O ano de 2009 agrega algumas datas comemorativas relacionadas ao romance policial, ao romance noir. São os 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (19.01.1809) e os 160 anos de sua morte (07.10.1849). São os 150 anos do nascimento de Arthur Conan Doyle (22.05.1859) e os 50 anos da morte de Raymond Chandler (26.03.1959). Também são os 20 anos da morte de Georges Simenon (04.09.1989). E, estes, são somente alguns dos autores ligados ao romance policial/noir que têm suas datas de nascimento e/ou morte num ano terminado no algarismo 9. Mera coincidência ou algum mistério a ser desvendado? Neste caso, qual o detetive mais indicado para resolvê-lo?
Edgar Allan Poe é considerado o criador do romance policial. Seu conto "Os Crimes da Rua Morgue", publicado em abril de 1841 na Graham´s Magazine, é a primeira narrativa do gênero que, até hoje, atrai uma legião de leitores. É neste conto que aparece a figura do detetive que será a base para outros detetives do gênero policial enigma, como os que virão a ser criados por Conan Doyle, Agatha Christie e George Simenon dentre outros.
As aventuras criadas por Allan Poe são ambientadas na Paris do séc XIX e seu detetive, Monsieur C. Auguste Dupin, tem as seguintes características, no resumo de Sandra Reimão: "é uma máquina de pensar, que, a partir de vestígios, pistas, indícios, consegue, através de uma dedução lógica rigorosa, reconstruir uma história, um fato passado, e assim descobrir o(s) culpado(s)."
Outras características criadas por Allan Poe para o gênero policial são:
. detetive desvenda os casos, mas não os escreve;
. mora com um amigo que é o responsável pelo registro dos casos, isto é, é o narrador;
. existe um chefe de polícia que procura o detetive para ajudar a desvendar os casos inexplicáveis;
. na revelação final o detetive reconstrói a história para esclarecer como chegou à solução do caso.
Mas, Edgar Allan Poe não levou adiante seu detetive que aparece somente em duas outras histórias: "O Mistério de Marie Rogêt" em 1842 e "A Carta Roubada" em 1845. Entretanto, a base do romance policial do tipo enigma estava criada. Para o sucesso do gênero, muito contribuiu a opção pelo narrador-memorialista. Através dele o leitor é guiado e vai seguindo os passos, - mas sempre atrás -, do detetive. Portanto, fica o desafio de tentar desvendar o mistério antes do próprio detetive. Porém, nem todos os detalhes do processo de análise dos fatos, dos indícios, das pistas são revelados pelo narrador-memorialista, que também não os conhece pois, o detetive, em determinada altura da história não "fala" com ele e/ou some, desaparece por algum tempo. Assim, a resolução do mistério é encaminhada para um gran finale, onde o detetive, através de seu parceiro narrador, fará o relato de todo seu processo de investigação e análise, culminando na revelação final.
Esta, portanto, foi a primeira dupla de detetive e narrador-memorialista: C. Auguste Dupin e seu anônimo amigo. Duas outras duplas completam o que é considerado o "trio de ouro" do romance policial de tipo enigma: Sherlock Holmes e Dr. Watson, criados por Arthur Conan Doyle, e Hercule Poirot e Capitão Hastings, criados por Agatha Christie.
O escocês Arthur Conan Doyle escreve em sua autobiografia "Memórias e Aventuras", publicada em 1924 que "... o magistral detetive de Poe, M. Dupin, havia sido um de meus heróis desde a infância." Portanto, a base para o detetive Sherlock Holmes, criado por Conan Doyle, remonta a Edgar Allan Poe. Conan Doyle tem o mérito de desenvolver seu detetive, de dar-lhe determinadas características e personalidade. Holmes é misógino, morfinômano, cocainômano, sofre de melancolia, joga xadrez, adora tocar violino e fumar cachimbo, além de ser um expert na arte do disfarce, da transformação/caracterização em outra pessoa. Atrevo-me a dizer que o gênero romance policial teve seu desenvolvimento, sua continuação a partir de Conan Doyle, sendo Poe o criador.
A personagem Sherlock Holmes aparece pela primeira
vez no romance "Um Estudo em Vermelho" publicado em 1887. Holmes aparecerá em mais três romances: "O Signo dos Quatro" em 1890, "O Cão dos Baskerville" em 1902 e "O Vale do Medo" em 1915. Além disso Holmes resolverá casos em outros 56 contos publicados entre 1891 e 1927.

Em 1920 a dupla criada por Agatha Christie, Poirot e Hastings, aparece pela primeira vez em "O Misterioso Caso de Styles". Não sei se notaram, mas são exatos 79 anos depois da criação de Dupin; mas uma vez aparece o algarismo 9.
Outro importante detetive foi criado
por Georges Simenon: o Comissário Maigret. Sua primeira aparição foi escrita sob o pseudônimo de Christian Brulls, e acontece em setembro (mês 9) de 1929. Alguém ainda acha que é mero acaso todas estas datas terminadas com o algarismo 9?
Continua...
Fontes de pesquisa:
Christie, Agatha. O Misterioso Caso de Styles. BestBolso, 2009.
Doyle, Arthur Conan. Sherlock Holmes, edição definitiva, vol 1. Jorge Zahar, 2006.
Poe, Edgar Allan. Histórias de Crime e Mistério. Ática, 2001.
____________. Histórias Extraordinárias. Companhia de Bolso, 2008.
Reimão, Sandra. Literatura Policial Brasileira. Jorge Zahar, 2005.
http://www.livrariadocrime.com.br/?secao=entrevistas&cd_entrevista=13
http://www.poebrasil.com.br/
http://acbr.luky.com.br/index.php
http://www.lpm-editores.com.br/
Tem por objetivo trocar ideias sobre livros, leitura, livrarias físicas, livrarias virtuais, e-commerce B2B e B2C, formação de livreiros, cauda longa, nichos de mercado, fidelização de clientes, história do livro, direitos autorais, acesso, e-book, e-reader, livro digital, bibliodiversidade. Enfim, mercado editorial em geral.
domingo, 30 de agosto de 2009
Romance Policial 1: Enigma
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Crise? Na Web, Não
A e-bit divulgou a 20a edição da pesquisa Webshoppers. Pelos dados apresentados, a crise, no primeiro semestre de 2009, passou longe da web, do e-commerce. A pesquisa é feita em mais de 1.800 lojas virtuais e os dados são coletados junto aos compradores online, imediatamente após a compra na web.
O faturamento nestes seis meses inicais de 2009 foi
de R$4,8 bilhões, o que equivale a um crescimento de 27% em relação ao mesmo período de 2008, que teve o faturamento de R$3,8 bilhões. Isso comprova que, a cada dia, aumenta a quantidade de pessoas que também compram pela web. No espaço de um ano 3,7 milhões de pessoas, de novos e-consumidores, realizaram pelo menos uma compra na web. Na metade de 2008 eram 11,5 milhões de e-consumidores e na metade de 2009 o número está em 15,2 milhões.
Segundo a pesquisa 86% dos consumidores brasileiros
estão satisfeitos com o comércio virtual. "Esse alto índice de confiança é fruto da credibilidade oferecida pelo e-commerce, que apresenta diversas condições de pagamento para seu consumidor, que pode parcelar sua compra em até 12x sem juros, além da isenção do frete (...). Outra facilidade já conhecida no setor é a possibilidade de não ter que sair de casa e enfrentar os problemas característicos das grandes cidades."
Com relação aos produtos mais vendidos a categoria livros e assinaturas de revistas e jornais continua em primeiro lugar; depois vêm saúde, beleza e medicamentos em segundo lugar; informática está em terceiro.
Mas, o dado mais importante da pesquisa, no meu modo de lê-la, diz respeito a uma tendência, já comentada aqui no blog em 29.03.2009, que é a descentralização do e-commerce. A cada diz mais e mais lojas são criadas na web, desde grandes varejistas como Wal-Mart e Ponto Frio, até pequenas empresas que vislumbraram a oportunidade que a web oferece. O que antes era uma barreira, devido ao custo, para a entrada de pequenas empresas, isto é, a necessidade de contratar profissionais e/ou empresas para desenvolver uma loja virtual, além da permanente manutenção e atualização, essa barreira não existe mais. Hoje, por apenas R$ 49,90 por mês, várias empresas já disponibilizam uma loja básica montada. É só pesquisar na própria web. Uma outra dificuldade dizia respeito ao recebimento dos pagamentos, que envolviam segurança com os dados dos cartões dos e-consumidores e o medo por parte dos lojistas desses mesmos cartões serem falsos ou roubados. Também não existe mais. Várias empresas já oferecem a terceirização de todo processo de pagamento/recebimento e com segurança. Mais uma vez, é só pesquisar na própria web. Com essas facilidades aumentou o número de lojas virtuais, aumentou a concorrência e ganham os consumidores e os fornecedores que passam a ter mais opções para comprar e vender.
Os números da descentralização são os seguintes:
. O top1, a B2W que reúne Submarino + Americanas + Shoptime + Blockbuster, continua sendo a primeira em vendas. Entretanto teve diminuida sua participação no mercado. No primeiro semestre de 2008 representava 41,50% e, no primeiro semestre de 2009, teve participação de 36%. É uma diminuição de 5,50%.
. Os top10 detinham 76,30% do mercado e agora têm 74,10%. Perderam, portanto, 2,30%.
. Os top20 passaram de 85,60% para 83,80%. Diferença de 1,80%.
. Os top50 já tiveram 91,90% e agora têm 90,30%. Perderam 1,60%.
Como o mercado de e-commerce continua crescendo, as perdas acima foram para onde? A resposta está nos números das empresas abaixo da posição 50 do ranking, a long tail, a cauda longa. Sua participação no primeiro semestre de 2008 era de 8,10% do mercado e, neste semestre inicial de 2009, pulou para 9,70%. São mais 1,60% e a tendência é a continuação dessa descentralização, o que é muito bom.
Portanto, e mais uma vez, sua livraria já está na web ou vai continuar de fora deste mercado?
O faturamento nestes seis meses inicais de 2009 foi
de R$4,8 bilhões, o que equivale a um crescimento de 27% em relação ao mesmo período de 2008, que teve o faturamento de R$3,8 bilhões. Isso comprova que, a cada dia, aumenta a quantidade de pessoas que também compram pela web. No espaço de um ano 3,7 milhões de pessoas, de novos e-consumidores, realizaram pelo menos uma compra na web. Na metade de 2008 eram 11,5 milhões de e-consumidores e na metade de 2009 o número está em 15,2 milhões.Segundo a pesquisa 86% dos consumidores brasileiros
estão satisfeitos com o comércio virtual. "Esse alto índice de confiança é fruto da credibilidade oferecida pelo e-commerce, que apresenta diversas condições de pagamento para seu consumidor, que pode parcelar sua compra em até 12x sem juros, além da isenção do frete (...). Outra facilidade já conhecida no setor é a possibilidade de não ter que sair de casa e enfrentar os problemas característicos das grandes cidades."Com relação aos produtos mais vendidos a categoria livros e assinaturas de revistas e jornais continua em primeiro lugar; depois vêm saúde, beleza e medicamentos em segundo lugar; informática está em terceiro.
Mas, o dado mais importante da pesquisa, no meu modo de lê-la, diz respeito a uma tendência, já comentada aqui no blog em 29.03.2009, que é a descentralização do e-commerce. A cada diz mais e mais lojas são criadas na web, desde grandes varejistas como Wal-Mart e Ponto Frio, até pequenas empresas que vislumbraram a oportunidade que a web oferece. O que antes era uma barreira, devido ao custo, para a entrada de pequenas empresas, isto é, a necessidade de contratar profissionais e/ou empresas para desenvolver uma loja virtual, além da permanente manutenção e atualização, essa barreira não existe mais. Hoje, por apenas R$ 49,90 por mês, várias empresas já disponibilizam uma loja básica montada. É só pesquisar na própria web. Uma outra dificuldade dizia respeito ao recebimento dos pagamentos, que envolviam segurança com os dados dos cartões dos e-consumidores e o medo por parte dos lojistas desses mesmos cartões serem falsos ou roubados. Também não existe mais. Várias empresas já oferecem a terceirização de todo processo de pagamento/recebimento e com segurança. Mais uma vez, é só pesquisar na própria web. Com essas facilidades aumentou o número de lojas virtuais, aumentou a concorrência e ganham os consumidores e os fornecedores que passam a ter mais opções para comprar e vender.
Os números da descentralização são os seguintes:
. O top1, a B2W que reúne Submarino + Americanas + Shoptime + Blockbuster, continua sendo a primeira em vendas. Entretanto teve diminuida sua participação no mercado. No primeiro semestre de 2008 representava 41,50% e, no primeiro semestre de 2009, teve participação de 36%. É uma diminuição de 5,50%.
. Os top10 detinham 76,30% do mercado e agora têm 74,10%. Perderam, portanto, 2,30%.
. Os top20 passaram de 85,60% para 83,80%. Diferença de 1,80%.
. Os top50 já tiveram 91,90% e agora têm 90,30%. Perderam 1,60%.
Como o mercado de e-commerce continua crescendo, as perdas acima foram para onde? A resposta está nos números das empresas abaixo da posição 50 do ranking, a long tail, a cauda longa. Sua participação no primeiro semestre de 2008 era de 8,10% do mercado e, neste semestre inicial de 2009, pulou para 9,70%. São mais 1,60% e a tendência é a continuação dessa descentralização, o que é muito bom.
Portanto, e mais uma vez, sua livraria já está na web ou vai continuar de fora deste mercado?
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Uma Nova Ameaça à Circulação dos Livros?
Esta semana a imprensa brasileira repercutiu uma notícia sobre a Amazon e seu
aparelho leitor
para livros digitais, o Kindle. A notícia, o fato, foi o seguinte: a Amazon descobriu que dois livros digitais vendidos através de seu site, "A Revolução dos Bichos" e "1984" (as edições brasileiras são atualmente da Cia das Letras), ambos de George Orwell, eram piratas, isto é, a empresa que os disponibilizou para venda no site da Amazon não detinha os direitos para tal.
Que fez a Amazon, então? Segundo o comunicado oficial, parcialmente reproduzido na Ilustrada da Folha de São Paulo no dia 22.07.2009, "quando fomos notificados pelos donos dos direitos, nós removemos as cópias do nosso sistema e dos dispositivos dos clientes e os ressarcimos."
Algumas questões importantes se impõem para discussão:
1-a Amazon, ao não checar a procedência dos produtos que disponibiliza para venda, acabou por
vender produtos piratas. Isto pode ser considerado como receptação de mercadoria roubada, tendo em vista que os direitos autorais não foram respeitados. Por analogia, é o mesmo que lojas de reprodução xerográfica venderem cópias de livros em xerox nas faculdades. Ainda no comunicado oficial, a Amazon reconhece o erro e diz que "... nós estamos mudando nossos sistemas de modo que, no futuro, não vamos mais remover livros dos dispositivos de clientes em circunstâncias como estas." Atenção para a expressão "em circunstâncias como estas". Quer dizer que, em outras circunstâncias, podem vir a deletá-los, é isso? E em quais circunstâncias?
2-e o que fez a Amazon para corrigir o erro da venda de produtos ilegais? Sem prévio aviso a nenhum dos clientes e com o apertar de algumas teclas, remove, deleta,
e à distância, as cópias digitais dos aparelhos Kindle, que são propriedade privada das pessoas que os compraram, tanto as cópias quanto os aparelhos. Pelo menos era o que se imaginava. Essa possibilidade de deletar cópias digitais nos aparelhos Kindle não era do conhecimento de ninguém. Uma pessoa comprou um produto, a cópia digital, mas, na prática, não é a dona dele. Isto vai gerar muita discussão na nossa sociedade de consumo e vai por em cheque a percepção de valor atribuída ao livro digital em comparação com o exemplar físico. Mais uma analogia: em 2007 a Justiça brasileira determinou que a editora Planeta recolhesse das livrarias e do seu estoque os exemplares da biografia de Roberto Carlos escrita por Paulo Cesar de Araujo. Entretanto, ninguém foi à casa das pessoas que já tinham comprado o livro e o pegou, com ou sem autorização, nem se exigiu que as pessoas os devolvessem.
3-atualmente a Amazon domina a venda de e-books. Porém, utiliza uma estratégia que não é boa para a concorrência e torna as editoras dependentes, pois seus e-books SÓ podem ser lidos no Kindle, que ela desenvolveu e vende. Nesta mesma semana a Barnes & Noble , maior rede de livrarias físicas do mundo, anunciou que a partir do dia 20.07.2009, passou a ser também a maior livraria de e-books com uma oferta inicial
de 700 mil títulos; destes, 500 mil podem ser lidos gratuitamente, graças a uma parceria com o Google, pois são de domínio público. Os outros 200 mil são vendidos ao preço de U$ 9,99. Mas, o mais importante é que, ao contrário da Amazon, que obriga a compra do seu leitor, o Kindle, para a leitura dos livros, a Barnes & Noble permitirá que os e-books sejam lidos em vários dispositivos, como no computador ou em smartphones, como o iPhone e o Blackberry. Este é um ponto chave para as editoras pois, se se sujeitarem a que os e-books só possam ser lidos em determinados aparelhos, perderão muito nas negociações futuras. A hora de definir a independência editorial é agora enquanto os e-books ainda não são uma parcela importante do faturamento das editoras. Imagine se, para ouvir um CD ou ver/ouvir um DVD você precisasse de um aparelho específico para cada fornecedor desses conteúdos? Quantos aparelhos teríamos que ter?
4-mas, o ponto mais importante, o crucial, é que a Amazon, ao ter a possibilidade de deletar à distância o conteúdo de um livro digital anteriormente vendido, abre a brecha para aprimorar a CENSURA à circulação das ideias. No caso será uma censura a posteriori. Explico-me melhor. A história está repleta de exemplos de apreensão e queima de livros (físicos) por regimes e governos autoritários. Estão aí os exemplos da queima de livros na Alemanha nazista, ou a proibição do livro "Os Versos Satânicos", de Salman Rusdie pelo regime dos aiatolás do Irã. No Brasil mesmo, durante o regime militar, ocorreu apreensão de livros, desde O Capital, de Marx, até A Capital, de Eça de Queiróz. Essas ações dependeram do emprego de força física, do levantamento de informações para saber quem tinha os livros e onde estavam, de ir no local e recolhê-los etc, etc. E mesmo, assim, sempre seria impossível recolher e destruir todos os exemplares. Agora, imagine o mundo daqui a uns cem anos, vá lá, onde os e-books já serão muito significativos - se não a maior parte do suporte para livros -, imagine a possibilidade de um governo ou uma empresa privada resolver que determinado livro não deverá mais ser lido? Com um simples apertar de teclas, as ideias que possam incomodar ou vir a incomodar qualquer pensamento autoritário de plantão serão fácil, e rapidamente, eliminadas. Essa possibilidade, desnudada mesmo que sem querer pela Amazon, caso não seja coibida pela sociedade democrática, transformar-se-á no sonho de consumo de qualquer pretendente a ditador.
Esta história dos livros deletados ainda tem um lado bem irônico, pois ocorreu, justamente, com os livros de George Orwell, nos quais ele solta o verbo contra regimes autoritários instituídos (A Revolução dos Bichos), e contra os que, já visionariamente, ele achava que podiam vir a ser instituídos (1984).
Fontes de pesquisa:
aparelho leitor
para livros digitais, o Kindle. A notícia, o fato, foi o seguinte: a Amazon descobriu que dois livros digitais vendidos através de seu site, "A Revolução dos Bichos" e "1984" (as edições brasileiras são atualmente da Cia das Letras), ambos de George Orwell, eram piratas, isto é, a empresa que os disponibilizou para venda no site da Amazon não detinha os direitos para tal.Que fez a Amazon, então? Segundo o comunicado oficial, parcialmente reproduzido na Ilustrada da Folha de São Paulo no dia 22.07.2009, "quando fomos notificados pelos donos dos direitos, nós removemos as cópias do nosso sistema e dos dispositivos dos clientes e os ressarcimos."
Algumas questões importantes se impõem para discussão:
1-a Amazon, ao não checar a procedência dos produtos que disponibiliza para venda, acabou por
vender produtos piratas. Isto pode ser considerado como receptação de mercadoria roubada, tendo em vista que os direitos autorais não foram respeitados. Por analogia, é o mesmo que lojas de reprodução xerográfica venderem cópias de livros em xerox nas faculdades. Ainda no comunicado oficial, a Amazon reconhece o erro e diz que "... nós estamos mudando nossos sistemas de modo que, no futuro, não vamos mais remover livros dos dispositivos de clientes em circunstâncias como estas." Atenção para a expressão "em circunstâncias como estas". Quer dizer que, em outras circunstâncias, podem vir a deletá-los, é isso? E em quais circunstâncias?2-e o que fez a Amazon para corrigir o erro da venda de produtos ilegais? Sem prévio aviso a nenhum dos clientes e com o apertar de algumas teclas, remove, deleta,
e à distância, as cópias digitais dos aparelhos Kindle, que são propriedade privada das pessoas que os compraram, tanto as cópias quanto os aparelhos. Pelo menos era o que se imaginava. Essa possibilidade de deletar cópias digitais nos aparelhos Kindle não era do conhecimento de ninguém. Uma pessoa comprou um produto, a cópia digital, mas, na prática, não é a dona dele. Isto vai gerar muita discussão na nossa sociedade de consumo e vai por em cheque a percepção de valor atribuída ao livro digital em comparação com o exemplar físico. Mais uma analogia: em 2007 a Justiça brasileira determinou que a editora Planeta recolhesse das livrarias e do seu estoque os exemplares da biografia de Roberto Carlos escrita por Paulo Cesar de Araujo. Entretanto, ninguém foi à casa das pessoas que já tinham comprado o livro e o pegou, com ou sem autorização, nem se exigiu que as pessoas os devolvessem.3-atualmente a Amazon domina a venda de e-books. Porém, utiliza uma estratégia que não é boa para a concorrência e torna as editoras dependentes, pois seus e-books SÓ podem ser lidos no Kindle, que ela desenvolveu e vende. Nesta mesma semana a Barnes & Noble , maior rede de livrarias físicas do mundo, anunciou que a partir do dia 20.07.2009, passou a ser também a maior livraria de e-books com uma oferta inicial
de 700 mil títulos; destes, 500 mil podem ser lidos gratuitamente, graças a uma parceria com o Google, pois são de domínio público. Os outros 200 mil são vendidos ao preço de U$ 9,99. Mas, o mais importante é que, ao contrário da Amazon, que obriga a compra do seu leitor, o Kindle, para a leitura dos livros, a Barnes & Noble permitirá que os e-books sejam lidos em vários dispositivos, como no computador ou em smartphones, como o iPhone e o Blackberry. Este é um ponto chave para as editoras pois, se se sujeitarem a que os e-books só possam ser lidos em determinados aparelhos, perderão muito nas negociações futuras. A hora de definir a independência editorial é agora enquanto os e-books ainda não são uma parcela importante do faturamento das editoras. Imagine se, para ouvir um CD ou ver/ouvir um DVD você precisasse de um aparelho específico para cada fornecedor desses conteúdos? Quantos aparelhos teríamos que ter?4-mas, o ponto mais importante, o crucial, é que a Amazon, ao ter a possibilidade de deletar à distância o conteúdo de um livro digital anteriormente vendido, abre a brecha para aprimorar a CENSURA à circulação das ideias. No caso será uma censura a posteriori. Explico-me melhor. A história está repleta de exemplos de apreensão e queima de livros (físicos) por regimes e governos autoritários. Estão aí os exemplos da queima de livros na Alemanha nazista, ou a proibição do livro "Os Versos Satânicos", de Salman Rusdie pelo regime dos aiatolás do Irã. No Brasil mesmo, durante o regime militar, ocorreu apreensão de livros, desde O Capital, de Marx, até A Capital, de Eça de Queiróz. Essas ações dependeram do emprego de força física, do levantamento de informações para saber quem tinha os livros e onde estavam, de ir no local e recolhê-los etc, etc. E mesmo, assim, sempre seria impossível recolher e destruir todos os exemplares. Agora, imagine o mundo daqui a uns cem anos, vá lá, onde os e-books já serão muito significativos - se não a maior parte do suporte para livros -, imagine a possibilidade de um governo ou uma empresa privada resolver que determinado livro não deverá mais ser lido? Com um simples apertar de teclas, as ideias que possam incomodar ou vir a incomodar qualquer pensamento autoritário de plantão serão fácil, e rapidamente, eliminadas. Essa possibilidade, desnudada mesmo que sem querer pela Amazon, caso não seja coibida pela sociedade democrática, transformar-se-á no sonho de consumo de qualquer pretendente a ditador.
Esta história dos livros deletados ainda tem um lado bem irônico, pois ocorreu, justamente, com os livros de George Orwell, nos quais ele solta o verbo contra regimes autoritários instituídos (A Revolução dos Bichos), e contra os que, já visionariamente, ele achava que podiam vir a ser instituídos (1984).Fontes de pesquisa:
Jornal Público, Portugal
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1392798
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1392798
Folha de São Paulo, Ilustrada, dia 22.07.2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Indicações #4: Lady Sings the Blues
Sexta-feira, 17 de julho de 1959, 50 anos atrás, às três horas da madrugada, morria Billie Holiday. Nascida de um casal de crianças - o pai tinha 15 anos e a mãe 13 - em Baltimore em 07 de Abril de 1915, foi batizada Eleanora, mas ficou conhecida como Lady Day, apelido dado pelo amigo e saxofonista Lester Young.Lady Day teve seu gosto musical formado quando ainda era menina. "Andando de bicicleta ou lavando o chão nojento de um banheiro, eu cantava o tempo todo. Gostava de música. Se havia um lugar onde pudesse ouvir música, eu ia até lá." pág 12
Uma vitrola era um negócio e tanto naqueles dias e, nas redondezas, só o bordel de Alice Dean tinha uma; passou a trabalhar lá como faxineira. "Quando chegava a hora de me pagar, eu dizia a ela [Alice] para ficar com o dinheiro se me deixasse ir até a sala de visitas e ouvir Louis Armstrong e Bessie Smith na vitrola. [...] Lembro-me da gravação de 'West End Blues' por Louis e de como ela mexia comigo. [...] Às vezes o disco me deixava tão triste que eu chorava horrores. Outras vezes, o mesmo disco desgraçado me deixava tão feliz que me esquecia do dinheiro tão duramente ganho que me custava aquela audição na sala de visitas." pág 13
Billie Holiday teve uma infância muito sofrida; trabalhou de faxineira; criada; quase estuprada aos 10 anos, não escapou de o ser aos 12 anos; prostituta aos 15; foi presa injustamente e cumpriu 4 meses de detenção.
Em 1930, em plena Depressão, morava com a mãe no Harlem, na Rua 139. "Decidi dar um basta à vida de prostituta. Mas decidi também que não ia ser criada de ninguém. [...] Eu estava com uns 15 anos, então, mas parecia ter idade suficiente para votar." pág 36
O começo da cantora Billie Holiday:
"Um dia, quando o aluguel já tinha vencido, ela [minha mãe] recebeu uma notificação de que a justiça iria nos despejar. Estávamos no meio do inverno e ela [doente] não podia sequer caminhar. [...] Fazia um frio terrível naquela noite [véspera do despejo], e eu saí à rua sem nenhum agasalho.
Desci a Sétima Avenida da Rua 139 à Rua 133, invadindo cada espelunca e tentando descolar um emprego. Naqueles dias a Rua 133 era a verdadeira área do agito [...]. Estava cheia de clubes que ficavam abertos até o fim da madrugada, boates com horários regulares, restaurantes, cafés, uma dúzia por quarteirão.
Finalmente, quando cheguei ao Pod´s and Jerry´s estava desesperada. Fui entrando e perguntando pelo dono. Disse que era dançarina e queria mostrar meus dotes. Eu conhecia apenas dois passos. [...]
Iam me puxar pelas orelhas e jogar na rua, mas eu continuava implorando pelo emprego. Finalmente o pianista sentiu pena de mim e disse:
-Garota, você sabe cantar?
-Claro que sei cantar, mas de que adianta isso?
Eu tinha cantado a vida inteira [só tinha 15 anos], mas sentia prazer demais naquilo para achar que pudesse ganhar dinheiro de verdade cantando. [...]
Pedi ao pianista que tocasse 'Travellin´all alone'. Era o que mais se aproximava do meu estado de espírito. E devo ter transmitido uma parte daquilo à plateia. A boate inteira ficou em silêncio. Se alguém deixasse cair um alfinete, soaria como uma bomba. Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja. [...] Quando deixei a boate naquela noite dividi a féria com o pianista e ainda levei para casa 57 dólares [precisava de 45 para o aluguel]." págs 37-8
Passou a ter um emprego fixo como cantora a 18 dólares por semana.

Billie Holiday é certamente um dos mitos mais trágicos e sublimes de sua época. Enfrentou o racismo, a pobreza e a brutalidade das prisões para se tornar uma das maiores cantoras de jazz de todos os tempos. Gravou discos, fez filmes, frequentou programas de rádio e televisão, sem jamais ter conseguido receber os direitos autorais de suas músicas e de suas gravações.
A grande dama do jazz morreu pobre, viciada em heroína e já praticamente sem voz. No velório Lady Day trajava o seu vestido de palco favorito, cor-de-rosa rendado com luvas longas.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Dicas Formação Profissional #1: você
Como já comentado em outros posts não existe uma formação formal para as pessoas que trabalham com livros na área de vendas e/ou atendimento ao cliente de livrarias, o leitor, e ao cliente de editoras e distribuidoras, as livrarias. Constatado o problema, qual a alternativa?
Como você trabalha com livros fica mais fácil investir na sua própria formação profissional. Como? É simples, lendo. Se você não tem o hábito da leitura, é bom começar a adquiri-lo já. Em primeiro lugar porque sempre será mais fácil vender um produto, o livro no caso, se você conhecer bem o que pretende vender. A leitura dos livros propicia esse conhecimento. Além disso, com leituras direcionadas, pode-se aprender com a experiência dos outros com relação a métodos de venda, como atender o cliente, como transformar o cliente em freguês (fidelizá-lo), criação de ações promocionais, relacionamento com colegas e chefes etc, etc.
O mercado do livro cresce a cada ano e caminha mais e mais, a cada dia, para a profissionalização. Portanto, os melhores empregos, os melhores salários, estarão à disposição dos melhores profissionais, dos mais capacitados. Por isso, invista em você agora para não ficar à margem deste processo.
Vou passar a indicar nestas dicas livros que já li e que podem ajudar na formação profissional de quem trabalha na área. Começo com dois livros pequenos e de leitura rápida e agradável, com a esperança que peguem o gosto.
"Superdicas para Vender e Negociar Bem", de Carlos Alberto Júlio, publicado pela Editora Saraiva. Seguem algumas passagens:
O mercado do livro cresce a cada ano e caminha mais e mais, a cada dia, para a profissionalização. Portanto, os melhores empregos, os melhores salários, estarão à disposição dos melhores profissionais, dos mais capacitados. Por isso, invista em você agora para não ficar à margem deste processo.
Vou passar a indicar nestas dicas livros que já li e que podem ajudar na formação profissional de quem trabalha na área. Começo com dois livros pequenos e de leitura rápida e agradável, com a esperança que peguem o gosto.
"Superdicas para Vender e Negociar Bem", de Carlos Alberto Júlio, publicado pela Editora Saraiva. Seguem algumas passagens:
pág 13 Vender exige foco, disciplina e organização.pág 20 Quem não sabe o que vende, não vende!
pág 21 Muitas vezes nossa competitividade em relação aos concorrentes está nos serviços que oferecemos, e não nos produtos.
pág 58 A credibilidade é conquistada nos detalhes e também é destruída por eles.
pág 67 Monitore a concorrência.
pág 80 Atendimento é resolver os problemas do cliente.
pág 91 Em vendas é preciso agir rápido: o pedido perdido hoje não volta mais.
pág 117 Quem fideliza o cliente é quem o atende.
O livro tem muito mais do que estas pequenas "pílulas". Vale a leitura.
A outra sugestão é "Clássicos do Mundo Corporativo", de Max Gehringer, publicado pela editora Globo. Algumas passagens:
pág 17 Nosso nome é a nossa primeira marca registrada.
pág 117 Quem fideliza o cliente é quem o atende.
O livro tem muito mais do que estas pequenas "pílulas". Vale a leitura.
A outra sugestão é "Clássicos do Mundo Corporativo", de Max Gehringer, publicado pela editora Globo. Algumas passagens:
pág 17 Nosso nome é a nossa primeira marca registrada.pág 25 Em uma entrevista, nada melhor que a sinceridade.
pág 54 Liderança nada mais é que a capacidade de influenciar um grupo.
pág 54 Liderança nada mais é que a capacidade de influenciar um grupo.
pág 60 Parece simples, mas responder "não sei" é uma das coisas mais difíceis de aprender na vida corporativa.
Boas leituras e até as próximas dicas.
Boas leituras e até as próximas dicas.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Livro Digital, a Amazon e o Kindle
Tendo em vista a importância do assunto reproduzo, na íntegra, matéria publicada pelo Jornal Valor Econômico.
EUA: Editoras temem o poder da Amazon com o Kindle
Valor Econômico 10/07/2009
Autor: Joseph Galante e Greg Bensinger
"O Kindle, da Amazon.com, que acelerou a compra de livros eletrônicos, poderá
reduzir os lucros das editoras se a varejista pela internet jogar mais duro nas negociações sobre os preços pagos pelos títulos digitais.
As editoras nos EUA normalmente ganham cerca de US$ 2,15 por livro digital, contra US$ 0,26 por um exemplar impresso, segundo a Sanford C. Bernstein. Por um lado, as editoras veem os livros digitais como o futuro, mas, por outro, o mercado é dominado pelo Kindle, o que as deixa vulneráveis ao poder de negociação da Amazon.com. "Não queremos ficar em uma posição em que só podemos vender o nosso livro em um lugar", disse Maja Thomas, vice-presidente-sênior de mídia digital da Hachette Book Group, divisão da francesa Lagardère, sediada em Nova York. "Queremos o que as editoras querem e o que todo autor quer, que é a ubiquidade."
A Amazon, que na quarta-feira reduziu o preço do Kindle, paga de US$ 12 a US$ 13 ao editor por edições de livros que estão na lista dos mais vendidos do New York Times, e normalmente os vende por US$ 9,99 para os usuários do Kindle, disse Paul Aiken, diretor-executivo do Authors Guild, organização sediada em Nova York que dá apoio jurídico aos escritores. As editoras estão preocupadas com a possibilidade de a Amazon baixar os preços pagos a elas, de forma a aumentar o que ganha com a venda de livros, disse ele. "O setor, como um todo, está um pouco nervoso com o Kindle e a possibilidade de que a Amazon realmente venha a controlar totalmente o mercado de livros eletrônicos", disse Aiken. "O caminho inicial que for tomado neste ponto poderá determinar onde o setor editorial vai terminar e onde as pessoas vão obter seus livros eletrônicos no futuro."
Na situação atual, o preço de US$ 9,99 por um livro eletrônico é insustentavelmente baixo para a Amazon e as editoras, disse Claudio Aspesi, analista da Sanford C. Bernstein. A Amazon provavelmente vai aumentar o preço cobrado aos usuários do Kindle para US$ 12,50 e pressionar as editoras a venderem livros eletrônicos por menos, para que ela tenha lucro, disse Aspesi.
A Amazon é a maior varejista pela internet do mundo, tendo vendido US$ 4,89 bilhões no primeiro trimestre. Drew Herdener, porta-voz da empresa, recusou-se a comentar o relacionamento da Amazon com as editoras. Ele também se negou a discutir a estratégia de preços da empresa e se ela vende alguns livros abaixo do preço de custo.
O Kindle tem duas versões, uma que é vendida por US$ 299 e um modelo maior, de US$ 489. Há mais de 300 mil livros disponíveis para o equipamento. Demora menos de um minuto para baixar um livro, e uma tela branca-e-preta de alta resolução imita a aparência de um livro impresso. Até 2012, a Amazon.com deverá contabilizar mais de US$ 2 bilhões em lucros anuais com o Kindle e o seu conteúdo, previu Sandeep Aggarwal, analista da Collins Stewart. A Amazon.com não informa dados sobre as vendas do Kindle.
As editoras contam com a chegada de concorrentes para reduzir a sua dependência do Kindle. Empresas como a Plastic Logic e a FirstPaper, que é apoiada pela Hearst Corp., estão lançando equipamentos digitais de leitura. Até o fim do ano, o Google pretende oferecer às editoras um programa para a venda de livros eletrônicos diretamente para os consumidores, através da internet, disse Gabriel Stricker, porta-voz da empresa."
Valor Econômico 10/07/2009
Autor: Joseph Galante e Greg Bensinger
"O Kindle, da Amazon.com, que acelerou a compra de livros eletrônicos, poderá
reduzir os lucros das editoras se a varejista pela internet jogar mais duro nas negociações sobre os preços pagos pelos títulos digitais.As editoras nos EUA normalmente ganham cerca de US$ 2,15 por livro digital, contra US$ 0,26 por um exemplar impresso, segundo a Sanford C. Bernstein. Por um lado, as editoras veem os livros digitais como o futuro, mas, por outro, o mercado é dominado pelo Kindle, o que as deixa vulneráveis ao poder de negociação da Amazon.com. "Não queremos ficar em uma posição em que só podemos vender o nosso livro em um lugar", disse Maja Thomas, vice-presidente-sênior de mídia digital da Hachette Book Group, divisão da francesa Lagardère, sediada em Nova York. "Queremos o que as editoras querem e o que todo autor quer, que é a ubiquidade."
A Amazon, que na quarta-feira reduziu o preço do Kindle, paga de US$ 12 a US$ 13 ao editor por edições de livros que estão na lista dos mais vendidos do New York Times, e normalmente os vende por US$ 9,99 para os usuários do Kindle, disse Paul Aiken, diretor-executivo do Authors Guild, organização sediada em Nova York que dá apoio jurídico aos escritores. As editoras estão preocupadas com a possibilidade de a Amazon baixar os preços pagos a elas, de forma a aumentar o que ganha com a venda de livros, disse ele. "O setor, como um todo, está um pouco nervoso com o Kindle e a possibilidade de que a Amazon realmente venha a controlar totalmente o mercado de livros eletrônicos", disse Aiken. "O caminho inicial que for tomado neste ponto poderá determinar onde o setor editorial vai terminar e onde as pessoas vão obter seus livros eletrônicos no futuro."
Na situação atual, o preço de US$ 9,99 por um livro eletrônico é insustentavelmente baixo para a Amazon e as editoras, disse Claudio Aspesi, analista da Sanford C. Bernstein. A Amazon provavelmente vai aumentar o preço cobrado aos usuários do Kindle para US$ 12,50 e pressionar as editoras a venderem livros eletrônicos por menos, para que ela tenha lucro, disse Aspesi.
A Amazon é a maior varejista pela internet do mundo, tendo vendido US$ 4,89 bilhões no primeiro trimestre. Drew Herdener, porta-voz da empresa, recusou-se a comentar o relacionamento da Amazon com as editoras. Ele também se negou a discutir a estratégia de preços da empresa e se ela vende alguns livros abaixo do preço de custo.
O Kindle tem duas versões, uma que é vendida por US$ 299 e um modelo maior, de US$ 489. Há mais de 300 mil livros disponíveis para o equipamento. Demora menos de um minuto para baixar um livro, e uma tela branca-e-preta de alta resolução imita a aparência de um livro impresso. Até 2012, a Amazon.com deverá contabilizar mais de US$ 2 bilhões em lucros anuais com o Kindle e o seu conteúdo, previu Sandeep Aggarwal, analista da Collins Stewart. A Amazon.com não informa dados sobre as vendas do Kindle.
As editoras contam com a chegada de concorrentes para reduzir a sua dependência do Kindle. Empresas como a Plastic Logic e a FirstPaper, que é apoiada pela Hearst Corp., estão lançando equipamentos digitais de leitura. Até o fim do ano, o Google pretende oferecer às editoras um programa para a venda de livros eletrônicos diretamente para os consumidores, através da internet, disse Gabriel Stricker, porta-voz da empresa."
sábado, 27 de junho de 2009
Indicações # 3: Ouvintes Alemães
Ouvintes Alemães! discursos radiofônicos contra Hitler (1940-1945) traz a intensa participação, quase que mensal, do mais importante escritor alemão do séc XX, Thomas Mann, nos eventos da Segunda Guerra Mundial. Filho de mãe brasileira e pai alemão, Thomas Mann nasceu em 06/06/1875 na Alemanha e faleceu em 12/08/1955, na Suíça.Mas, o que levou a BBC a convidar o alemão Thomas Mann, já famoso pelos livros Os Buddenbrooks (1901), Morte em Veneza (1912), A Montanha Mágica (1924) e pelo Nobel de Literatura ganho em 1929, a participar da estratégia de contrapropaganda durante a Segunda Guerra Mundial, realizada pelo governo inglês chefiado pelo Primeiro Ministro Winston Churchill? Uma pequena cronologia pode ajudar a contextualizar o convite e essa participação:
1918 Thomas Mann publica Considerações de um Apolítico, em que defende ideias conservadoras e monarquistas;
1922, em 15 de outubro, discursa “Da República Alemã” (Von Deutscher Republik) na Sala Beethoven em Berlin, onde defende a democracia da República de Weimar (1919-1933);
1930, outubro, Thomas Mann fez em Berlim um discurso, apelando "à razão alemã" e à burguesia e às forças socialistas para que rejeitassem o fanatismo fascista. Suas palavras foram interrrompidas por tumultos organizados pela polícia nazista e o escritor foi obrigado a abandonar o recinto pela porta dos fundos;
1933, em 30 de janeiro, Hitler assume o poder na Alemanha; Thomas Mann estava em viagem fazendo palestras na Holanda, Bélgica e França. Decide não voltar para Berlim e se auto-exila na Suíça;
1936, 2 de dezembro, o jornal nazista Observador Popular (Volkischer Beobachter) publica as listas de expatriados, isto é, pessoas de quem foi retirada a cidadania alemã pelo Reich; Thomas Mann está na 7a lista.
1937, janeiro, O Ministério de Esclarecimento Popular e Propaganda do regime nazista anunciava: "Thomas Mann deve ser apagado da memória de todos os alemães, por não ser digno de carregar o nome de alemão".
1938, exila-se nos Estados Unidos;
1939, 1 de setembro, início oficial da Segunda Guerra Mundial.
É assim, portanto, que (nas palavras de Thomas Mann) "No outono de 1940, a British Broadcasting Corporation - BBC - entrou em contato comigo e me convidou para transmitir regularmente a meus compatriotas pequenos discursos em que eu deveria comentar os acontecimentos da guerra e buscar influenciar o público alemão na direção das convicções que tantas vezes expressei." pág 7.
Deste convite resultaram 58 discursos escritos por Thomas Mann; o primeiro foi ao ar em outubro de 1940 e o último em 8 de novembro de 1945 e, em todos eles, o início foi sempre o
mesmo Deutsche Hörer! (Ouvintes Alemães!). Nestes discursos tem-se a escrita de leitura agradável, a concisão (dispunha somente de 8 minutos), a clareza das ideias e a grande capacidade de análise dos acontecimentos. Era praticamente uma análise "online" do que acontecia na Europa. Além disso, em muitos desses discursos, Thomas Mann chega a ser visionário com relação ao que vai acontecer após a derrota de Hitler no que, aliás, acreditava piamente.Mas, como era o processo de transmissão desses discursos? A transmissão era feita de Londres, "em ondas longas e, portanto, poderiam ser ouvidas pelo único tipo de rádio que o povo alemão tinha permissão de ter." pág 7. Porém, se Thomas Mann estava exilado nos Estados Unidos, como isso era feito? É o próprio que explica:
"No início, as transmissões eram realizadas da seguinte maneira: eu telegrafava meus textos para Londres, onde eram lidos por um funcionário da BBC que falasse alemão. Por minha sugestão, um método mais complicado, porém mais direto e, portanto, mais simpático, foi logo adotado. Tudo o que tenho agora a dizer é gravado no Recording Department na NBC, em Los Angeles; a gravação é enviada a Nova York por via aérea e então transferida, por telefone, para outra gravação em Londres, onde é executada diante do microfone. Dessa forma, não apenas minhas palavras, mas minha própria voz são ouvidas por aqueles que se atrevem à escuta clandestina." pág 8.
Não achei referências quanto aos níveis de audiência das transmissões mas Thomas Mann comenta no prefácio à primera edição do livro que "o número de pessoas que escuta é maior do que se poderia esperar, (...) A prova mais cabal de que é assim - uma prova ao mesmo tempo divertida e asquerosa - é dada pelo fato de que meu próprio Führer, em um discurso numa cervejaria em Munique, aludiu de forma inconfundível às minhas emissões e disse que eu era um desses que tentam incitar o povo alemão à revolução contra ele e seu sistema." pág 7-8
O primeiro discurso de 1940 começou assim:
"Ouvintes alemães!
É um escritor alemão que vos fala, um escritor que, assim como sua obra, foi proscrito pelos governos alemães, e cujos livros, mesmo que tratem daquilo que é mais alemão, de Goethe, por exemplo, só podem falar a povos estrangeiros e livres na língua deles, enquanto para vocês têm de permanecer mudos e desconhecidos. Minha obra retornará a vocês um dia, estou certo, mesmo que eu próprio não possa mais fazê-lo." pág 15 (T. Mann não voltou a morar na Alemanha).
Segue uma seleção de trechos para dar a noção de como é bom este livro:
Novembro de 1940
"E o que deve ser e será o desfecho desta guerra é algo claro. (...) a defesa dos valores individuais nos limites das exigências da vida coletiva." pág 20
Fevereiro de 1941
"(...) o indivíduo Hitler, com sua insondável falsidade, sua reles crueldade e seu desejo de vingança, com seus constantes rugidos de ódio, seu estropiamento da língua alemã, seu fanatismo medíocre, sua ascese covarde e sua perversidade miserável, sua humanidade defeituosa que carece de qualquer traço de magnanimidade e de vida espiritual elevada, que o indivíduo Hitler, digo, é a mais repugnante figura sobre a qual jamais caiu a luz da história!" pág 31
Março de 1941 (discurso n.5), o próprio Thomas Mann passa a ler os discursos.
"Ouvintes alemães!
O que eu tinha para dizer a vocês de longe tinha sido feito até então por outras vozes. Desta vez, vocês ouvem minha própria voz." pág 33
Maio de 1941
"A revolução de Hitler é pura fraude; ele não é nenhum revolucionário, mas apenas um bandido e um explorador da crise mundial, crise que deve levar os povos a um novo e mais alto grau de sua formação social e de sua maturidade. Os fundamentos da paz vindoura precisam ser a justiça e a liberdade, assim como a possibilidade de que todos tenham igual acesso aos bens do mundo, e o futuro pertence a uma comunidade de povos livres, livres mas responsáveis por sua comunidade e prontos a sacrificar a antiquada soberania nacional a essa responsabilidade." págs 41-42
Agosto de 1941
"Fará uma enorme diferença para o futuro se forem vocês mesmos, alemães, a eliminar o homem do terror, esse Hitler, (...)" pág 52
Setembro de 1941
"[alemães, vocês] ... deveriam pensar que a concepção de aniquilação dos povos e do extermínio das raças é uma ideia nazista - ela não é natural nas cabeças das democracias." pág 54
"(...) Himmler disse abertamente que vai exterminar a nação theca fisicamente, como um todo, se ela não se submeter sem resistência à raça de senhores (...)." pág 55
Novembro de 1941
"A contrapartida cristã dessas execuções em massa por gás são os ´dias de acasalamento´, em que soldados de licença são conduzidos a encontros animalescos com jovens da BDM (Bund Deustcher Mädchen - Associação das Mulheres Alemãs) para produzir bastardos do Estado que possam servir na próxima guerra. Pode um povo, uma juventude decair mais?" pág 62
Janeiro de 1942
"É extremamente difícil imaginar a convivência do povo alemão com os outros povos depois da guerra. Sempre houve guerras , e as nações que as empreenderam sempre causaram muitos danos umas às outras. Graças à memória curta das pessoas, isto foi sempre enterrado e rapidamente esquecido. Desta vez, será diferente. O que a Alemanha faz, o que inflige de desgraça, miséria, desespero, decadência, destruição moral e física à humanidade ao praticar a filosofia revolucionária da bestialidade é de uma tal medida, é tão revoltante e desesperadamente inesquecível, que não se pode prever como nosso povo poderá no futuro viver como igual entre iguais com os povos irmãos da Terra." pág 73
"Aqueles dentre vocês para quem meu nome ainda significa alguma coisa sabem bem que não sou nenhum revolucionário, nem homem de barricadas, nenhum instigador de atos sangrentos por natureza. Mas também conheço o suficiente das leis morais do mundo e sinto por elas respeito o bastante para dizer a vocês e anunciar com segurança: uma depuração, uma purificação e uma libertação devem e vão acontecer na Alemanha, tão radicais e tão determinadas que estejam à altura de atos criminosos nunca antes vistos no mundo. Devem e vão acontecer, digo eu, para que o grande povo alemão possa olhar a humanidade outra vez nos olhos e estender a mão para ela, com gestos livres, em sinal de reconciliação." pág 74
Maio de 1942
"A honra e a igualdade de direitos vão ter de esperar. A liberdade e a igualdade foram negadas e pisoteadas pela Alemanha por tempo demais para que possa exigi-las no primeiro dia do armistício. Uma longa quarentena de precaução e vigilância será inevitável. A Alemanha será ajudada economicamente, mas o poder militar terá de ser negado a um povo que por tanto tempo só pôde imaginar sua unificação com o mundo na forma de dominação desse mundo. A formação política interna da Alemanha será deixada aos próprios alemães, e a tarefa dos alemães, nesse sentido, assim como a prova de sua confiabilidade futura, será a de assumir a responsabilidade pela purificação de seu corpo social, que tem de ser profunda e não pode se limitar à extinção da peste nazista. Ela deve atingir toda a camada de homens que utilizaram o nazismo como instrumento para satisfazer sua sede de poder e cobiça, camada que não deve mais ser capaz de fazer da Alemanha o flagelo da humanidade." págs 91-92
Setembro de 1942
"(...) o Exército alemão (...) até ser derrotado, ele está loucamente empenhado no extermínio dos judeus. O gueto de Varsóvia, onde foram empilhados em pouco mais de vinte míseras ruas, 500 mil judeus da Polônia, da Áustria, da Tchecoslováquia e da Alemanha, não passa de um buraco de fome, peste e morte que exala cheiro de cadáver. Sessenta e cinco mil pessoas morreram lá em um ano, o ano passado. Segundo informações do governo polonês no exílio, a Gestapo já matou ou torturou até a morte um total de 700 mil judeus, dos quais 70 mil apenas na região de Minsk na Polônia. Vocês, alemães, sabiam disso? E o que acham?" (grifo meu) pág 106
Outubro de 1943
"É inacreditável (...) o que eles fizeram através das mãos dos filhos de vocês, através das mãos de vocês. É inacreditável, mas é verdade. Você que está me ouvindo conhece Maidnek, perto de Lublin, na Polônia, um campo de extermínio de Hitler? Não era um campo de concentração, mas um gigantesco estabelecimento de assassinato. Lá existe um grande prédio de pedra com uma chaminé de fábrica, o maior crematório do mundo. (...) Mais de meio milhão de europeus, homens, mulheres e crianças, foram envenenados com cloro e depois queimados, 1.400 por dia. A fábrica da morte funcionava dia e noite; suas chaminés nunca deixavam de soltar fumaça. (...) ossos humanos, barris de cal, encanamentos de gás e crematórios; além disso, as pilhas de roupas e sapatos tirados das vítimas, muitos sapatos pequenos, sapatos de criança, se é que vocês, compatriotas alemães, e vocês, mulheres alemãs, querem continuar ouvindo. De 15 de abril de 1942 a 15 de abril de 1944, apenas nesse dois estabelecimentos alemães [campos de Auschwitz e Birkenau] foram mortos 1.715.000 judeus. De onde tiro os números? Pois seus soldados faziam a contabilidade, com aquele senso de ordem alemão!" págs 191-192
"Só dei alguns exemplos do que vocês terão de encarar. (...) Alemães, vocês precisam saber disso." págs 192-193
Ouça aqui um dos discursos, na voz de Thomas Mann:
http://www.youtube.com/watch?v=25YNc5bX7xY
Fontes:
Sonia Dayan-Herzbrun. Thomas Mann: um escritor contra o nazismo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31731997000100005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
Rachel Gessat
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,340994,00.html
Richard Miskolci
http://www.ufscar.br/richardmiskolci/paginas/academico/cientificos/eros_presidente.htm
Assinar:
Postagens (Atom)
De como chegamos a este estado de coisas
Em 11 de janeiro de 2020 foi registrada, na China, a primeira morte por Covid-19. A população mundial hoje está na ordem dos 7,8 bilhõ...
-
Trabalhamos com um produto, o livro, que é, até o presente momento, o suporte mais comum e eficiente para a transmissão, ao longo do tempo, ...
-
Já faz alguns anos que venho tentando demonstrar para livrarias e distribuidores que a consignação, como base da comercialização do livro, n...
-
Preparava um post para este blog sobre a implementação da Nota Fiscal Eletrônica ou NF-e, quando recebi um convite do Gerson Ramos para que ...