sábado, 10 de novembro de 2012

Saiu na mídia #11: Mapa global dos mercados editoriais 2012

Compartilhando post de Arantxa Mellado. 

Aqui o documento original da International Publishers Association


Mapa Global de los Mercados Editoriales 2012

Por Arantxa Mellado
Recientemente se ha hecho público el Mapa Global de Mercados Editoriales, la primera representación visual de la edición y sus números en el mundo, un mapa que representa los mercados editoriales locales según el valor de mercado a precio de consumo.
Como se ve, para España se calculan 1890 millones de euros como el total de ingresos netos de lo editores por año, lo que la situa en sexta posición en el ranking mundial (a falta de conocer estos datos para Japón y China).
En cuanto al valor de mercado a precios al consumidor, el valor del mercado español se estima en 2890 millones de euros, lo que situa al país como octavo de la lista, por debajo de Gran Bretaña, Alemania, Francia e Italia.
Sin embargo, España está en el segundo puesto en cuanto a cantidad de nuevos títulos y reediciones anuales por millón de lectores y año, lo que -en comparación con los datos anteriores- viene a demostrar que se publica mucho para lo poco que se compra.

Metodología de creación del Mapa Global de Mercados Editoriales
El primer paso fue recopilar todos los datos de las mejores fuentes disponibles y de la forma más realista posible, para iniciar una base de datos que registren tres indicadores principales: en primer lugar, las ventas netas totales de los editores en un mercado; en segundo lugar, el valor del mercado a precios al consumidor, y el tercero, el número de lanzamiento de nuevos títulos y reediciones. Los datos se basaron principalmente en las aportaciones de las asociaciones nacionales de editores y organizaciones relacionadas. Para la mayoría de los países, estaban disponibles sólo las ventas editoriales o el valor de mercado, cuando lo estaban. Los lanzamientos de nuevos títulos y reediciones funcionaron como datos en un primer contexto. Estos primeros resultados se verificaron en cuanto a errores y verosimilitud a través de un pre-lanzamiento en 2011 y principios de 2012.
El segundo paso fue pedir a los profesionales de la industria -en particular a los editores, los organizadores de Ferias del Libro y a los intermediarios locales- su evaluación crítica de los resultados iniciales. Un segundo cuerpo de datos, principalmente las estadísticas de exportación de los mercados exportadores más grandes (Reino Unido, EE.UU., Francia y España), se añadió como punto de referencia. Estos datos se utilizan para arrojar algo de luz sobre las zonas que tenían poca o incluso ninguna estadística del mercado editorial.
El tercer paso fue explorar el contexto de la edición, pues se observó que los mercados editoriales reflejan parámetros socioeconómicos de un país y pueden correlacionarse de manera significativa con el tamaño de la población y el PIB per cápita. Esto nos ha permitido desarrollar un primer (y todavía experimental) algoritmo para estimar sistemáticamente el tamaño de los mercados editoriales para los que no hay datos empíricos disponibles. Estas estimaciones fueron cruzadas con los números respectivos de los países con datos fiables y con las evaluaciones realizadas por expertos locales.
La investigación inicial se inició en 2011 por la Asociación Internacional de Editores (IPA), con fondos adicionales de la Feria del Libro de Londres y Book Expo America. La metodología y la investigación han sido desarrolladas y ejecutadas por Rüdiger Wischenbart Content and Consulting.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Saiu na mídia #10 A Amazon vai comprar a maior rede de livrarias do Brasil?

Compartilhando o artigo de Carlo Carrenho


A Amazon vai comprar a maior rede de livrarias do Brasil?

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[Artigo originalmente publicado em inglês na Publishing Perspectives]
Livrarias raramente causam rebuliço na Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. Afinal, só uma rede de livrarias, a Saraiva SA Livreiros Editores (SLED4) – a maior do Brasil – é negociada por lá. Portanto o que aconteceu na última quarta-feira na Bolsa, poucos minutos antes do fechamento do pregão, foi realmente algo extraordinário e, talvez, simbólico das novas águas que a indústria editorial tem navegado ultimamente. O fato é que quando aBloomberg noticiou que a Amazon estava negociando a compra da Saraiva, as ações da livraria subiram até R$ 28, o valor mais alto alcançado nos últimos 12 meses, representando uma alta de 7,28% no dia – dos quais 7% aconteceram nos minutos finais do pregão. 
Outro varejista ligado ao mercado de livros e listado na Bovespa, a B2W (BTOW3), conhecido também como Submarino, não teve tanta sorte. Antes visto como um potencial alvo de aquisição da Amazon, suas ações caíram 4,34%, chegando a R$ 11,47. No dia seguinte, as ações da B2W caíram mais 8,54% até R$ 10,49, enquanto as ações da Saraiva permaneceram estáveis, caindo meros 0,36% para R$ 27,90.

A Amazon poderia chegar ao Brasil em novembro
Rumores sobre a atividade da Amazon no Brasil já circulam há anos, com cada vez mais intensidade. O fato é que não se pode mais chamá-los de rumores. Ainda não se sabe se vai acontecer com ou sem a compra da Saraiva, mas a fonte anônima da Bloomberg parece estar correta. Na semana passada, o jornalista brasileiro Lauro Jardim publicou no Radar On-Line que a Amazon decidiu que a data de lançamento no Brasil será em novembro. Todo mundo sabe, no entanto, que a Amazon raramente usa o tempo futuro em seus comunicados, portanto isso só pode ser visto como especulação, apesar de ser uma especulação bastante plausível.
E por quê? Duas razões. Primeiro, as negociações com a DLD (Distribuidora de Livros Digitais) estão perto de serem finalizadas. A DLD é um consórcio de sete grandes editoras brasileiras que controla ao redor de 35% da lista de best-sellers no país. Elas sempre negociam em conjunto e estão fazendo assim com a Amazon. E são, de longe, o maior desafio para os executivos de Seattle, já que estas editoras estão agressivamente exigindo condições comerciais favoráveis e o controle final sobre os preços. Limitar os agressivos descontos da Amazon são uma condição sine qua non para este grupo de sete empresas. No entanto, fontes no mercado já deixaram claro que um acordo com a DLD está muito perto e deve  acontecer antes do fim do ano. Além disso, de acordo com o noticiário local, a Amazon já conseguiu um acordo com a Xeriph, a principal agregadora de e-books, para distribuir pelo menos uma parte de seu catálogo digital. Então, é fato que a Amazon ou já tem ou está a ponto de ter conteúdo suficiente para abrir sua loja de e-books brasileira. Portanto, um lançamento em novembro não parece algo muito absurdo.

E os leitores digitais?
Se a Amazon chegar realmente, será que conseguirá disponibilizar Kindles no Brasil em tão pouco tempo? Bem, depende do que significa “disponibilizar no Brasil”. Se significa ter Kindles estocados localmente ou vendido em lojas físicas, a resposta é provavelmente “não”. A menos que os aparelhos já tenham chegado ao Brasil ou pelo menos já tenham sido despachados, é difícil imaginar que todo o processo de importação possa levar apenas poucas semanas, incluindo a liberação alfândegária. No entanto, se “disponibilizar no Brasil” significa que os brasileiros podem comprar Kindles online diretamente dos EUA e recebe-los em suas casas, então isto isso já é uma realidade operacional.
 Por uns US$ 216 (o preço do Kindle e-ink da geração anterior mais barata) entregue em um endereço brasileiro, com os impostos incluídos, a Amazon possui o e-reader dedicado mais barato do Brasil. Agora, imaginem se a Amazon der um desconto especial ou oferecer entrega expressa gratuita a clientes brasileiros. Nesse caso, não seria necessário um grande processo de importação. Esta é a segunda razão que torna plausível uma especulação de que a Amazon vai abrir no Brasil antes do final do ano. Quanto aos preços competitivos dos Kindles, não podemos esquecer que a Kobo e a Livraria Cultura prometeram disponibilizar seus e-readers antes de dezembro. Podemos então esperar algo como uma guerra de preço na disputa pelos clientes na época do Natal.

Mas a Amazon realmente vai comprar a Saraiva?
Não vamos esquecer o outro cenário: os rumores da aquisição da Saraiva. Se isto for verdade, as coisas poderiam acontecer de forma diferente, talvez com maior rapidez. Para entender melhor esta possibilidade, no entanto, devemos conhecer um pouco mais sobre a maior rede de livrarias brasileira.
A Saraiva foi fundada em 1914 por um imigrante português como uma livraria de livros usados especializada em Direito. Três anos depois, começou a publicar livros. Hoje, quase 100 anos e várias aquisições depois, o grupo Saraiva inclui a maior rede brasileira de livrarias e uma das editoras mais importantes do país, forte na área de didáticos – onde se beneficia das enormes compras governamentais – e na área de Direito. Outras áreas de atuação incluem mercado geral, infantis, negócios e outros setores Acadêmicos. No lado do varejo, a Saraiva possui 102 lojas, das quais 47 são megastores. Em 2008, o grupo adquiriu a Siciliano, a segunda maior rede de livrarias brasileira, e se consolidou como a maior livraria no país (para comparar, imagine a Barnes & Noble comprando a Borders, se esta ainda existisse).
De acordo com a Bloomberg, o capital da Saraiva é de US$ 355 milhões, e o grupo Saraiva foi uma das três editoras brasileiras a entrar na lista anual das maiores empresas editoriais do mundo compilada pelo consultor editorial austríaco, Rüdiger Wischenbart.
Todo o mercado editorial brasileiro está avaliado em US$ 6,7 bilhões, de acordo com o último Global Ranking of the Publishing Industries. Para dar uma idéia do poder da Saraiva, a empresa teve uma receita total de R$ 1,889 bilhões em 2011 – apesar de que mais de um terço de suas vendas venham de outros itens e não de livros. E este número continua crescendo: a empresa teve um crescimento de 20,7% em 2011 em relação a 2010, com ganhos (Ebitda) de R$ 172,6 milhões ou 9,1% de receita. Na primeira metade de 2012, a receita foi de R$ 889 milhões, um crescimento de 8,9% sobre o mesmo período de 2011. Os lucros também cresceram de R$ 65,6 milhões para R$ 79,29 milhões na primeira metade de 2012, com uma margem de 8,9%. As livrarias Saraiva, no entanto, não vendem apenas livros, mas também CDs, DVDs, computadores, aparelhos eletrônicos e suprimentos para escritório. O site deles, lançado em 1998, vende uma seleção ainda maior de itens, de bicicletas a geladeiras. Em 2011, R$ 810,3 milhões de vendas vieram de produtos que não eram livros, correspondendo a 56,2% da receita da rede.
Os números são ainda mais interessantes quando se compara o desempenho da rede de livrarias da Saraiva ao da editora Saraiva. Em 2011, só 23,7% da receita do grupo veio da editora, um valor de R$ 447,1 milhões. No mesmo ano, no entanto, os ganhos (Ebitda) do negócio editorial forma de R$ 96,7 milhões e corresponderam a 55% dos ganhos de todo o grupo. Isso foi possível porque a margem de lucro das livrarias Saraiva foi de apenas 5,4% no ano passado, enquanto que a margem da editora chegou a 19,3%. Também é importante lembrar que 35,9% ou R$ 517,3 milhões da receita de varejo eram provenientes do e-commerce.
A análise destes números é crucial para se entender os possíveis caminhos que uma aquisição da Saraiva pela Amazon poderia tomar. Há basicamente três opções:
1) A Amazon adquire todo o grupo SaraivaEsta é certamente a opção menos favorável, pois a Saraiva provavelmente não venderia sua unidade editorial, que é a parte mais lucrativa do negócio. A Amazon, por outro lado, provavelmente pensaria duas vezes antes de se tornar concorrente de outras editoras no Brasil antes mesmo de abrir sua própria loja local. Não faria sentido estratégico entrar no negócio editorial antes de começar sua atividade livreira em um novo mercado.
2) A Amazon adquire a divisão de vendas de livros da SaraivaEste poderia ser o cenário dos sonhos para a Saraiva, já que venderia sua divisão menos lucrativa e manteria seu negócio com melhores resultados. A editoria e a livraria Saraiva já estão separadas em duas entidades legais diferentes, facilitando o processo de uma possível venda parcial. Claro que neste caso alguma sinergia se perderia, mas nada que um bom contrato com obrigações futuras não possa superar. E as margens de lucro são tão diferentes entre os dois negócios que tais sinergias não seriam suficientes para evitar um acordo. Do lado da Amazon, no entanto, não parece fazer muito sentido comprar 102 livrarias. Seria a primeira vez que a gigante de Seattle teria lojas físicas. É difícil imaginar que a Amazon mudaria sua estratégia global só para entrar no mercado brasileiro. Sim, o Brasil é o país da vez, mas o mundo é um lugar muito grande e é possível imaginar a Amazon em mercados como Escandinávia, Europa Oriental, Rússia ou África do Sul antes de imaginá-la repensando sua raison d’être ou vendendo sua alma ao demônio das lojas físicas.
3) A Amazon adquire somente a loja online da SaraivaO site da Saraiva é responsável por 27,4% das receitas da Saraiva. Se a Amazon pudesse adquirir somente o negócio online, isto rapidamente abriria caminho no mercado e permitiria que ela superasse vários obstáculos sem precisar se envolver com a administração de lojas físicas. No entanto, isso não faria sentido para a Saraiva. O que seria de uma rede de livrarias sem um site no mundo de hoje? É difícil imaginar a Saraiva cometendo o mesmo erro que a Borders cometeu, deixando sua presença na web brasileira desaparecer ao vender, se associar ou fazer uma joint venture com uma empresa de e-commerce como a Amazon.
Se uma negociação entre os dois grupos realmente existe, faz sentido acreditar que ela acontece em torno das opções 2 ou 3. Uma decisão entre uma dessas opções favorece ou Amazon ou a Saraiva, dependendo de qual for a direção tomada, mas a inclusão ou não das 102 lojas físicas deve ser o ponto nevrálgico da negociação.

Brasileiros, cuidado
Qualquer que seja o modelo adotado, no entanto, uma possível aquisição da Saraiva pela Amazon não é razão para que as editoras brasileiras comemorem. Se a Amazon comprar a Saraiva, a Submarino afunda, provavelmente deixando o mercado de livros – isto se não sair do mercado de vez no médio prazo – já que aquisição fortaleceria mais ainda a posição já forte da Saraiva no mercado. O resultado final seria, ironicamente, menos competição, mais consolidação e um mercado mais difícil para as editoras.
Mais cedo ou mais tarde, a Amazon fará um comunicado. E será escrito com os verbos no passado. Até lá, tudo que podemos fazer é esperar pelo próximo capítulo da novela “A chegada da Amazon no Brasil”, enquanto day traders ganham algum dinheiro com toda a confusão.
(Tradução: Marcelo Barbão)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Concentração no mercado editorial brasileiro


A economia de um país é formada por cadeias produtivas. As cadeias são constituídas por setores. No caso do livro, os setores são os seguintes: autoral, editorial, gráfico, produtor de papel, produtor de máquinas gráficas, distribuidor, atacadista, livreiro, bibliotecário. A interface entre firmas/empresas de pelo menos dois desses setores forma um mercado. O senso comum para mercado do livro é constituído pelos setores editorial e livreiro, intermediado ou não pelo setor distribuidor.

Característica importante deste mercado é a falta de dados atualizados e com elevado grau de confiabilidade sobre produção, venda e consumo do livro. Desde 1991 a CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) patrocinam a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. A partir de 2007 a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP foi contratada e é a responsável pela pesquisa.

Entre novembro de 2010 e abril de 2011 a FIPE realizou a pesquisa O Censo do Livro (dados referentes a 2009). Seguem alguns números: existem no Brasil 498 editoras. A definição de editora é a da UNESCO: edição de pelo menos 5 títulos no ano e produção de 5 mil exemplares.

Com relação ao faturamento anual, temos a seguinte divisão:
231 editoras com faturamento anual até R$ 1 milhão (46,39%);
189 editoras com faturamento anual entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões (37,95%);
62 editoras com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões (12,45%);
16 editoras com faturamento anual acima de R$ 50 milhões (3,21%).

Portanto, são essas editoras que disputam o mercado editorial brasileiro, que vem crescendo a cada ano. Em 2009, o valor total recebido pelas editoras foi de 4,16 bilhões de reais e, em 2010, aumentou para 4,50 bilhões de reais. Crescimento de 8,12%. Uma das explicações visíveis para este crescimento é que o valor médio recebido pelas editoras vem caindo desde 2004. O acumulado está em 34%. O valor médio recebido em 2009 foi de R$ 13,61 e em 2010 foi de R$ 12,94. Portanto, chega-se a um preço de capa médio de R$ 27,22 e R$ 25,88 respectivamente. O livro está com o preço ao consumidor, ao leitor, mais baixo a cada ano.

Esse faturamento tem origem nas vendas para mercado e nas vendas para governo.
Mercado em 2009: 3,25 bilhões de reais (78%);
Mercado em 2010: 3,34 bilhões de reais (74,31%). Crescimento de 2,99%.
Governo em 2009: 916 milhões de reais (22%);
Governo em 2010: 1,15 bilhões de reais (25,69%). Crescimento de 26,32%.

Mas, o que representa o mercado do livro na economia do país? Os números do PIB são a melhor comparação. O PIB brasileiro em 2009 foi de 3,143 trilhões de reais. Como o mercado do livro foi de 4,16 bilhões de reais, este nosso mercado representou 0,13% do PIB. Para 2010 os números foram: PIB 3,675 trilhões de reais. Mercado do livro de 4,50 bilhões de reais, o que representou 0,12% do PIB.
Outro dado interessante é a relação livro/habitante. A população do Brasil em 2010 era de 190.755.799 habitantes. Nesse mesmo ano foram vendidos, somente para mercado, 258.697.092 exemplares. Portanto, tem-se a média de 1,36 livro comprado por habitante. Há muito para crescer.

A metodologia da pesquisa divide o mercado em quatro grandes segmentos:
Didáticos
Obras Gerais
Religiosos
CTP – científicos, técnicos e profissionais
Considerando o faturamento total (mercado + governo), temos os seguintes dados:
Segmento
2009 fat R$
2010 fat R$
2009 exs
2010 exs
Didáticos
43,09%
46,65%
45,35%
46,27%
Obras Gerais
29,93%
25,92%
31,74%
30,88%
Religiosos
9,66%
11,02%
16,31%
16,92%
CTP
17,32%
16,41%
6,59%
5,93%

Outra característica do mercado é com relação ao número de lançamentos anuais, isto é, títulos em 1ª edição. Em 2009 foram 17.183 títulos e, em 2010, 18.712 títulos. Crescimento de 8,90%.
O ano tem 365 dias; excluindo-se 104 dias (sáb e dom) e 12 dias de feriados nacionais, sobram 249 dias. Se dividirmos o número de lançamentos por esses 249 dias temos a média de 69 novos títulos/dia em 2009, que aumenta para 75 novos títulos/dia em 2010. Livros demais?

Toda essa produção é comercializada através dos seguintes canais, cuja representatividade é:
Ano 2009
Canal de comercialização
Ano 2010
42,44%
Livrarias físicas + seu braço e-commerce
40,51%
23,78%
Distribuidores
22,55%
16,64%
Porta-a-porta
21,66%



82,86%
Sub-total
84,72%






2,91%
Supermercado
1,47%
2,32%
Igrejas e templos
1,26%
1,68%
Escolas e colégios
1,43%
1,41%
Editoras direto por e-commerce
1,54%
8,82%
outros
9,58%

O mercado do livro também acompanha uma das características da economia mundial: a concentração por meio de aquisições, fusões e joint-ventures. No Brasil começou pelas editoras, tanto nacionais quanto estrangeiras. (Não tenho como garantir que o levantamento abaixo é 100% preciso, mas é próximo disso. A quem tiver mais informações, agradeço que possam compartilhar).

A Guanabara Koogan (criada em 1932) começou as compras:
1994 a LTC (criada em 1968)
2007 a Forense (criada em 1904)
2007 a Método (criada em 1996)
2008 a Santos (criada em 1981)
2010 a Forense Universitária (criada em 1973)
2011 a EPU (criada em 1952)
2011 a Roca
2011 a AC Farmacêutica (criada em 2005)
Todas essas editoras estão sob a holding GEN – Grupo Editorial Nacional criado em 2007.

A Record (criada em 1942) também foi às compras e fez as seguintes:
1997 a Bertrand Brasil
1997 a Civilização Brasileira
1997 a Difel
2001 a José Olympio
2004 a Best-Seller
2005 joint-venture com a canadense Harlequim Books
2010 a Verus

A Saraiva comprou:
1998 a Atual
2000 a Renascer
2001 a Solução
2003 a Formato
2008 a ARX
2008 a ARX Jovem
2008 a Futura
2008 a Caramelo

A Ediouro comprou:
2002 a Agir
2004 a Relume-Dumará
2005 e 2007 a Nova Fronteira
2006 parceria com a Thomas Nelson
2007 a Nova Aguilar
2008 a Desiderata

A Sextante comprou:
2007 a Intrínseca (50%)

A Artmed comprou:
2009 a McGrae-Hill Education no Brasil

A IBEP/Companhia Editora Nacional comprou:
2010 a Conrad

Com relação às editoras estrangeiras, temos a seguinte cronologia:
Em 1976 a Elsevier (Holanda) entra no mercado nacional em parceria com a Campus. Suas compras foram as seguintes:
2002 a Alegro
2002 a Negócio
2005 a Impetus

Grupo Pearson (Inglaterra) entrou no mercado em 1996 e comprou a Makron Books no ano 2000.

Grupo Vivendi (França), em parceria com o grupo Abril comprou a Ática e a Scipione em 1999. Saiu do Brasil em 2004 e a Abril comprou a sua parte.

Grupo Prisa-Santillana (Espanha) entrou no mercado em 2001 com a compra da Moderna e da Salamandra. Em 2005 comprou 75% da Objetiva.

A Larousse (França) chegou em 2003 e, em 2007, comprou a Escala.

Grupo Planeta (Espanha) chegou em 2003. Em 2006 comprou a Academia da Inteligência.

Edições SM (Espanha) chegou em 2004.

Almedina (Portugal) chegou em 2005.

Penguin Books (USA) em 2005 fez uma joint-venture com a Companhia das Letras e, em 2011, comprou 45% do capital dessa editora.

Grupo Leya (Portugal) chegou em 2009. Em 2010 fez uma parceria com a Barba Negra. Em 2011 comprou a Casa da Palavra.

Thomson Reuters (USA) em 2010 comprou a editora Revista dos Tribunais.

Babel (Portugal) chegou em 2011.


A outra ponta da concentração está no setor livreiro. O marco divisório aconteceu em 2008 quando a Saraiva comprou o grupo Siciliano. Atualmente as principais redes de livrarias, com foco em obras gerais, são:
100 lojas, a Saraiva. Base São Paulo. Dessas, 46 são megastores. As outras 54 lojas (54%) representam apenas 14% de seu faturamento anual;
32 lojas, a Leitura. Base Minas Gerais;
20 lojas, a Livrarias Curitiba. Base Paraná;
13 lojas, a Cultura. Base São Paulo (abrirá mais 4 lojas ainda em 2012);
11 lojas, a Fnac. Base São Paulo;
7 lojas, a Travessa. Base Rio de Janeiro;
6 lojas, a Livraria da Vila. Base São Paulo (abrirá duas lojas em 2012 e mais 2 em 2013).

Esta concentração nas livrarias de rede também é facilitada pela migração do comércio em geral para os shoppings que, como têm um custo elevado para a manutenção de uma loja, viram uma barreira de acesso para as livrarias como menor capital. No ano 2000 o Brasil tinha 280 shoppings. Fechou 2011 com 430 shoppings (+ 53,57%). Em 2012 serão mais 43 e, por enquanto, estão previstos mais 31 para 2013. Para se ter uma ideia da força deste novo local de consumo, de compras, circulam nos shoppings 376 milhões de pessoas por mês. A população do Brasil é de 191 milhões de pessoas. Impressiona, não?

Não existe uma pesquisa confiável com relação ao número de livrarias existentes no Brasil. A ANL – Associação Nacional de Livrarias fez em 2009 um primeiro levantamento através de questionários enviados a diversos pontos de venda de livros, e chegou ao número de 2.980 “livrarias”. Livraria para a ANL é “uma empresa que oferece um bom acervo de livros em seu mix de produtos para venda.” Portanto, essa definição é muito vaga em relação ao censo comum de livraria. Talvez fosse melhor usar como parâmetro o número de exemplares no acervo de cada “livraria”. Por exemplo, acervo mínimo de 10% da produção anual de novos títulos em 1ª edição, o que, em relação à produção das editoras em 2010, seria de 1.871 exemplares por loja.

No levantamento de 2011 da ANL o número de livrarias chegou a 3.481. Como o país tem 5.564 municípios, além do Distrito Federal, teríamos a média de 0,63 livrarias por município. É claro que a distribuição dessas livrarias pelo território brasileiro acompanha a economia e a escolaridade de cada região geográfica. Os dados são os seguintes:
52,54% das livrarias na região Sudeste;
21,00% das livrarias na região Sul;
16,83% das livrarias na região Nordeste;
6,18% das livrarias na região Centro-Oeste;
3,45% das livrarias na região Norte;

A concentração nos diversos setores da economia do livro avança e fica maior a cada ano. Onde os livros serão vendidos em 2015?

domingo, 3 de junho de 2012

Amazon também no e-commerce físico no Brasil


Já está mais do que divulgado que a Amazon vai começar sua operação no Brasil ainda em 2012. O que não está claro é qual o tipo de operação: se somente o digital e/ou o e-commerce com produtos físicos também. Imagino que em novembro, no máximo, a operação começará com os livros digitais. O início da Amazon em 1995 foi com livros, mas os físicos.

Sou dos que acreditam que não teria nenhum sentido, econômico inclusive, a maior empresa de e-commerce do mundo, não trabalhar com todo seu mix de produtos no Brasil. O grande obstáculo para o início da operação com os produtos físicos é, claramente, a dificuldade logística da operação, isto é, como manter o padrão de entrega Amazon também no Brasil?

Ao longo dos últimos 11 anos a Rapidão Cometa Logística e Transportes S.A. foi representante autorizada da Fedex Express América Latina e Caribe. A Rapidão Cometa tem 70 anos de existência e sede em Recife. Atende todo o território brasileiro seja via filiais ou pontos de operação. Seguem alguns dados:
-45 filiais em 20 estados e DF;
-202 pontos de operação em todos os estados e DF, além de Fernando de Noronha;
-700 mil m2 de área construída e pátio de operações;
-3 mil veículos compõem a frota entre motocicletas e veículos utilitários leves e médios, além dos semipesados e pesados (as carretas);
-transporta containers, carga fracionada e pequenas encomendas tanto no aéreo quanto no rodoviário;
-Rapidão B2C é o serviço específico e diferenciado dentro da empresa para entregas domiciliares de pequenas encomendas ao consumidor final. Faz também a logística reversa, para os casos de troca;
-tem 9 mil funcionários;
-faz 12 milhões de entregas por ano.

Dia 29 de maio de 2012 saiu um comunicado informando a aquisição da Rapidão Cometa pela Fedex. As perguntas a serem respondidas são:
1-O que acontece/acontecerá no cenário econômico de varejo e/ou industrial que leva uma empresa de logística (a Fedex) a investir alguns milhões de dólares na aquisição de uma empresa representante?
2-Por que não continuar com a representação vigente há 11 anos?
3-Por que a necessidade de ter o controle total da operação nas mãos e não via uma representante?

Para essas perguntas vejo uma única resposta: a Amazon. Acredito que em 2013 a Amazon entrará no e-commerce brasileiro com tudo, com todo o seu mix de produtos. A Amazon é uma empresa de e-commerce. E-commerce só funciona se existir logística. Portanto, a infra-estrutura de logística já está sendo executada, preparada. Empresas, de todos os tipos, livrarias inclusive, preparem-se para a concorrência que vai chegar.

sábado, 26 de maio de 2012

As livrarias em um novo mercado e o preço único do livro


Com a divulgação em 15 de Maio de 2012 por parte da Associação Nacional de Livrarias, a ANL, do Levantamento Anual do Segmento de Livrarias feito junto a suas associadas para identificar o comportamento do setor livreiro em 2011, veio à tona, mais uma vez, a questão da “Lei do Preço Único do Livro”, dos descontos concedidos nos lançamentos, da concentração do mercado e do fechamento das pequenas livrarias.

Mais uma vez a tábua de salvação mencionada nas entrevistas é a “Lei do Preço Único do Livro”. O que é isso? De forma resumida, é o seguinte: durante um determinado período de tempo após o lançamento de um livro (seis meses ou um ano, por exemplo) não poderiam ser concedidos descontos na venda desse livro para o consumidor final, o leitor. No máximo, algo entre 5% e 10%.

Alguns pontos a serem observados: isso é legal, do ponto de vista da Lei? O que o consumidor final, o leitor, vai achar de não poder comprar mais esses livros com desconto?

Pesquisando na Lei maior, a Constituição, o Título VII trata da Ordem Econômica e Financeira e o capítulo 1 dos Princípios Gerais da Atividade Econômica. A seguir vem o artigo 170 que dispõe o seguinte:
“A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, (...), observando os seguintes princípios:
(...)
IV – livre concorrência
V – defesa do consumidor

Pesquisando um pouco mais cheguei ao CADE, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que pela Lei 8.884 de 11/06/1994 foi transformado em Autarquia. Essa Lei é conhecida como Lei antitruste e Lei antidumping. Seu artigo inicial diz o seguinte: Art. 1º Esta lei dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica, orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de iniciativa, livre concorrência, função social da propriedade, defesa dos consumidores e repressão ao abuso do poder econômico.(grifos meus)


Segue a definição do conceito de livre concorrência exposto na página do CADE:
Livre concorrência
O princípio da livre concorrência está previsto na Constituição Federal, em seu artigo 170, inciso IV e baseia-se no pressuposto de que a concorrência não pode ser restringida por agentes econômicos com poder de mercado. Em um mercado em que há concorrência entre os produtores de um bem ou serviço, os preços praticados tendem a se manter nos menores níveis possíveis e as empresas devem constantemente buscar formas de se tornarem mais eficientes, a fim de aumentarem seus lucros. Na medida em que tais ganhos de eficiência são conquistados e difundidos entre os produtores, ocorre uma readequação dos preços que beneficia o consumidor. Assim, a livre concorrência garante, de um lado, os menores preços para os consumidores e, de outro, o estímulo à criatividade e inovação das empresas. “

Apesar de leigo em Direito, entendo que é contra a Constituição a existência de uma lei que proíba descontos e que, portanto, também iria contra o interesse do consumidor que é o de obter, sempre, o menor preço em qualquer aquisição.

A grande questão é que o mercado do livro, no que diz respeito à comercialização, mudou. Em 1455 Gutenberg comercializou o primeiro livro impresso com tipos móveis de metal no Ocidente, a Bíblia. Depois, na prática, estabeleceu-se que o editor publica o livro e o distribuidor e as livrarias formaram uma cadeia de distribuição para a venda do livro para o leitor. Essa estrutura permaneceu por muito e muito tempo, até que, 540 anos depois, em 1995 a Amazon começou a venda de livros pela internet. No Brasil, também em 1995 (setembro), a Livraria Cultura foi a primeira a perceber que mudanças estavam no ar e começou sua operação nesse novo canal. Esse foi o primeiro marco divisório, a grande quebra de paradigma; o segundo será o “livro digital” e, mais em particular, sua comercialização, mas isso fica para outro post.

O mercado do livro também acompanha uma das características da economia mundial: a concentração por meio de fusões, aquisições e joint-ventures. No Brasil, o processo de concentração consolida-se em 2008, quando a Saraiva comprou a Siciliano. Com esse fato, outras livrarias como Cultura, Fnac, Travessa, Vila, Curitiba, Leitura etc, que já vinham abrindo lojas, tiverem que acelerar o ritmo.

Concomitante a isso, mas tendo início lá no final do séc xx, o comércio em geral começou o processo de migração para os shoppings. Como são espaços comerciais que têm custos maiores, isso contribui, mais ainda, para o processo de concentração. No ano 2000 existiam no Brasil 280 shoppings. Em 2011 já eram 430 (crescimento de 53,57%). Neste ano de 2012 devem ser inaugurados mais 43 e outros 31 já estão previstos para 2013. Circulam por mês, em média, em todos estes shoppings 376 milhões de pessoas. A população do país é de 191 milhões de pessoas. Portanto, grande parte do público comprador circula nos shoppings e, é claro, compra nos shoppings. As livrarias que lá não estão, principalmente as menores, vão perdendo faturamento a cada ano, salvo raras exceções.

É um cenário assustador para as pequenas livrarias? É sim. Estão sendo pegas de surpresa? Entendo que não, pois lá se vão mais de 15 anos quando os sinais e os exemplos de novas formas de comercialização do livro começaram a aparecer. Na verdade não foram se preparando e não investiram em atendimento, serviços e, principalmente, na internet, no e-commerce. Eu mesmo venho escrevendo aqui sobre a importância do e-commerce para o mercado do livro desde 2009.

Ainda existe chance de sobrevivência para as pequenas livrarias? A resposta é SIM, mas, a cada ano que passa, isso será mais difícil. E a saída, com certeza, não é uma “intervenção” do governo para controlar preços finais de venda ao consumidor. As livrarias estão no mercado de varejo, e varejo é um processo dinâmico. Portanto, não dá mais para ficar atrás do balcão esperando o cliente entrar na loja. Há que se ir até ele. O melhor caminho e o mais rápido é pela web.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Saiu na mídia #9 A indústria gráfica, face-a-face com o futuro


Compartilhando o ótimo artigo de André Borges Lopes da Bytes & Types

Artigo: "A indústria gráfica, face-a-face com o futuro (Parte I)"*
Fonte: Bytes & Types   
Qua, 26 de Outubro de 2011 / 10:29
De acordo com Arthur C. Clarke, ideias novas atravessam três etapas:
  1. Isso não funciona;
  2. Pode ser que funcione, mas não vale a pena;
  3. Eu sempre soube que era uma excelente idéia!
 Em julho de 2001, fui convidado pela Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica para ministrar um workshop sobre "fotografia digital". Na época, essa nova tecnologia ainda engatinhava, e era vista com profunda desconfiança pelos fotógrafos e produtores gráficos. Câmeras digitais profissionais eram caríssimas e precárias: as então recém-lançadas Nikon D1 custavam mais de US$ 5.000 (só o corpo, nos EUA) e ofereciam de resolução singelos 2,6 megapixels. Mesmo aqui em São Paulo, pouquíssimos laboratórios recebiam arquivos digitais, e pediam entre 24 a 48 horas para entregar as fotos em papel.
Nesse workshop, deixei claro que a qualidade das fotos digitais da época era ainda muito inferior à das fotos convencionais, desde que adequadamente escaneadas. Apesar disso – e me arriscando no pantanoso terreno da futurologia – eu não tinha dúvidas de que a adesão dos fotógrafos ao digital no segmento profissional (em especial no fotojornalismo) seria extremamente rápida. As vantagens oferecidas pela facilidade e agilidade do manuseio dos arquivos eletrônicos, comparadas aos transtornos da revelação química e do escaneamento, davam aos fotojornalistas digitais um diferencial competitivo que compensava largamente todas as deficiências de qualidade. Além disso, era visível que as câmeras digitais estavam evoluindo em velocidade assustadora.
Por outro lado, eu não acreditava numa entrada rápida das câmeras digitais na fotografia amadora, nas fotos do dia-a-dia, tipo "viagem de férias" e "aniversário das crianças". Para o usuário amador, havia as dificuldades em transferir, selecionar e editar os arquivos num computador, gravar um CD-R para levar ao laboratório, aguardar os longos prazos de entrega. Um inferno perto da praticidade dos quiosques tipo "one-hour photo", nos quais deixávamos os rolinhos de filme 35mm e voltávamos alguns minutos depois para pegar as ampliações já prontas para serem colocadas nos tradicionais albuns de fotos – os quais seriam depois mostrados e compartilhados entre amigos e parentes.
Se minha previsão quanto ao fotojornalismo se revelou acertada, a segunda foi um fiasco. Cinco anos depois do workshop, câmeras de filme já eram franca minoria nas festinhas de crianças e, de lá para cá, simplesmente desapareceram. O surgimento dos sites de relacionamento social na internet – Orkut, Facebook e congêneres – e facilidade de visualizar fotos nas telinhas LCD dos celulares reduziram a uma fração o mercado da ampliação fotográfica em papel. Hoje, milhões de "albuns virtuais" de fotografias são compartilhados diariamente na rede mundial. Na última feira Photo Image Brazil – realizada no mês de agosto em São Paulo – já não se encontrava uma única câmera analógica nos estandes dos grandes fabricantes.
Revoluções expressas
Descontado o meu erro de previsão, posso dizer que essa revolução ultra-rápida da fotografia digital não chegou a ser exatamente uma surpresa para mim. Na época dessa palestra em 2001 eu já havia vivenciado pelo menos três eventos semelhantes. O primeiro havia sido a substituição das filmadoras domésticas Super-8 pela fitas de vídeo VHS, no início dos anos 1980 – em que pese o fato de que quase todos os profissionais de imagem reclamassem da precaria qualidade de gravação dos primeiros vídeo-cassetes. A segunda, alguns anos depois, havia sido a derrocada dos grandes e charmosos LPs de vinil pelas insonsas caixinhas de CD, mesmo enfrentado forte oposição dos amantes do design gráfico e dos especialistas em música, que sempre reclamaram do "som quadrado" dos arquivos digitais de áudio.
Na terceira revolução eu não havia sido apenas testemunha: fui parceiro e miltante. Trata-se da  substituição na indústria gráfica dos sistemas tradicionais de pré-impressão pelo "Desktop Publishing" (DTP). O conceito de DTP (Editoração Eletrônica, em português) havia surgido em 1985 – quando foi possível reunir a interface gráfica dos Macintosh, a linguagem de impressão PostScript, as fontes tipográficas digitais, as impressoras de imagem a laser e os primeiros aplicativos de layout de página (mais detalhes no box abaixo). No final de 1995, pouco mais de dez anos após esses lançamentos pioneiros, pude desenvolver com alguns entusiastas do DTP uma "apresentação de conceito" em parceria pelo estúdio Comdesenho (do qual eu era sócio), pelo birô Paper Express e pela gráfica Camargo Soares:  um bonito calendário de parede da Chapada Diamantina totalmente produzido em sistemas de editoração eletrônica, do escaneamento das imagens aos fotolitos limpos.
Essa revolução do DTP só agora está sendo concluída, no momento em que consolida-se a hegemonia dos sistemas Computer-to-Plate (gravação direta dos arquivos nas matrizes de impressão, sem uso de fotolito) e a completa transferência da pré-impressão para dentro das gráficas. Mas em 1995 já estava evidente que não precisávamos mais das grandes empresas de fotocomposição, paste-up, escaneamento, fotolito e provas – que por décadas haviam dominado o mercado de "prepress" em todo o mundo.
Vistos em retrospecto, esses primeiros dez anos do DTP passaram como num sopro. Mas não faltaram naquela época as legiões de céticos que duvidavam que aqueles "computadorzinhos ridículos de US$ 10 mil" iriam substituir os milhões de dólares então investidos nas grandes estações de fotocomposição, escaneamento e tratamento de imagem. Ou que iriam desempregar os milhares de profissionais de paste-up, retoque e montagem que trabalhavam nas empresas do setor. O tsunami do DTP pegou todos eles no contrapé. Tradicionais fabricantes de equipamentos como Mergenthaler, Monotype e Compugraphic – que haviam sobrevivido à substituição dos linotipos pela composição a frio duas décadas antes – não resistiram à nova mudança: desapareceram ou tornaram-se irrelevantes, para a sorte da Linotype, ITC, Aldus, Adobe, Quark, Corel e muitos outros que investiram nas novas tecnologias.
O beijo do tempo
Em resumo, na virada do milênio em 2001 já não faltavam alertas a nos preparar para o que ainda vinha pela frente. Mas o fato é que muita gente preferira não ouví-los. Há cerca de dez anos, lembro-me de escutar da boca de um competente jornalista – então trabalhando numa das maiores revistas de informática do Brasil – que a distribuição de música via arquivos digitais estava condenada ao insucesso: havia sido estigmatizada como "coisa de gente pobre", relegada aos office-boys e seus toscos aparelhos MP3 Players. Um ano depois dessa conversa, Steve Jobs nos apresentou seus iPods e iTunes, revolucionando não apenas a maneira que nós ouvimos música, mas também todo um mercado então dominado pelas grandes gravadoras.
O curioso é que eu passei boa parte da minha infância lendo Júlio Verne e invejando as pessoas que viveram nos final do século XIX, quando novas idéias e invenções surgiam a cada dia para revolucionar o mundo. Descobri, já "coroa", que não tinha motivos para inveja: nossa geração vive tempos infinitamente mais revolucionários e a cada dia somos apresentados a novos produtos, idéias e conceitos. Entretanto, apenas uma fração dessas novidades é tocada pelo "beijo do tempo": essa capacidade mágica e imponderável de mudar o mundo. Ou, como no slogan atribuido a Jobs, "to make a dent in the universe".
Eu me recordo do pressentimento de estar diante desse tipo de coisa em 1987. Eu já iniciava meu trabalho na área editorial e gráfica quando um amigo da faculdade me mostrou pela primeira vez um Mac IIx diagramando páginas numa versão pioneira do software QuarkXPress. Lembro-me de ver o aplicativofuncionando e pensar "Danou-se, o mundo vai desbar à nossa volta". Senti o mesmo pela segunda vez em 1998, quando outro amigo me pediu para postar na sua "página pessoal" na internet (nem se falava ainda em "blog") um texto sobre o uso de maconha que eu havia escrito para uma revista de universitários: poucos dias depois, um marinheiro porto-riquenho servindo em Guam, no Oceano Pacífico, entrou em contato comigo perguntando se eu podia providenciar uma versão em inglês para republicação.
A sensação também estava comigo em 1994, quando vi em ação uma impressora digital E-Print 1000, primeira geração das hoje consagradas HP Indigo. E repetiu-se na feira Drupa de 2008, ao sermos apresentados às novas inkjet industriais coloridas de alta produtividade, rotativas que produzem impressos digitais de baixo custo em uma velocidade assustadora. Para mim, está evidente que o ciclo das matrizes de tipos móveis, inaugurado por Gutemberg e seus contemporâneos no século XV, começa a se esgotar rapidamente – dando lugar a uma nova forma de pensar a transmissão de informações que ainda usa papel pintado como suporte.
Estudando com o inimigo
Em agosto desse ano, topei novamente com essa sensação de assombro: um amigo de Fortaleza postou no Facebook a foto de um outdoor onde se lia: Tablet substitui livros. Trata-se de propaganda um colégio cearense anunciando o projeto "Sistema Ari de Sá de Ensino Digital": a partir de 2012, os alunos do Ensino Médio poderão ter os livros didáticos e conteúdos pedagógicos, produzidos pelo SAS oferecidos em dispositivos digitais de leitura, os famosos "tablets" (no caso, iPads da Apple). Sobre o assunto, há também um vídeo promocional no You Tube: http://youtu.be/v2xeHMWHy0k.
Nesse caso, o assombro não se deveu ao inesperado: todos sabemos que em países do primeiro mundo esse processo já está em andamento. Escolas particulares de elite aqui em São Paulo também começam a incluir alguns livros digitais no cardápio dos seus alunos. O assombro se dá pela absurda proximidade dessa idéia de "substituição". Não é mais na distante Coréia do Sul, é logo ali em Fortaleza; não é daqui a dez anos, é dentro de poucos meses. E o projeto do Ari de Sá traz um conceito importante: não são "livros digitais", trata-se de um "sistema de ensino" que foi convertido para iPad. "Sistema de ensino digital": anote esse conceito, ele será importante. Falarei mais dele num próximo artigo.
Para completar os agouros de agosto, no último dia 22 a RISI publicou um estudo intitulado "O impacto da mídia em tablets nos mercados de papéis editoriais" que pode ser visualizado nesse link, avaliando qual o efeito do crescimento exponencial da venda desses dispositivos de leitura no mercado papeleiro. Num horizonte próximo, o estudo conclui que "ainda que os tablets possam causar um efeito positivo nos hábitos de leitura, estima-se que o uso de papel em revistas irá cair pelo menos 20% nos próximos 5 anos".
Não é preciso ser do ramo para concluir que impacto igual ou maior recairá sobre o segmento da indústria gráfica dedicado a atender esse mercado. Estamos falando de nada menos que algumas dezenas de grandes empresas, com milhões de dólares investidos em sofisticadas impressoras offset planas e rotativas, prestes a enfrentar os fantasmas de uma crescente capacidade ociosa e de uma concorrência predatória brutal pelo que restar do mercado.
Para enxergar as estrelas
"O livro em papel nunca vai acabar""a informação impressa transmite mais confiabilidade""os arquivos digitais são voláteis, o que está no papel é perene" – são algumas colocações que nos acostumamos a ouvir hoje da boca dos que se recusam a enxergar a tempestade à sua frente. Todos esses argumentos são verdadeiros, mas não se esqueçam que também era verdade que o Super 8 tinha mais qualidade que os antigos VHS, que o som de um bom LP de vinil era melhor que o dos CDs, que as ligações de celular tem menos qualidade e custam muito mais caro que as de um telefone fixo. Por acaso alguma dessas verdades teve o poder de segurar o tsunami das mudanças?
Para mim é evidente que o livro impresso não vai acabar, ao menos não dentro do nosso horizonte de previsão. Também me parece óbvio que, por décadas, haverá leitores preferindo receber seus jornais e revistas em papel. Da mesma forma, dificilmente a educação dos seres humanos poderá prescindir tão cedo dos livros e demais publicações impressas. Mas é preciso entender que não é disso que estamos falando.
Sejamos conservadores e vamos admitir que, num prazo de cinco anos, algo como 30% do mercado de livros comerciais, 20% do mercado das grandes revistas e 10% do mercado de livros didáticos migre para os leitores digitais. Dá para compreender o tamanho da confusão na qual a indústria gráfica estará metida nessa década que se inicia? Adotar a tática de avestruz e fazer de conta que nada vai acontecer é, sem dúvida, a pior alternativa. Desde a primeira revolução industrial, a História está cheia de exemplos de empresas grandes e poderosas que desapareceram em poucas décadas por não conseguirem prever e se adaptar aos novos tempos.
Por outro lado, também não é caso para pânico e desespero. Recorro a uma figura de linguagem do último (e na minha opinião o melhor) discurso do reverendo Martin Luther King, o célebre I've Been to the Mountaintop:
"Somente quando está muito escuro é que você consegue ver as estrelas"
Mas isso discutiremos no nosso próximo texto.
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DESKTOP PUBLISHING, UMA CRIAÇÃO COLETIVA
Ao contrário do que supõe a revista Veja (que na sua edição nº 2238 atribui unicamente a Steve Jobs a gênese do conceito de Desktop Publishing), poucas criações tão revolucionárias no mundo da tecnologia foram mais coletivas que a do DTP. Sem entrar no mérito da ordem de importância de cada um, podemos com facilidade montar uma grande lista de  “pais” dos produtos que foram os marcos iniciais da editoração eletrônica.
• Steve Jobs da Apple ao colocar num computador pessoal relativamente barato (um Macintosh custava em 1985 cerca de US$ 2.500, pouco mais de US$ 5.200 em dinheiro de hoje) uma interface gráfica de usuário (Graphic User Interface) que não apenas usava recursos sofisticados de tipologia como permitia a construção de documentos com o conceito de WYSIWYG (What You See Is What You Get - O que você vê é o que você obtém).
• John Warnock e Charles Geschke, fundadores da Adobe, ao inventar e desenvolver a linguagem PostScript – que permitia aos computadores enviar às impressoras arquivos relativamente pequenos, contendo código com as instruções para que fossem construídos nos interpretadores locais (que chamamos atualmente de RIPs, mas já foram conhecidos como "placas PostScript") os gigantescos arquivos rasterizados de alta resolução das páginas gráficas. Posteriormente, a Adobe lançaria também três aplicativos fundamentais do DTP: o Illustrator, o Photoshop e – bem mais tarde – o Acrobat. (1984-1989)
• Jobs, novamente, ao lançar em 1985 a Apple Laser Writer, uma impressora laser P&B de pequeno porte que reunia um engine de impressão da Canon com uma placa processadora de PostScript. Não foi a primeira laser de pequeno porte (essa primazia cabe à HP) mas foi a primeira impressora de baixo custo dedicada à impressão de páginas gráficas. Embora fosse bem mais cara do que um Mac (ela custava na época US$ 7.000) ainda era 10 vezes mais barata que as laser gráficas da Xerox e da IBM.
• Aaron Burns, co-fundador da ITC, que lançou em 1985 as primeiras famílias de fontes tipográficas vetoriais em linguagem PostScript.
• Paul Brainerd, fundador da Aldus, que ao lançar em 1985 o PageMaker completou o quebra-cabeça do DTP com a peça que faltava: um aplicativo de layout de páginas baseado na interface gráfica no Mac e na linguagem PostScript. A Aldus ainda lançaria o FreeHand, de ilustração, e – já incorporada à Adobe – forneceu o núcleo do que viria a ser o InDesign.
• Jonathan Seybold, um respeitado técnico e consultor especialista em artes gráficas e pré-impressão, que enxergou o potencial dessas novas tecnologias em desenvolvimento e teve um importante papel ao apresentar essas pessoas umas às outras e orientá-los para que atendessem aos requisitos do setor gráfico. (1983-1987)
• Wolfgang Kummer, da Linotype, tradicional fabricante de equipamentos de pré-impressão, que decidiu incorporar o PostScript às suas fotocomponedoras a laser, desenvolvendo as primeiras imagesetters (Linotronic 100, 300 e 500) e abrindo para o DTP a opção das saídas em alta resolução. Mais tarde, a Linotype também se tornaria importante desenvolvedora de fontes tipográficas PostScript e, associada a Hell, produziria os primeiros scanners de cilindro de alta qualidade compatíveis com a tecnologia do DTP. (1983-1986)
• Tim Gill, fundador da Quark, que lançou em 1987 o então revolucionário QuarkXPress, elevando a paginação em DTP a um nível de profissionalismo até então inédito.
• Por fim, podemos incluir indiretamente nessa lista o Douglas Engelbart, que inventou o mouse na década de 60, embora somente em 1981 ele começasse a ser utilizado sem muito entusiasmo pela Xerox (que o incluiu como periférico de seu computador Star). Poucos anos depois, a Apple solicitou à Xerox as especificações do dispositivo para que pudesse incluir um mouse junto com o seu Macintosh para facilitar enormemente o manuseio da interface gráfica.

De como chegamos a este estado de coisas

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