sexta-feira, 8 de junho de 2012

Concentração no mercado editorial brasileiro


A economia de um país é formada por cadeias produtivas. As cadeias são constituídas por setores. No caso do livro, os setores são os seguintes: autoral, editorial, gráfico, produtor de papel, produtor de máquinas gráficas, distribuidor, atacadista, livreiro, bibliotecário. A interface entre firmas/empresas de pelo menos dois desses setores forma um mercado. O senso comum para mercado do livro é constituído pelos setores editorial e livreiro, intermediado ou não pelo setor distribuidor.

Característica importante deste mercado é a falta de dados atualizados e com elevado grau de confiabilidade sobre produção, venda e consumo do livro. Desde 1991 a CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) patrocinam a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. A partir de 2007 a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) da USP foi contratada e é a responsável pela pesquisa.

Entre novembro de 2010 e abril de 2011 a FIPE realizou a pesquisa O Censo do Livro (dados referentes a 2009). Seguem alguns números: existem no Brasil 498 editoras. A definição de editora é a da UNESCO: edição de pelo menos 5 títulos no ano e produção de 5 mil exemplares.

Com relação ao faturamento anual, temos a seguinte divisão:
231 editoras com faturamento anual até R$ 1 milhão (46,39%);
189 editoras com faturamento anual entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões (37,95%);
62 editoras com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões (12,45%);
16 editoras com faturamento anual acima de R$ 50 milhões (3,21%).

Portanto, são essas editoras que disputam o mercado editorial brasileiro, que vem crescendo a cada ano. Em 2009, o valor total recebido pelas editoras foi de 4,16 bilhões de reais e, em 2010, aumentou para 4,50 bilhões de reais. Crescimento de 8,12%. Uma das explicações visíveis para este crescimento é que o valor médio recebido pelas editoras vem caindo desde 2004. O acumulado está em 34%. O valor médio recebido em 2009 foi de R$ 13,61 e em 2010 foi de R$ 12,94. Portanto, chega-se a um preço de capa médio de R$ 27,22 e R$ 25,88 respectivamente. O livro está com o preço ao consumidor, ao leitor, mais baixo a cada ano.

Esse faturamento tem origem nas vendas para mercado e nas vendas para governo.
Mercado em 2009: 3,25 bilhões de reais (78%);
Mercado em 2010: 3,34 bilhões de reais (74,31%). Crescimento de 2,99%.
Governo em 2009: 916 milhões de reais (22%);
Governo em 2010: 1,15 bilhões de reais (25,69%). Crescimento de 26,32%.

Mas, o que representa o mercado do livro na economia do país? Os números do PIB são a melhor comparação. O PIB brasileiro em 2009 foi de 3,143 trilhões de reais. Como o mercado do livro foi de 4,16 bilhões de reais, este nosso mercado representou 0,13% do PIB. Para 2010 os números foram: PIB 3,675 trilhões de reais. Mercado do livro de 4,50 bilhões de reais, o que representou 0,12% do PIB.
Outro dado interessante é a relação livro/habitante. A população do Brasil em 2010 era de 190.755.799 habitantes. Nesse mesmo ano foram vendidos, somente para mercado, 258.697.092 exemplares. Portanto, tem-se a média de 1,36 livro comprado por habitante. Há muito para crescer.

A metodologia da pesquisa divide o mercado em quatro grandes segmentos:
Didáticos
Obras Gerais
Religiosos
CTP – científicos, técnicos e profissionais
Considerando o faturamento total (mercado + governo), temos os seguintes dados:
Segmento
2009 fat R$
2010 fat R$
2009 exs
2010 exs
Didáticos
43,09%
46,65%
45,35%
46,27%
Obras Gerais
29,93%
25,92%
31,74%
30,88%
Religiosos
9,66%
11,02%
16,31%
16,92%
CTP
17,32%
16,41%
6,59%
5,93%

Outra característica do mercado é com relação ao número de lançamentos anuais, isto é, títulos em 1ª edição. Em 2009 foram 17.183 títulos e, em 2010, 18.712 títulos. Crescimento de 8,90%.
O ano tem 365 dias; excluindo-se 104 dias (sáb e dom) e 12 dias de feriados nacionais, sobram 249 dias. Se dividirmos o número de lançamentos por esses 249 dias temos a média de 69 novos títulos/dia em 2009, que aumenta para 75 novos títulos/dia em 2010. Livros demais?

Toda essa produção é comercializada através dos seguintes canais, cuja representatividade é:
Ano 2009
Canal de comercialização
Ano 2010
42,44%
Livrarias físicas + seu braço e-commerce
40,51%
23,78%
Distribuidores
22,55%
16,64%
Porta-a-porta
21,66%



82,86%
Sub-total
84,72%






2,91%
Supermercado
1,47%
2,32%
Igrejas e templos
1,26%
1,68%
Escolas e colégios
1,43%
1,41%
Editoras direto por e-commerce
1,54%
8,82%
outros
9,58%

O mercado do livro também acompanha uma das características da economia mundial: a concentração por meio de aquisições, fusões e joint-ventures. No Brasil começou pelas editoras, tanto nacionais quanto estrangeiras. (Não tenho como garantir que o levantamento abaixo é 100% preciso, mas é próximo disso. A quem tiver mais informações, agradeço que possam compartilhar).

A Guanabara Koogan (criada em 1932) começou as compras:
1994 a LTC (criada em 1968)
2007 a Forense (criada em 1904)
2007 a Método (criada em 1996)
2008 a Santos (criada em 1981)
2010 a Forense Universitária (criada em 1973)
2011 a EPU (criada em 1952)
2011 a Roca
2011 a AC Farmacêutica (criada em 2005)
Todas essas editoras estão sob a holding GEN – Grupo Editorial Nacional criado em 2007.

A Record (criada em 1942) também foi às compras e fez as seguintes:
1997 a Bertrand Brasil
1997 a Civilização Brasileira
1997 a Difel
2001 a José Olympio
2004 a Best-Seller
2005 joint-venture com a canadense Harlequim Books
2010 a Verus

A Saraiva comprou:
1998 a Atual
2000 a Renascer
2001 a Solução
2003 a Formato
2008 a ARX
2008 a ARX Jovem
2008 a Futura
2008 a Caramelo

A Ediouro comprou:
2002 a Agir
2004 a Relume-Dumará
2005 e 2007 a Nova Fronteira
2006 parceria com a Thomas Nelson
2007 a Nova Aguilar
2008 a Desiderata

A Sextante comprou:
2007 a Intrínseca (50%)

A Artmed comprou:
2009 a McGrae-Hill Education no Brasil

A IBEP/Companhia Editora Nacional comprou:
2010 a Conrad

Com relação às editoras estrangeiras, temos a seguinte cronologia:
Em 1976 a Elsevier (Holanda) entra no mercado nacional em parceria com a Campus. Suas compras foram as seguintes:
2002 a Alegro
2002 a Negócio
2005 a Impetus

Grupo Pearson (Inglaterra) entrou no mercado em 1996 e comprou a Makron Books no ano 2000.

Grupo Vivendi (França), em parceria com o grupo Abril comprou a Ática e a Scipione em 1999. Saiu do Brasil em 2004 e a Abril comprou a sua parte.

Grupo Prisa-Santillana (Espanha) entrou no mercado em 2001 com a compra da Moderna e da Salamandra. Em 2005 comprou 75% da Objetiva.

A Larousse (França) chegou em 2003 e, em 2007, comprou a Escala.

Grupo Planeta (Espanha) chegou em 2003. Em 2006 comprou a Academia da Inteligência.

Edições SM (Espanha) chegou em 2004.

Almedina (Portugal) chegou em 2005.

Penguin Books (USA) em 2005 fez uma joint-venture com a Companhia das Letras e, em 2011, comprou 45% do capital dessa editora.

Grupo Leya (Portugal) chegou em 2009. Em 2010 fez uma parceria com a Barba Negra. Em 2011 comprou a Casa da Palavra.

Thomson Reuters (USA) em 2010 comprou a editora Revista dos Tribunais.

Babel (Portugal) chegou em 2011.


A outra ponta da concentração está no setor livreiro. O marco divisório aconteceu em 2008 quando a Saraiva comprou o grupo Siciliano. Atualmente as principais redes de livrarias, com foco em obras gerais, são:
100 lojas, a Saraiva. Base São Paulo. Dessas, 46 são megastores. As outras 54 lojas (54%) representam apenas 14% de seu faturamento anual;
32 lojas, a Leitura. Base Minas Gerais;
20 lojas, a Livrarias Curitiba. Base Paraná;
13 lojas, a Cultura. Base São Paulo (abrirá mais 4 lojas ainda em 2012);
11 lojas, a Fnac. Base São Paulo;
7 lojas, a Travessa. Base Rio de Janeiro;
6 lojas, a Livraria da Vila. Base São Paulo (abrirá duas lojas em 2012 e mais 2 em 2013).

Esta concentração nas livrarias de rede também é facilitada pela migração do comércio em geral para os shoppings que, como têm um custo elevado para a manutenção de uma loja, viram uma barreira de acesso para as livrarias como menor capital. No ano 2000 o Brasil tinha 280 shoppings. Fechou 2011 com 430 shoppings (+ 53,57%). Em 2012 serão mais 43 e, por enquanto, estão previstos mais 31 para 2013. Para se ter uma ideia da força deste novo local de consumo, de compras, circulam nos shoppings 376 milhões de pessoas por mês. A população do Brasil é de 191 milhões de pessoas. Impressiona, não?

Não existe uma pesquisa confiável com relação ao número de livrarias existentes no Brasil. A ANL – Associação Nacional de Livrarias fez em 2009 um primeiro levantamento através de questionários enviados a diversos pontos de venda de livros, e chegou ao número de 2.980 “livrarias”. Livraria para a ANL é “uma empresa que oferece um bom acervo de livros em seu mix de produtos para venda.” Portanto, essa definição é muito vaga em relação ao censo comum de livraria. Talvez fosse melhor usar como parâmetro o número de exemplares no acervo de cada “livraria”. Por exemplo, acervo mínimo de 10% da produção anual de novos títulos em 1ª edição, o que, em relação à produção das editoras em 2010, seria de 1.871 exemplares por loja.

No levantamento de 2011 da ANL o número de livrarias chegou a 3.481. Como o país tem 5.564 municípios, além do Distrito Federal, teríamos a média de 0,63 livrarias por município. É claro que a distribuição dessas livrarias pelo território brasileiro acompanha a economia e a escolaridade de cada região geográfica. Os dados são os seguintes:
52,54% das livrarias na região Sudeste;
21,00% das livrarias na região Sul;
16,83% das livrarias na região Nordeste;
6,18% das livrarias na região Centro-Oeste;
3,45% das livrarias na região Norte;

A concentração nos diversos setores da economia do livro avança e fica maior a cada ano. Onde os livros serão vendidos em 2015?

domingo, 3 de junho de 2012

Amazon também no e-commerce físico no Brasil


Já está mais do que divulgado que a Amazon vai começar sua operação no Brasil ainda em 2012. O que não está claro é qual o tipo de operação: se somente o digital e/ou o e-commerce com produtos físicos também. Imagino que em novembro, no máximo, a operação começará com os livros digitais. O início da Amazon em 1995 foi com livros, mas os físicos.

Sou dos que acreditam que não teria nenhum sentido, econômico inclusive, a maior empresa de e-commerce do mundo, não trabalhar com todo seu mix de produtos no Brasil. O grande obstáculo para o início da operação com os produtos físicos é, claramente, a dificuldade logística da operação, isto é, como manter o padrão de entrega Amazon também no Brasil?

Ao longo dos últimos 11 anos a Rapidão Cometa Logística e Transportes S.A. foi representante autorizada da Fedex Express América Latina e Caribe. A Rapidão Cometa tem 70 anos de existência e sede em Recife. Atende todo o território brasileiro seja via filiais ou pontos de operação. Seguem alguns dados:
-45 filiais em 20 estados e DF;
-202 pontos de operação em todos os estados e DF, além de Fernando de Noronha;
-700 mil m2 de área construída e pátio de operações;
-3 mil veículos compõem a frota entre motocicletas e veículos utilitários leves e médios, além dos semipesados e pesados (as carretas);
-transporta containers, carga fracionada e pequenas encomendas tanto no aéreo quanto no rodoviário;
-Rapidão B2C é o serviço específico e diferenciado dentro da empresa para entregas domiciliares de pequenas encomendas ao consumidor final. Faz também a logística reversa, para os casos de troca;
-tem 9 mil funcionários;
-faz 12 milhões de entregas por ano.

Dia 29 de maio de 2012 saiu um comunicado informando a aquisição da Rapidão Cometa pela Fedex. As perguntas a serem respondidas são:
1-O que acontece/acontecerá no cenário econômico de varejo e/ou industrial que leva uma empresa de logística (a Fedex) a investir alguns milhões de dólares na aquisição de uma empresa representante?
2-Por que não continuar com a representação vigente há 11 anos?
3-Por que a necessidade de ter o controle total da operação nas mãos e não via uma representante?

Para essas perguntas vejo uma única resposta: a Amazon. Acredito que em 2013 a Amazon entrará no e-commerce brasileiro com tudo, com todo o seu mix de produtos. A Amazon é uma empresa de e-commerce. E-commerce só funciona se existir logística. Portanto, a infra-estrutura de logística já está sendo executada, preparada. Empresas, de todos os tipos, livrarias inclusive, preparem-se para a concorrência que vai chegar.

sábado, 26 de maio de 2012

As livrarias em um novo mercado e o preço único do livro


Com a divulgação em 15 de Maio de 2012 por parte da Associação Nacional de Livrarias, a ANL, do Levantamento Anual do Segmento de Livrarias feito junto a suas associadas para identificar o comportamento do setor livreiro em 2011, veio à tona, mais uma vez, a questão da “Lei do Preço Único do Livro”, dos descontos concedidos nos lançamentos, da concentração do mercado e do fechamento das pequenas livrarias.

Mais uma vez a tábua de salvação mencionada nas entrevistas é a “Lei do Preço Único do Livro”. O que é isso? De forma resumida, é o seguinte: durante um determinado período de tempo após o lançamento de um livro (seis meses ou um ano, por exemplo) não poderiam ser concedidos descontos na venda desse livro para o consumidor final, o leitor. No máximo, algo entre 5% e 10%.

Alguns pontos a serem observados: isso é legal, do ponto de vista da Lei? O que o consumidor final, o leitor, vai achar de não poder comprar mais esses livros com desconto?

Pesquisando na Lei maior, a Constituição, o Título VII trata da Ordem Econômica e Financeira e o capítulo 1 dos Princípios Gerais da Atividade Econômica. A seguir vem o artigo 170 que dispõe o seguinte:
“A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, (...), observando os seguintes princípios:
(...)
IV – livre concorrência
V – defesa do consumidor

Pesquisando um pouco mais cheguei ao CADE, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que pela Lei 8.884 de 11/06/1994 foi transformado em Autarquia. Essa Lei é conhecida como Lei antitruste e Lei antidumping. Seu artigo inicial diz o seguinte: Art. 1º Esta lei dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica, orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de iniciativa, livre concorrência, função social da propriedade, defesa dos consumidores e repressão ao abuso do poder econômico.(grifos meus)


Segue a definição do conceito de livre concorrência exposto na página do CADE:
Livre concorrência
O princípio da livre concorrência está previsto na Constituição Federal, em seu artigo 170, inciso IV e baseia-se no pressuposto de que a concorrência não pode ser restringida por agentes econômicos com poder de mercado. Em um mercado em que há concorrência entre os produtores de um bem ou serviço, os preços praticados tendem a se manter nos menores níveis possíveis e as empresas devem constantemente buscar formas de se tornarem mais eficientes, a fim de aumentarem seus lucros. Na medida em que tais ganhos de eficiência são conquistados e difundidos entre os produtores, ocorre uma readequação dos preços que beneficia o consumidor. Assim, a livre concorrência garante, de um lado, os menores preços para os consumidores e, de outro, o estímulo à criatividade e inovação das empresas. “

Apesar de leigo em Direito, entendo que é contra a Constituição a existência de uma lei que proíba descontos e que, portanto, também iria contra o interesse do consumidor que é o de obter, sempre, o menor preço em qualquer aquisição.

A grande questão é que o mercado do livro, no que diz respeito à comercialização, mudou. Em 1455 Gutenberg comercializou o primeiro livro impresso com tipos móveis de metal no Ocidente, a Bíblia. Depois, na prática, estabeleceu-se que o editor publica o livro e o distribuidor e as livrarias formaram uma cadeia de distribuição para a venda do livro para o leitor. Essa estrutura permaneceu por muito e muito tempo, até que, 540 anos depois, em 1995 a Amazon começou a venda de livros pela internet. No Brasil, também em 1995 (setembro), a Livraria Cultura foi a primeira a perceber que mudanças estavam no ar e começou sua operação nesse novo canal. Esse foi o primeiro marco divisório, a grande quebra de paradigma; o segundo será o “livro digital” e, mais em particular, sua comercialização, mas isso fica para outro post.

O mercado do livro também acompanha uma das características da economia mundial: a concentração por meio de fusões, aquisições e joint-ventures. No Brasil, o processo de concentração consolida-se em 2008, quando a Saraiva comprou a Siciliano. Com esse fato, outras livrarias como Cultura, Fnac, Travessa, Vila, Curitiba, Leitura etc, que já vinham abrindo lojas, tiverem que acelerar o ritmo.

Concomitante a isso, mas tendo início lá no final do séc xx, o comércio em geral começou o processo de migração para os shoppings. Como são espaços comerciais que têm custos maiores, isso contribui, mais ainda, para o processo de concentração. No ano 2000 existiam no Brasil 280 shoppings. Em 2011 já eram 430 (crescimento de 53,57%). Neste ano de 2012 devem ser inaugurados mais 43 e outros 31 já estão previstos para 2013. Circulam por mês, em média, em todos estes shoppings 376 milhões de pessoas. A população do país é de 191 milhões de pessoas. Portanto, grande parte do público comprador circula nos shoppings e, é claro, compra nos shoppings. As livrarias que lá não estão, principalmente as menores, vão perdendo faturamento a cada ano, salvo raras exceções.

É um cenário assustador para as pequenas livrarias? É sim. Estão sendo pegas de surpresa? Entendo que não, pois lá se vão mais de 15 anos quando os sinais e os exemplos de novas formas de comercialização do livro começaram a aparecer. Na verdade não foram se preparando e não investiram em atendimento, serviços e, principalmente, na internet, no e-commerce. Eu mesmo venho escrevendo aqui sobre a importância do e-commerce para o mercado do livro desde 2009.

Ainda existe chance de sobrevivência para as pequenas livrarias? A resposta é SIM, mas, a cada ano que passa, isso será mais difícil. E a saída, com certeza, não é uma “intervenção” do governo para controlar preços finais de venda ao consumidor. As livrarias estão no mercado de varejo, e varejo é um processo dinâmico. Portanto, não dá mais para ficar atrás do balcão esperando o cliente entrar na loja. Há que se ir até ele. O melhor caminho e o mais rápido é pela web.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Saiu na mídia #9 A indústria gráfica, face-a-face com o futuro


Compartilhando o ótimo artigo de André Borges Lopes da Bytes & Types

Artigo: "A indústria gráfica, face-a-face com o futuro (Parte I)"*
Fonte: Bytes & Types   
Qua, 26 de Outubro de 2011 / 10:29
De acordo com Arthur C. Clarke, ideias novas atravessam três etapas:
  1. Isso não funciona;
  2. Pode ser que funcione, mas não vale a pena;
  3. Eu sempre soube que era uma excelente idéia!
 Em julho de 2001, fui convidado pela Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica para ministrar um workshop sobre "fotografia digital". Na época, essa nova tecnologia ainda engatinhava, e era vista com profunda desconfiança pelos fotógrafos e produtores gráficos. Câmeras digitais profissionais eram caríssimas e precárias: as então recém-lançadas Nikon D1 custavam mais de US$ 5.000 (só o corpo, nos EUA) e ofereciam de resolução singelos 2,6 megapixels. Mesmo aqui em São Paulo, pouquíssimos laboratórios recebiam arquivos digitais, e pediam entre 24 a 48 horas para entregar as fotos em papel.
Nesse workshop, deixei claro que a qualidade das fotos digitais da época era ainda muito inferior à das fotos convencionais, desde que adequadamente escaneadas. Apesar disso – e me arriscando no pantanoso terreno da futurologia – eu não tinha dúvidas de que a adesão dos fotógrafos ao digital no segmento profissional (em especial no fotojornalismo) seria extremamente rápida. As vantagens oferecidas pela facilidade e agilidade do manuseio dos arquivos eletrônicos, comparadas aos transtornos da revelação química e do escaneamento, davam aos fotojornalistas digitais um diferencial competitivo que compensava largamente todas as deficiências de qualidade. Além disso, era visível que as câmeras digitais estavam evoluindo em velocidade assustadora.
Por outro lado, eu não acreditava numa entrada rápida das câmeras digitais na fotografia amadora, nas fotos do dia-a-dia, tipo "viagem de férias" e "aniversário das crianças". Para o usuário amador, havia as dificuldades em transferir, selecionar e editar os arquivos num computador, gravar um CD-R para levar ao laboratório, aguardar os longos prazos de entrega. Um inferno perto da praticidade dos quiosques tipo "one-hour photo", nos quais deixávamos os rolinhos de filme 35mm e voltávamos alguns minutos depois para pegar as ampliações já prontas para serem colocadas nos tradicionais albuns de fotos – os quais seriam depois mostrados e compartilhados entre amigos e parentes.
Se minha previsão quanto ao fotojornalismo se revelou acertada, a segunda foi um fiasco. Cinco anos depois do workshop, câmeras de filme já eram franca minoria nas festinhas de crianças e, de lá para cá, simplesmente desapareceram. O surgimento dos sites de relacionamento social na internet – Orkut, Facebook e congêneres – e facilidade de visualizar fotos nas telinhas LCD dos celulares reduziram a uma fração o mercado da ampliação fotográfica em papel. Hoje, milhões de "albuns virtuais" de fotografias são compartilhados diariamente na rede mundial. Na última feira Photo Image Brazil – realizada no mês de agosto em São Paulo – já não se encontrava uma única câmera analógica nos estandes dos grandes fabricantes.
Revoluções expressas
Descontado o meu erro de previsão, posso dizer que essa revolução ultra-rápida da fotografia digital não chegou a ser exatamente uma surpresa para mim. Na época dessa palestra em 2001 eu já havia vivenciado pelo menos três eventos semelhantes. O primeiro havia sido a substituição das filmadoras domésticas Super-8 pela fitas de vídeo VHS, no início dos anos 1980 – em que pese o fato de que quase todos os profissionais de imagem reclamassem da precaria qualidade de gravação dos primeiros vídeo-cassetes. A segunda, alguns anos depois, havia sido a derrocada dos grandes e charmosos LPs de vinil pelas insonsas caixinhas de CD, mesmo enfrentado forte oposição dos amantes do design gráfico e dos especialistas em música, que sempre reclamaram do "som quadrado" dos arquivos digitais de áudio.
Na terceira revolução eu não havia sido apenas testemunha: fui parceiro e miltante. Trata-se da  substituição na indústria gráfica dos sistemas tradicionais de pré-impressão pelo "Desktop Publishing" (DTP). O conceito de DTP (Editoração Eletrônica, em português) havia surgido em 1985 – quando foi possível reunir a interface gráfica dos Macintosh, a linguagem de impressão PostScript, as fontes tipográficas digitais, as impressoras de imagem a laser e os primeiros aplicativos de layout de página (mais detalhes no box abaixo). No final de 1995, pouco mais de dez anos após esses lançamentos pioneiros, pude desenvolver com alguns entusiastas do DTP uma "apresentação de conceito" em parceria pelo estúdio Comdesenho (do qual eu era sócio), pelo birô Paper Express e pela gráfica Camargo Soares:  um bonito calendário de parede da Chapada Diamantina totalmente produzido em sistemas de editoração eletrônica, do escaneamento das imagens aos fotolitos limpos.
Essa revolução do DTP só agora está sendo concluída, no momento em que consolida-se a hegemonia dos sistemas Computer-to-Plate (gravação direta dos arquivos nas matrizes de impressão, sem uso de fotolito) e a completa transferência da pré-impressão para dentro das gráficas. Mas em 1995 já estava evidente que não precisávamos mais das grandes empresas de fotocomposição, paste-up, escaneamento, fotolito e provas – que por décadas haviam dominado o mercado de "prepress" em todo o mundo.
Vistos em retrospecto, esses primeiros dez anos do DTP passaram como num sopro. Mas não faltaram naquela época as legiões de céticos que duvidavam que aqueles "computadorzinhos ridículos de US$ 10 mil" iriam substituir os milhões de dólares então investidos nas grandes estações de fotocomposição, escaneamento e tratamento de imagem. Ou que iriam desempregar os milhares de profissionais de paste-up, retoque e montagem que trabalhavam nas empresas do setor. O tsunami do DTP pegou todos eles no contrapé. Tradicionais fabricantes de equipamentos como Mergenthaler, Monotype e Compugraphic – que haviam sobrevivido à substituição dos linotipos pela composição a frio duas décadas antes – não resistiram à nova mudança: desapareceram ou tornaram-se irrelevantes, para a sorte da Linotype, ITC, Aldus, Adobe, Quark, Corel e muitos outros que investiram nas novas tecnologias.
O beijo do tempo
Em resumo, na virada do milênio em 2001 já não faltavam alertas a nos preparar para o que ainda vinha pela frente. Mas o fato é que muita gente preferira não ouví-los. Há cerca de dez anos, lembro-me de escutar da boca de um competente jornalista – então trabalhando numa das maiores revistas de informática do Brasil – que a distribuição de música via arquivos digitais estava condenada ao insucesso: havia sido estigmatizada como "coisa de gente pobre", relegada aos office-boys e seus toscos aparelhos MP3 Players. Um ano depois dessa conversa, Steve Jobs nos apresentou seus iPods e iTunes, revolucionando não apenas a maneira que nós ouvimos música, mas também todo um mercado então dominado pelas grandes gravadoras.
O curioso é que eu passei boa parte da minha infância lendo Júlio Verne e invejando as pessoas que viveram nos final do século XIX, quando novas idéias e invenções surgiam a cada dia para revolucionar o mundo. Descobri, já "coroa", que não tinha motivos para inveja: nossa geração vive tempos infinitamente mais revolucionários e a cada dia somos apresentados a novos produtos, idéias e conceitos. Entretanto, apenas uma fração dessas novidades é tocada pelo "beijo do tempo": essa capacidade mágica e imponderável de mudar o mundo. Ou, como no slogan atribuido a Jobs, "to make a dent in the universe".
Eu me recordo do pressentimento de estar diante desse tipo de coisa em 1987. Eu já iniciava meu trabalho na área editorial e gráfica quando um amigo da faculdade me mostrou pela primeira vez um Mac IIx diagramando páginas numa versão pioneira do software QuarkXPress. Lembro-me de ver o aplicativofuncionando e pensar "Danou-se, o mundo vai desbar à nossa volta". Senti o mesmo pela segunda vez em 1998, quando outro amigo me pediu para postar na sua "página pessoal" na internet (nem se falava ainda em "blog") um texto sobre o uso de maconha que eu havia escrito para uma revista de universitários: poucos dias depois, um marinheiro porto-riquenho servindo em Guam, no Oceano Pacífico, entrou em contato comigo perguntando se eu podia providenciar uma versão em inglês para republicação.
A sensação também estava comigo em 1994, quando vi em ação uma impressora digital E-Print 1000, primeira geração das hoje consagradas HP Indigo. E repetiu-se na feira Drupa de 2008, ao sermos apresentados às novas inkjet industriais coloridas de alta produtividade, rotativas que produzem impressos digitais de baixo custo em uma velocidade assustadora. Para mim, está evidente que o ciclo das matrizes de tipos móveis, inaugurado por Gutemberg e seus contemporâneos no século XV, começa a se esgotar rapidamente – dando lugar a uma nova forma de pensar a transmissão de informações que ainda usa papel pintado como suporte.
Estudando com o inimigo
Em agosto desse ano, topei novamente com essa sensação de assombro: um amigo de Fortaleza postou no Facebook a foto de um outdoor onde se lia: Tablet substitui livros. Trata-se de propaganda um colégio cearense anunciando o projeto "Sistema Ari de Sá de Ensino Digital": a partir de 2012, os alunos do Ensino Médio poderão ter os livros didáticos e conteúdos pedagógicos, produzidos pelo SAS oferecidos em dispositivos digitais de leitura, os famosos "tablets" (no caso, iPads da Apple). Sobre o assunto, há também um vídeo promocional no You Tube: http://youtu.be/v2xeHMWHy0k.
Nesse caso, o assombro não se deveu ao inesperado: todos sabemos que em países do primeiro mundo esse processo já está em andamento. Escolas particulares de elite aqui em São Paulo também começam a incluir alguns livros digitais no cardápio dos seus alunos. O assombro se dá pela absurda proximidade dessa idéia de "substituição". Não é mais na distante Coréia do Sul, é logo ali em Fortaleza; não é daqui a dez anos, é dentro de poucos meses. E o projeto do Ari de Sá traz um conceito importante: não são "livros digitais", trata-se de um "sistema de ensino" que foi convertido para iPad. "Sistema de ensino digital": anote esse conceito, ele será importante. Falarei mais dele num próximo artigo.
Para completar os agouros de agosto, no último dia 22 a RISI publicou um estudo intitulado "O impacto da mídia em tablets nos mercados de papéis editoriais" que pode ser visualizado nesse link, avaliando qual o efeito do crescimento exponencial da venda desses dispositivos de leitura no mercado papeleiro. Num horizonte próximo, o estudo conclui que "ainda que os tablets possam causar um efeito positivo nos hábitos de leitura, estima-se que o uso de papel em revistas irá cair pelo menos 20% nos próximos 5 anos".
Não é preciso ser do ramo para concluir que impacto igual ou maior recairá sobre o segmento da indústria gráfica dedicado a atender esse mercado. Estamos falando de nada menos que algumas dezenas de grandes empresas, com milhões de dólares investidos em sofisticadas impressoras offset planas e rotativas, prestes a enfrentar os fantasmas de uma crescente capacidade ociosa e de uma concorrência predatória brutal pelo que restar do mercado.
Para enxergar as estrelas
"O livro em papel nunca vai acabar""a informação impressa transmite mais confiabilidade""os arquivos digitais são voláteis, o que está no papel é perene" – são algumas colocações que nos acostumamos a ouvir hoje da boca dos que se recusam a enxergar a tempestade à sua frente. Todos esses argumentos são verdadeiros, mas não se esqueçam que também era verdade que o Super 8 tinha mais qualidade que os antigos VHS, que o som de um bom LP de vinil era melhor que o dos CDs, que as ligações de celular tem menos qualidade e custam muito mais caro que as de um telefone fixo. Por acaso alguma dessas verdades teve o poder de segurar o tsunami das mudanças?
Para mim é evidente que o livro impresso não vai acabar, ao menos não dentro do nosso horizonte de previsão. Também me parece óbvio que, por décadas, haverá leitores preferindo receber seus jornais e revistas em papel. Da mesma forma, dificilmente a educação dos seres humanos poderá prescindir tão cedo dos livros e demais publicações impressas. Mas é preciso entender que não é disso que estamos falando.
Sejamos conservadores e vamos admitir que, num prazo de cinco anos, algo como 30% do mercado de livros comerciais, 20% do mercado das grandes revistas e 10% do mercado de livros didáticos migre para os leitores digitais. Dá para compreender o tamanho da confusão na qual a indústria gráfica estará metida nessa década que se inicia? Adotar a tática de avestruz e fazer de conta que nada vai acontecer é, sem dúvida, a pior alternativa. Desde a primeira revolução industrial, a História está cheia de exemplos de empresas grandes e poderosas que desapareceram em poucas décadas por não conseguirem prever e se adaptar aos novos tempos.
Por outro lado, também não é caso para pânico e desespero. Recorro a uma figura de linguagem do último (e na minha opinião o melhor) discurso do reverendo Martin Luther King, o célebre I've Been to the Mountaintop:
"Somente quando está muito escuro é que você consegue ver as estrelas"
Mas isso discutiremos no nosso próximo texto.
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DESKTOP PUBLISHING, UMA CRIAÇÃO COLETIVA
Ao contrário do que supõe a revista Veja (que na sua edição nº 2238 atribui unicamente a Steve Jobs a gênese do conceito de Desktop Publishing), poucas criações tão revolucionárias no mundo da tecnologia foram mais coletivas que a do DTP. Sem entrar no mérito da ordem de importância de cada um, podemos com facilidade montar uma grande lista de  “pais” dos produtos que foram os marcos iniciais da editoração eletrônica.
• Steve Jobs da Apple ao colocar num computador pessoal relativamente barato (um Macintosh custava em 1985 cerca de US$ 2.500, pouco mais de US$ 5.200 em dinheiro de hoje) uma interface gráfica de usuário (Graphic User Interface) que não apenas usava recursos sofisticados de tipologia como permitia a construção de documentos com o conceito de WYSIWYG (What You See Is What You Get - O que você vê é o que você obtém).
• John Warnock e Charles Geschke, fundadores da Adobe, ao inventar e desenvolver a linguagem PostScript – que permitia aos computadores enviar às impressoras arquivos relativamente pequenos, contendo código com as instruções para que fossem construídos nos interpretadores locais (que chamamos atualmente de RIPs, mas já foram conhecidos como "placas PostScript") os gigantescos arquivos rasterizados de alta resolução das páginas gráficas. Posteriormente, a Adobe lançaria também três aplicativos fundamentais do DTP: o Illustrator, o Photoshop e – bem mais tarde – o Acrobat. (1984-1989)
• Jobs, novamente, ao lançar em 1985 a Apple Laser Writer, uma impressora laser P&B de pequeno porte que reunia um engine de impressão da Canon com uma placa processadora de PostScript. Não foi a primeira laser de pequeno porte (essa primazia cabe à HP) mas foi a primeira impressora de baixo custo dedicada à impressão de páginas gráficas. Embora fosse bem mais cara do que um Mac (ela custava na época US$ 7.000) ainda era 10 vezes mais barata que as laser gráficas da Xerox e da IBM.
• Aaron Burns, co-fundador da ITC, que lançou em 1985 as primeiras famílias de fontes tipográficas vetoriais em linguagem PostScript.
• Paul Brainerd, fundador da Aldus, que ao lançar em 1985 o PageMaker completou o quebra-cabeça do DTP com a peça que faltava: um aplicativo de layout de páginas baseado na interface gráfica no Mac e na linguagem PostScript. A Aldus ainda lançaria o FreeHand, de ilustração, e – já incorporada à Adobe – forneceu o núcleo do que viria a ser o InDesign.
• Jonathan Seybold, um respeitado técnico e consultor especialista em artes gráficas e pré-impressão, que enxergou o potencial dessas novas tecnologias em desenvolvimento e teve um importante papel ao apresentar essas pessoas umas às outras e orientá-los para que atendessem aos requisitos do setor gráfico. (1983-1987)
• Wolfgang Kummer, da Linotype, tradicional fabricante de equipamentos de pré-impressão, que decidiu incorporar o PostScript às suas fotocomponedoras a laser, desenvolvendo as primeiras imagesetters (Linotronic 100, 300 e 500) e abrindo para o DTP a opção das saídas em alta resolução. Mais tarde, a Linotype também se tornaria importante desenvolvedora de fontes tipográficas PostScript e, associada a Hell, produziria os primeiros scanners de cilindro de alta qualidade compatíveis com a tecnologia do DTP. (1983-1986)
• Tim Gill, fundador da Quark, que lançou em 1987 o então revolucionário QuarkXPress, elevando a paginação em DTP a um nível de profissionalismo até então inédito.
• Por fim, podemos incluir indiretamente nessa lista o Douglas Engelbart, que inventou o mouse na década de 60, embora somente em 1981 ele começasse a ser utilizado sem muito entusiasmo pela Xerox (que o incluiu como periférico de seu computador Star). Poucos anos depois, a Apple solicitou à Xerox as especificações do dispositivo para que pudesse incluir um mouse junto com o seu Macintosh para facilitar enormemente o manuseio da interface gráfica.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Saiu na mídia #8 Um país sem bibliotecas

Caro leitor,

mesmo em espanhol, compartilho importante matéria publicada no jornal Público da Espanha 

http://www.publico.es/culturas/381738/un-pais-sin-bibliotecas por Roberto Arnaz

Un país sin bibliotecas

La crisis económica amenaza el sistema de préstamo gratuito de libros en Estados Unidos, iniciado hace más de 160 años. También afecta a las librerías del país, convertidas en una especie en peligro de extinción

ROBERTO ARNAZ Los Ángeles 14/06/2011 00:30 Actualizado: 14/06/2011 14:30

"Por el grosor del polvo en los libros de una biblioteca pública puede medirse la cultura de un pueblo". John Steinbeck, uno de los más grandes escritores estadounidenses de mediados del siglo XX, era consciente de la
importancia del acceso a la literatura para el desarrollo de la sociedad. Vivió en primera persona los rigores de la Gran Depresión, pero salió adelante y convirtió su desdicha en una inolvidable colección de novelas que le valió el Premio Nobel de Literatura en 1962. Fue testigo de cómo la creación de una red pública de bibliotecas permitió el acceso a la alfabetización para los más desfavorecidos, al Estado del bienestar y a un nivel cultural con el que sus propios abuelos sólo podrían soñar. Sin embargo, el sueño de Steinbeck y su propio legado están a punto de perecer víctimas de una crisis económica y cultural que amenaza con acabar de un plumazo con el agonizante sistema estatal de préstamo gratuito de libros nacido en 1848 con la inauguración de la biblioteca de Boston.
Los datos que maneja la Asociación Nacional de Bibliotecas (ALA, según sus siglas en inglés) son estremecedores. Desde la llegada de la inestabilidad financiera, 438 de los cerca de 16.000 archivos literarios que hay en el país han cerrado sus puertas y varios centenares más están en la cuerda floja, entre ellos el de Salinas (California), cuna de Steinbeck y guardián de su obra. Esta pequeña biblioteca ya consiguió regatear la crisis en 2005 gracias a los 3,2 millones de dólares de un donante privado, a los que se unieron medidas de control del gasto, como la rebaja del 5% en los salarios de sus trabajadores, y a una considerable reducción del horario de apertura durante el verano: desde el cierre de los colegios en junio hasta el inicio del nuevo curso sólo permanece abierta ocho horas a la semana.
De forma parecida, todas las ciudades en Estados Unidos, grandes, medianos y pequeños núcleos urbanos, se están viendo obligadas a cerrar sus bibliotecas públicas o, al menos, limitar su horario hasta la mínima expresión. Cerrojazo a la cultura gratuita en Detroit, que estudia echar la persiana en todas sus sucursales, y Denver, dispuesta a cercenar el número de sedes a la mitad. Mientras, el estado de Michigan ya tiene fecha para cerrar tres de sus 103 bibliotecas, el 10 de junio.

Recortes anticonstitucionales

La noticias no son mejores en Nueva York, donde gracias a estas instituciones circulan más de 35 millones de libros, CD y DVD cada año. El nuevo presupuesto de la ciudad para 2012 prevé un recorte de 40 millones de dólares en la financiación de bibliotecas públicas, además de la destrucción de 1.500 empleos.
Para los expertos de ALA, lo que los gobiernos locales, estatales y la mismísima Casa Blanca están haciendo con las oficinas de préstamo de libros es inconstitucional, ya que "las bibliotecas son un bien público esencial, un pilar fundamental en las sociedades democráticas". La asociación recuerda a los políticos que "el derecho de los ciudadanos a leer, buscar información y expresarse libremente en las bibliotecas está garantizado por la primera enmienda" de la Carta Magna estadounidense.
En EEUU apenas quedan 3.000 librerías y cerca de 700 son independientes 
Pero las quejas de los bibliotecarios están cayendo en saco roto. Las bibliotecas públicas de todo el país son las víctimas preferidas de los asesores presupuestarios. En los últimos cuatro años, más de la mitad de los estados del país han recortado la ya ajustada financiación de las bibliotecas por encima del 10%. Los gobiernos estatales y locales con problemas de caja han visto en las bibliotecas una presa fácil. Un estudio de la Federación Nacional de Alcaldes afirma que, tras los servicios de mantenimiento de parques y jardines, los archivos de libros fueron la segunda opción preferida para pasar el cuchillo del ahorro: el 39% de los gobiernos locales reconoció que recortó el presupuesto a las bibliotecas durante el año pasado.
Para justificar la caza de brujas, los estadistas se basan en los informes que hablan de una caída del uso de estas instituciones para justificar los recortes. Desde mediados de 1990, la tendencia a la baja en el uso de la biblioteca ha sido bien documentada por medios y asociaciones. Con la rápida expansión de internet, los ciudadanos comenzaron a buscar respuestas en la forma más rápida y más conveniente. Una reciente investigación realizada por la Asociación de Bibliotecas de Investigación revela que las consultas se han reducido una media del 4,5% al año, mientras que los datos de circulación han caído al nivel de 1991.

Menos profesionalidad

Pero a este argumento también se le puede dar la vuelta: defender que las bibliotecas son mucho más que centros de lectura y que permiten a las personas sin recursos acceder a educación y utilizar nuevas tecnologías como ordenadores o internet. El Ayuntamiento de Filadelfia ha llegado a la conclusión de que los archivos públicos crearon un impacto económico en la ciudad de más de 30 millones de dólares en el año fiscal 2010. De hecho, se estima que 8.600 empresas no se han iniciado o mantenido sin los conocimientos adquiridos en la Biblioteca Pública de Filadelfia.
Con el presupuesto exprimido, si las bibliotecas quieren mantenerse abiertas, deben entregarse a la privatización. Varias sucursales de California se han visto obligadas a acudir a Sistemas de Bibliotecas y Servicios LLC (LSSI), una empresa que se compromete a mantenerlas en funcionamiento por menos dinero. "Las bibliotecas en California ya no podemos cumplir con nuestra misión básica", reconoce Clara DiFelice, responsable de la biblioteca del Distrito Beaumont, para quien "dejarse engullir por los depredadores a través de la privatización reducirá la profesionalidad de las bibliotecas".
El pasado mes de octubre, la biblioteca del municipio californiano de Santa Clarita fue la primera en retirarse del sistema del condado de Los Ángeles para firmar un contrato con LSSI. La decisión generó numerosas críticas y provocó que los votantes de California aprobasen la Proposición 22 en las elecciones legislativas de noviembre, impidiendo que el estado paliase su deuda desviando a sus arcas los fondos con los que se financian las bibliotecas. De hecho, el 93% de los estadounidenses cree que las bibliotecas, a las que acuden más de 87 millones de personas en todo el país, deben ser "un servicio público y gratuito".

Grandes y pequeñas librerías

La crisis bibliotecaria se ha trasladado también a las tiendas de libros. Tras el desmantelamiento de más de 200 establecimientos de la cadena Borders, en Estados Unidos apenas quedan 3.000 librerías, de las que únicamente entre 700 y 900 son independientes, es decir, no pertenecen a ningún gran grupo. Desde principios de año, varias librerías emblemáticas de todo el país han cerrado sus puertas esta semana, incluyendo la librería Cody de San Francisco, con más de medio siglo de historia y que se hizo famosa durante las protestas contra la Guerra de Vietnam dando cobijo a los estudiantes de la Universidad de Berkeley que huían de las cargas policiales y los gases lacrimógenos.
Detroit estudia cerrar todas sus bibliotecas y Denver, la mitad de ellas 
"Simplemente no teníamos trabajo. Nos hemos convertido en un gran almacén de libros con muchos gastos y pocos ingresos". Así justificaba el cierre de sus tiendas Andy Ross, propietario de una cadena de librerías en la que en sus momentos de gloria firmaron autógrafos autores y personalidades como Norman Mailer, Bill Clinton, Jimmy Carter, Tom Robbins, Mohammed Ali o Salman Rushdie, que fue atacado con un cóctel molotov durante su visita a Cody.
Pero no sólo los pequeños libreros independientes se han llevado el golpe de la caída del interés por los libros en formato papel. El gigante Barnes & Noble, el mayor grupo de venta de literatura, cerrará su tienda insignia en Nueva York a finales de año. Situada en uno de los lugares más exclusivos de la Gran Manzana, en el número 4 de Astor Place, la cadena no puede afrontar el alquiler. Según reconoció la portavoz del grupo, Mary Ellen Keating, "nos gustaría estar allí, pero realmente no nos lo podemos permitir".
La pregunta que ahora se hacen los agentes del sector es: si la situación actual es grave, cuando aún el 70% de los libros se compran en librerías, ¿qué sucederá cuando, como pronostican los expertos, las ventas online lleguen al 75% en 2020?

Gran Bretaña también se opone a los recortes

Cierre de bibliotecas
El recorte del gasto público iniciado por el Gobierno británico a principios de 2011 amenaza con el cierre de bibliotecas públicas, que podría llegar a afectar a 468 centros. El Consejo de las Artes confirmó que la reducción de fondos afectaría a museos pequeños, bibliotecas y archivos, cuya partida ha pasado de 13 a 3 millones de libras.
Manifestaciones
En febrero se organizaron hasta 40 manifestaciones, además de un llamamiento a la gente para que literalmente vaciara las estanterías, aunque luego debía devolver los libros. "La gente ama y utiliza sus bibliotecas", dice Alan Gibbons, uno de los impulsores de la campaña. "¿No es hora de que el Gobierno rectifique este programa destructivo e indiscriminado de cierres y haga lo mismo?" 

Un ‘videoclub' de libros para Washington

Las autoridades del condado de Washington (Minnesota) están dispuestas a degradar sus bibliotecas a poco más que máquinas de ‘vending'. La ciudad de Hugo será la primera en instalar el sistema denominado Library Express en poco más que un kiosco de autoservicio en el que se pueden solicitar, recoger y devolver materiales de la biblioteca. Los políticos han encontrado en esta suerte de ‘videoclub' electrónico la excusa perfecta para prescindir de la mayoría del personal de las bibliotecas públicas y lograr el equilibrio en sus maltrechos libros de cuentas. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Saiu na mídia #7 Livro em papel sempre terá um mercado

Caro leitor,

neste início de trabalho no novo emprego, na Cosac Naify, está díficil escrever para este blog. Enquanto não é possível escrever posts meus, permitam-me compartilhar assuntos ligados ao livro e às livrarias publicados na mídia. A entrevista abaixo saiu no The Wall Street Journal e tem informações bem interessantes.


Jeffrey A. Trachtenberg
The Wall Street Journal
Poucos executivos do meio editorial têm uma visão mais privilegiada da rapidez com que a tecnologia digital vem transformando o setor do que John Makinson, o diretor-presidente da Penguin Group, a divisão de livros da Pearson PLC.
A editora publica mais de 4.000 títulos de ficção e não ficção no mundo. Decidir como e onde vender todos esses livros está muito mais complicado do que quando Makinson assumiu a presidência, em 2002. Na época, o negócio de livros digitais era pequeno e o impacto de descontos na internet não se fizera sentir em sua totalidade.

Entre as decisões cruciais de Makinson está a adoção do "modelo de agência": nele, a editora estipula o preço de venda do livro digital e dá ao varejo 30% da receita. Hoje, o modelo está sendo examinado de perto por órgãos de defesa da concorrência nos EUA e na Europa.

A Penguin também é uma das três grandes editoras por trás do Bookish.com, site anunciado na sexta-feira que se concentrará em novos títulos e autores e venderá diretamente ao consumidor.

Diretor financeiro da Pearson de 1996 a 2002, Makinson, de 56 anos, também editou por um tempo a coluna Lex no "Financial Times". Recentemente, falou ao Wall Street Journal sobre e-books baratos, leitura digital e livrarias independentes.
[Penguin] Daniella Zalcman para The Wall Street Journal
John Makinson, diretor-presidente da Penguin, acredita que muitas pessoas querem presentear, compartilhar e guardar livros em papel
Trechos:

WSJ: O livro impresso, em papel, vai deixar de ser publicado um dia?
John Makinson: Não, não creio. Há uma diferença cada vez maior entre o leitor de livros e o proprietário de livros. O leitor de livros quer apenas a experiência de ler o livro e é um consumidor digital natural: em vez de comprar um livro barato descartável, compra um livro digital. Já o proprietário do livro quer presentear, compartilhar e guardar livros. Adora a experiência. À medida que formos melhorando o produto físico, em especial a brochura e a capa dura, o consumidor vai pagar um pouco mais por essa experiência melhor. Outro dia, fui conferir a venda de clássicos em domínio público em 2009, quando todos esses livros estavam disponíveis de forma gratuita. O que descobri foi que nossas vendas tinham subido 30% naquele ano. O motivo é que estávamos começando a vender edições de capa dura — mais caras — pelas quais o público se dispunha a pagar. Sempre haverá um mercado para o livro em papel, assim como creio que sempre haverá livrarias.

WSJ: A seu ver, qual será a participação de mercado do livro digital nos EUA em 2015?
Makinson: Bem mais de 30%. O ritmo de crescimento no Reino Unido e em outros mercados é um pouco mais lento do que se esperaria se olharmos para a experiência americana. É que a penetração de aparelhos de leitura se dá muito mais lentamente.

WSJ: A lista de best-sellers do Kindle, da Amazon, é dominada por títulos baratos, bancados pelo próprio autor. Muitos custam US$ 2,99 ou menos. Para editoras tradicionais, essas obras independentes são uma ameaça?
Makinson: Esse é um mercado novo que, economicamente falando, é inviável no formato em papel. Não há como imprimir, distribuir e fazer estoque de um livro a esse preço. Mas, como editoras, provavelmente teremos de participar. (...) Além disso, vamos olhar para o catálogo. Talvez haja público para um western de US$ 1,99. É preciso muito cuidado, no entanto, para garantir que esse novo mercado não comprometa as vendas de Clive Cussler, Tom Clancy, Patricia Cornwell e Ken Follett.

WSJ: Qual o maior desafio para as livrarias num momento em que há milhões de títulos em papel à venda na internet e no qual a receita com livros digitais está dobrando?
Makinson: O varejo [tradicional] de livros tem futuro. O problema, em grande parte, não é só que há livrarias demais, mas que são muito grandes. Como diversificar a oferta ao consumidor para fazer um uso produtivo do espaço sem perder a experiência de se estar em uma livraria?

WSJ: Livrarias independentes sempre tiveram um papel fundamental no lançamento de obras literárias. Com o crescimento do livro digital e da venda on-line, quantas dessas lojas independentes vão sobreviver, considerando que estão sujeitas às mesmas forças que afetaram redes de livrarias maiores?
Makinson: Tenho uma livraria independente na Inglaterra, [a Holt Bookshop, em Norfolk, de cerca de 230 metros quadrados], então tenho um interesse aqui. Não quero soar ingênuo: vai ser muito difícil. Se formos ver as vantagens competitivas estruturais da Amazon em relação a uma livraria convencional, é espantoso. Mas as pessoas estão dispostas a pagar um preço maior numa livraria independente sabendo que podem comprar [o mesmo livro] por menos em outro lugar. É que o consumidor tem um envolvimento emocional com a livraria, sente que a livraria está prestando um serviço público, não só comercial. Não vejo indícios de que as livrarias independentes se tornarão obsoletas.

WSJ: O sr. lê em formato eletrônico?
Makinson: Quando viajo, uso um aparelho digital, principalmente para leitura de manuscritos. Se for só para ler livros, provavelmente vou optar pelo Kindle. Mas, se quiser viajar com um aparelho que me dê acesso ao e-mail em trânsito, é possível que leve um iPad. Também leio livros em papel.

De como chegamos a este estado de coisas

  Em 11 de janeiro de 2020 foi registrada, na China, a primeira morte por Covid-19. A população mundial hoje está na ordem dos 7,8 bilhõ...