseou na compra e venda de mercadorias. Alguém produz, alguém compra desse produtor, e alguém vende para o consumidor final. Esta é a relação básica do comércio. Hoje, no comércio do livro, a editora produz e, na maioria dos casos, consigna para distribuidores e livrarias, no caso de atendimento direto. Os distribuidores também consignam para as livrarias que atendem. Portanto, o que deveria ser uma operação eventual, a consignação, com o tempo transformou-se na base da atual comercialização do livro no Brasil. Em casos extremos, existem distribuidores e livrarias que não admitem nem pensar na operação de compra.
Vejo vários problemas diretamente relacionados à atual prática da consignação e que dizem respeito não somente às editoras, mas também às distribuidoras e livrarias, e aos funcionários de todas elas diretamente ligados à área de vendas. É claro que existem exceções ao que será relatado abaixo.
Problema 1-acomodação: a princípio é uma palavra forte, mas que pode ser útil para chamar a atenção para o problema. Se os livros vão consignados para distribuidores e livrarias, não é necessário muito empenho para colocar o livro nas distribuidoras e estas nas livrarias. Nas livrarias, como o livro também está consignado, isto é, somente será pago às distribuidoras e editoras se for vendido, também não será necessário empenho para a venda.
Solução 1-empenho: a maioria das pessoas que entram numa livraria já sabe o que vai comprar e realizará a compra no caso da livraria ter o livro procurado. O empenho é necessário a partir deste ponto. Como vender um segundo livro para esse cliente? Como vender um livro que não está em estoque na livraria no momento? Como vender um livro que ainda não foi lançado, a pré-venda? Como trabalhar o acervo da livraria, como destacá-lo, como relacioná-lo com o que acontece no mundo em termos de economia, política, cultura etc? Agora, mais uma pergunta: se as vendas por impulso já existem e se os livros estão consignados, qual a necessidade que o funcionário tem de se empenhar para dar conta das questões acima? Existe alguma interação entre os responsáveis pelos pedidos de consignação e os vendedores da livraria? Eles se falam? Trocam ideias?
Exemplo de acomodação 1, verídico: uma amiga editora entrou numa respeitada livraria e perguntou ao vendedor/atendente/livreiro se tinha o livro X e ele foi buscá-lo na prateleira. Bom, não? Com o livro nas mãos, minha amiga perguntou se ele tinha os outros livros do autor. Para sua surpresa, a resposta atravessada por uma pergunta que a deixou boquiaberta foi: "mas a senhora vai levar esses outros livros também?" Minha amiga ainda teve presença de espírito e respondeu que não levaria nem aqueles e nem o que estava em suas mãos, e foi embora da livraria.
Exemplo de acomodação 2, presenciado: o livro da Zahar "O Andar d
o Bêbado" está, no momento em que escrevo, há 23 semanas nas listas de mais vendidos e aproxima-se dos 40 mil exemplares vendidos. O que se imagina da exposição de um livro com essa trajetória de vendas é que esteja em exposição bem destacada nas livrarias, sim ou não? Pois bem, semana passada visitei duas livrarias importantes no Rio e em São Paulo; numa delas estava exposto na parte inferior da principal mesa da livraria e, na outra, nem exposto estava. Só era encontrado na prateleira, na seção de física. Isso é que é capacidade de perder vendas! Agora, se o fornecimento dessas lojas fosse por compra e não por consignação, isso aconteceria? Segue um exemplo de outra forma de trabalhar.Exemplo de empenho, também verídico: ao longo de agosto de 2009 começa a divulgação do filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton, e que será lançado em março nos EUA e em abril no Brasil. O
livro da Zahar "Alice edição comentada" de Lewis Carroll estava em reimpressão e chegou no final de agosto. Passei a informação para as livrarias e distribuidores. Terminou o ano e uma livraria importante vendeu 10 vezes mais que qualquer distribuidor ou outra livraria, seja de rede ou não. E essa diferença é significativa também no número de exemplares, cuja ordem de grandeza chega aos mil. Como livro tem o preço de R$ 79,00, a diferença de faturamento entre os outros e ela foi de R$ 7.900,00 para R$ 79.000,00. Coincidência ou não (a escolha é de você, leitor) essa livraria opta por comprar seu acervo. Se o acervo é comprado, o responsável pela compra sabe, assim como os vendedores da livraria, que essa mercadoria deve ser vendida dentro de um prazo X, pois precisa ser paga à editora ou distribuidora. Essa equipe de compra e vendas soube reconhecer uma oportunidade de venda diferenciada de um livro que não era uma novidade, de um livro que está em catálogo há mais de um século. É, portanto, uma equipe antenada com o que acontece para além do ambiente físico da livraria.Problema 2-acervo sem foco: com a consignação é comum as livrarias aceitarem todo e qualquer título que as editoras e distribuidoras queiram enviar, pois, como não é comprado, acham que não tem custo. Será? Lembro do meu tempo de livraria quando algumas editoras e distribuidoras insistiam em enviar títulos de áreas que a livraria não trabalhava. Eles insistiam dizendo "mas é consignado, não tem custo". Tem sim, e muito. O primeiro custo é o administrativo/burocrático: recebimento da mercadoria; manuseio; conferência; entrada no sistema; distribuição pela loja. Depois, como o livro não venderá, vem a devolução para a editora ou distribuidora: retirar da prateleira; conferência; emissão de nota fiscal; embalar; solicitar a coleta; entregar a mercadoria. Quantas horas desperdiçadas com trabalho inútil. Um outro custo é a perda de faturamento. Como esses títulos que não têm a ver com o acervo da livraria estão na loja, acabam ocupando lugar nas prateleiras e nas mesas de exposição de lançamentos e destaques, tirando assim o espaço de títulos mais de acordo com o público da livraria. Muitas vezes vejo livrarias entulhadas de livros, mas sem foco no acervo. Não adianta uma livraria - principalmente a pequena e média, até pelo espaço físico disponível - querer ter de tudo um pouco, pois acaba não tendo nada que a diferencie nem no mercado e nem aos olhos de seus clientes.
Solução 2-especialização: para conseguir ser uma livraria de referência é necessário que as pessoas responsáveis pelas pedidos, sejam de compra e/ou consignação, conheçam os catálogos das editoras e seus perfis editoriais, além da relevância dos autores. Devem ter acesso também às informações de vendas da livraria para realizar análises e poder fazer os pedidos subsidiados por essas informações.
Problema 3-atraso na profissionalização do setor: a consignação leva a não se exigir muito dos funcionários o conhecimento do produto, no caso o livro, que devem vender. E isso vale para os três setores, editora, distribuidora, livraria.
Solução 3-ler e estudar: sei que grande parte das pessoas - se não a maioria -, que trabalham nas áreas de compra e/ou venda de editoras, distribuidoras e livrarias não têm o hábito da leitura. Também sei que é difícil que de uma hora pra outra passem a ser leitores. Mas, tenho certeza que, sem o hábito da leitura e consequente estudo, não há como crescer na profissão, ter emprego garantido e ter melhores salários.
A escolha é de cada um e boas leituras.