sexta-feira, 30 de julho de 2010

Saiu na mídia #3 Pequena livraria sai da crise com ajuda da internet

Já escrevi em vários posts sobre a necessidade das livrarias físicas, principalmente as pequenas, também terem e-commerce, além de fazerem uso das várias midias sociais existentes. A matéria a seguir prova que, além de ser fundamental para a manutenção do negócio livraria, é possível, sim. É só querer e ter a mente aberta para as oportunidades que estão ao redor.

Artigo de John Brant, da INC.
Publicado na revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios n. 257 de junho/2010


A Broadway Books, em Portland, estava prestes a fechar as portas, vítima da crise econômica americana. Até que o Twitter e a blogosfera surgiram em seu socorro, provando que as novas tecnologias podem, sim, resgatar velhos modelos de negócio
Por John Brant, da INC.

Em janeiro de 2009, a crise econômica mostrava sua face mais opressiva. Por toda parte, o que se via eram negócios fechando as portas e funcionários antigos perdendo seus empregos. Era um fim de tarde quando parei na livraria do meu bairro em Portland, estado de Oregon, para pegar alguns livros que minha mulher precisava para um curso. Eu era o único cliente. O silêncio parecia assustador. "Como vão as coisas?", perguntei à proprietária, Roberta Dyer, enquanto ela recebia o meu pagamento. Eu era um cliente habitual da Broadway Books havia mais de uma década, mas há meses não entrava na loja. Roberta fez uma pausa antes de responder, e imaginei o pior. "Nosso ano foi péssimo", admitiu. "Mas, em dezembro, aconteceu um milagre."

Há 17 anos, Roberta enfrentava com coragem o desafio de manter a loja aberta, mesmo diante da concorrência das franquias e das livrarias on-line. Nunca pensei nela como alguém que acreditasse em milagres. Por isso, ao ouvir sua resposta, imaginei que ela ainda estivesse abalada pelos fatos do ano anterior. Qualquer que fosse o golpe de sorte que havia salvado a livraria - uma herança de família, uma doação de um cliente ou outro fato inesperado - , o mais provável era que ainda estivesse muito emocionada para pensar claramente.

Eu estava enganado. A história que ela me contou a seguir era absolutamente surpreendente. Não é todo dia que as novas tecnologias, consideradas as destruidoras das antigas tradições, colaboram para manter de pé dois pilares da velha cultura - os livros e a tradicional loja de bairro, comandada pelo dono. (grifo meu) Mas não era só isso. O que eu ouvi de Roberta Dyer era uma história sobre uma mãe e um filho que se conectaram, apesar de sua diferença de gerações; sobre blogs, burritos e tempestades de neve; e sobre o poder de resistência quase místico das pequenas empresas locais. Só o cético mais insensível não chamaria aquilo de milagre.

Tudo começou na manhã de 8 de dezembro de 2008, durante a temporada de compras de fim de ano, quando a Broadway Books normalmente alcança 25% de suas vendas anuais. Sentada atrás do balcão de sua livraria vazia, cercada de pilhas de livros não vendidos, Roberta percebeu que o seu faturamento estava prestes a desabar. Ela havia aberto a livraria em 1992, depois de passar duas décadas trabalhando para uma loja de departamentos. Quando eu me mudei para o bairro, no ano seguinte, a Broadway Books já estava estabelecida. Era pra lá que os moradores do bairro se dirigiam quando queriam encontrar um bom livro.

Foi assim até setembro do ano passado. Mas aí tudo mudou. "Comecei a ver um olhar triste nas pessoas", lembra Roberta. "Era como se elas tivessem perdido a fé nas coisas mais básicas. Ninguém comprava mais nada nas lojas do bairro." Os meses de outubro e novembro foram igualmente sombrios. Diante dos maus resultados do início de dezembro, Roberta começou a perder a fé: talvez fosse mesmo hora de fechar as portas. Antes de tomar qualquer decisão, porém, decidiu ligar para o filho. Precisava dizer a ele que não encontrara aquele livro de música encomendado havia alguns meses. Mas, acima de tudo, precisava ouvir a voz do único filho. Aaron Durand, de 28 anos, estava em seu trabalho, numa empresa de calçados Birkenstock USA em Novato, na Califórnia, quando recebeu a ligação.

"Não consegui aquele livro para você", disse ela. "Tudo bem", respondeu o filho. "Não tenho pressa." Ela insistiu. "Você não entendeu, eu não posso te ajudar. Meus distribuidores não trabalham com essa editora. Você vai ter de entrar on-line, fuçar um pouco e encomendar o livro." Estranhando o tom desanimado da mãe, Aaron perguntou: "Está tudo bem com você?". Ela disse apenas: "Sinto muito, filho, não posso te ajudar". Encafifado, Aaron mandou um e-mail para o pai. "O que está acontecendo com a mamãe?" Foi David Durand quem deu a notícia ao filho: a Broadway Books ia fechar suas portas.

Aaron ficou atônito. Ele tinha 12 anos quando sua mãe abriu a loja. Roberta era tão dedicada à livraria que a família costumava dizer que ela era sua filha. Perdê-la seria um golpe terrível. Sem pensar, Aaron abriu o laptop, entrou em sua página no Twitter e começou a digitar: "Se você estiver em Portland, pode me fazer um favor? Compre um livro na Broadway Books. Não, espere, compre 3...". Ele costumava entrar no Twitter para contar aos amigos que música estava escutando ou falar sobre minigolfe. Mas, naquele momento, as palavras vieram com mais força. Aaron teve uma inspiração, e completou: "...e eu lhe pagarei um burrito na próxima vez que for à cidade", digitou.

Durand e seus amigos usavam burritos (o famoso prato mexicano) como um código. Era mais simpático dizer: "Eu te pago um burrito", do que: "Eu te devo 5 dólares". Ele não sabia por que havia associado os burritos às dificuldades de sua mãe, mas gostou do resultado final. Depois, decidiu que seu blog, chamado Everydaydude, também precisava entrar nessa batalha. O site recebia pouco mais de 20 acessos por mês, mas ainda era a melhor ferramenta que ele tinha à disposição. Naquele dia, escreveu: "A loucura que é a nossa situação econômica não estava me incomodando. O dono da empresa onde eu trabalho havia dito que não ia demitir ninguém. Não tenho ações, nem sequer sei como comprá-las. Vivo um dia de cada vez e gosto que seja assim. Então, foi preciso levar um tapa na cara para acordar. Isso aconteceu comigo ontem, e eu despertei."

Aaron continuou digitando, contando a história da mãe e explicando a importância da Broadway Books, tanto para a comunidade de Portland quanto para Roberta. Contou como havia descoberto que a loja estava em dificuldade. Confessou que quase havia chorado, mas disse que o desespero havia sido substituído pela raiva, e finalmente por uma decisão. "Então, vai ser assim. Vou estar em Portland de 15 a 19 de janeiro de 2009. Encontrem-me no Cha Cha Cha, no dia 16 de janeiro, às seis da tarde. Se você tiver um recibo da Broadway Books de mais de US$ 50, eu te pagarei um burrito. Passe isto adiante. Ganhe um burrito grátis! Apoie as empresas locais! Saia da internet!" Aaron fez uma pausa. Ele não era um escritor, mas sabia que seu texto precisava de um final atraente. "As dificuldades econômicas vão desaparecer. Se você acha isso impossível, tente ver as coisas com mais otimismo. Essa é uma virtude que aprendi com a minha mãe."

Depois de postar a mensagem, Aaron voltou ao Twitter a fim de colocar um link para o seu texto no blog. Seu raciocínio era simples: mesmo que apenas algumas pessoas comprassem na livraria, pelo menos seria um reforço psicológico para sua mãe. Ao entrar no Twitter, viu que sua mensagem havia sido retransmitida por um amigo de Portland. Depois disso, outros amigos "retwitaram" o texto. No total, a mensagem foi repassada 30 vezes.

Nos três dias seguintes, o Everydaydude recebeu três vezes mais visitantes do que o total dos dois meses anteriores. Amigos contaram a Aaron que haviam recebido e-mails de estranhos com um link para o seu blog. Nos escritórios da Nike e da Adidas em Portland, o texto de Aaron foi parar no e-mail de alguns funcionários, que o retransmitiram para toda a empresa. Na agência de publicidade Wieden+Kennedy, em Portland, Jeff Selis, um antigo cliente da Broadway Books, recebeu um e-mail com um link para o blog de Aaron. Selis repassou a mensagem para toda a empresa. Em resumo: o pedido sincero de Aaron havia se tornado viral. Quem não estava colocando nenhuma fé nessa história era sua mãe. "Eu não sabia se era a favor daquilo tudo", diz Roberta. "Fiquei comovida com a atitude do meu filho, mas estava muito abalada com a situação da loja."

Um dia depois da publicação do texto no blog, a Broadway Books teve 12 vendas a mais que na mesma data no ano anterior. O crescimento se manteve nos cinco dias seguintes. Em vez dos clientes habituais da loja, geralmente de meia-idade, os novos clientes tinham 20 ou 30 anos: eram jovens desenhistas de calçados da Nike e da Adidas; pessoas que usavam gorros, fones de ouvido, bicicletas. Todas compraram pelo menos três ou quatro livros - ou seja, estavam atendendo ao apelo de Aaron. Roberta assistia àquilo tudo com surpresa e gratidão, mas não tinha esperança de que as coisas fossem realmente mudar. Assim que a neve chegar, pensou, os clientes vão desaparecer de novo. A primeira tempestade de neve do ano aconteceu na segunda-feira, 15 de dezembro. O ar adquiriu um tom cinza, um vento ártico soprou e o gelo quebrou galhos de árvores e derrubou cabos de eletricidade. Ao ver as ruas cobertas de neve, Roberta teve certeza de que a festa havia acabado. Mal sabia ela que estava apenas começando.

Em busca de histórias com clima de Natal, a mídia de Portland decidiu apostar na história emocionante que envolvia livros, blogs e burritos. Um artigo sobre a batalha quixotesca de Aaron para salvar a livraria da mãe foi publicado na edição on-line de um jornal semanal. Uma afiliada de uma rede de TV produziu uma matéria para o noticiário noturno. Enquanto isso, a neve cada vez mais alta impedia que os caminhões entregassem as encomendas da Amazon e de outras livrarias on-line. Dirigir era impossível, mas o Natal se aproximava e as pessoas precisavam comprar. Foi aí que caiu a ficha dos habitantes de Portland: por que não fazer a coisa certa e ir até a livraria do bairro?

Enquanto tudo isso acontecia, Aaron Durand, o autor da mágica, acompanhava o movimento de longe. "Fiquei surpreso com a reação das pessoas", diz. "Achei que meus amigos leriam meu blog, e talvez uns poucos comprassem alguns livros. Jamais imaginei que minha mensagem atingiria tantas pessoas." Ao fechar as contas de dezembro, Roberta percebeu que o impossível havia acontecido: ela havia vendido 7% a mais do que no ano anterior. Mais do que isso: dezembro de 2008 ficaria para a história como o melhor mês de vendas da Broadway Books de todos os tempos. "Ganhei o ano", diz Roberta. "Paguei todas as contas e ainda entrei no ano novo com folga para respirar."

Agora, só faltava Aaron cumprir o acordo que havia feito com a blogosfera e pagar um número desconhecido de burritos para todo mundo que aparecesse no Cha Cha Cha, em Portland. No dia 16 de janeiro, uma equipe de televisão compareceu ao local para registrar o grande evento. Aaron e sua mãe pagaram 80 burritos e o restaurante preparou mais 40. O comparecimento foi pequeno, mas entusiástico: eram principalmente amigos de Aaron e de seus pais. A maioria dos convidados não fez questão de comer de graça, apenas participou da festa. E a equipe de TV conseguiu sua matéria comovente para o jornal da noite.

Terminadas as férias, o filho de Roberta Dyer voltou para São Francisco, na Califórnia, e retomou seu trabalho na Birkenstock USA, em Novato. Em sua primeira manhã de volta, Aaron foi chamado ao escritório do presidente da empresa. "Pensei que ele fosse me despedir, porque eu havia gasto tempo demais no projeto da Broadway Books quando deveria estar trabalhando", diz Aaron. "Em vez disso, ele me deu parabéns e disse que tinha ficado impressionado com a maneira criativa como usei as redes sociais. Depois, me deu um aumento e me promoveu para o departamento de marketing da companhia."

Um mês depois da minha primeira visita, em fevereiro de 2009, retornei à Broadway Books. A livraria estava silenciosa. Um casal de meia-idade parou para fofocar e examinar os lançamentos, mas saiu sem comprar nada. "É assim que são as manhãs", disse-me Roberta. "Os negócios melhoram à tarde e durante o fim de semana. Domingo é nosso dia mais movimentado." Depois de uma breve pausa, ela continuou: "É claro que o que aconteceu em dezembro não salvou a livraria a longo prazo. A reação do público ao blog de Aaron foi uma coisa isolada, e só funcionou porque não foi forçada ou premeditada. Mas serviu para lembrar às pessoas a importância das lojas de bairro. Serviu para lembrar que o lugar onde você compra seus livros é importante. Por falar nisso, o que você está lendo?". Infelizmente, tudo o que havia lido nos últimos meses era a seção de esportes do jornal, respondi. "Venha comigo", ela disse, com um brilho nos olhos. "Acho que tenho uma coisinha aqui que você vai gostar."

domingo, 25 de julho de 2010

Saiu na mídia #2 Pinguim das Letras

Artigo de Raquel Cozer
Publicado no
O Estado de São Paulo em 16.07.2010

O logotipo mais famoso do mercado editorial mundial, o da ave marinha que dá nome à gigante Penguin, sofreu apenas retoques sutis desde que, em 1935, o editor britânico Allen Lane decidiu suprir o mercado com livros que fossem ao mesmo tempo baratos e bem editados. Menos tímida foi a expansão da empresa desde então. Ao longo das décadas, a Penguin ampliou seus domínios a outros seis países com idioma inglês, incluindo Estados Unidos, Canadá e Austrália.

E eis que agora, aos 75 anos, o pinguim conclui um terceiro passo em seu projeto expansionista para praias de idiomas estrangeiros. Após fazer parcerias com editoras na China e na Coreia do Sul, o braço americano da Penguin concretiza neste mês o acordo com a brasileira Companhia das Letras, anunciada no ano passado, para a publicação em português de títulos do selo Classics - que por aqui vira Penguin Companhia Clássicos. Já em pré-venda em grandes livrarias, chegam às lojas no próximo dia 26 os quatro primeiros filhotes dessa joint-venture: O Príncipe, de Maquiavel, Pelos Olhos de Maisie, de Henry James, e dois títulos organizados pelo historiador Evaldo Cabral de Mello, Joaquim Nabuco Essencial e O Brasil Holandês.

"Avaliamos de perto o mercado brasileiro e vimos grande potencial editorial. É um país em crescimento e no qual há espaço para edições de alta qualidade de clássicos da literatura", disse, por telefone ao Estado, de Nova York, o CEO da Penguin, John Makinson. Os títulos lançados por aqui custarão de R$ 15 a R$ 35, com tiragens que podem chegar a 18 mil cópias (caso de O Príncipe), num mercado em que o mais comum é lançar livros com algo em torno de 3 mil exemplares. Por exigência da Penguin, todos os volumes sairão também no formato digital, com preços de 30% a 40% menores que os das edições impressas.

Makinson, que participará da Flip no próximo dia 6, em mesa com o historiador americano Robert Darnton sobre o futuro dos livros, é um árduo defensor do formato digital. Seu trabalho nesse sentido lhe rendeu, neste ano, a 76.ª colocação no ranking da Media Guardian sobre os mais importantes nomes da mídia, numa rara seleção de um profissional do mercado editorial.


'O desafio é tornar a leitura interessante nos E-BOOKS'
Entrevista de John Makinson a Raquel Cozer
Publicado no
O Estado de São Paulo em 16.07.2010

Previsão. "Aposto que o Brasil em breve será forte em digital", diz o CEO da Penguin americana.

Uma exigência da Penguin na parceria com a Companhia das Letras foi que todos os livros da coleção Clássicos também saíssem no formato digital. Por quê?

Nos EUA, o mercado de e-readers vem crescendo rapidamente. Em pouco tempo, eles se tornaram plataformas atraentes para o leitor. No Brasil, as opções de leitores eletrônicos em celulares ou tablets ainda são incipientes, mas aposto que em poucos anos haverá um mercado significativo. Essa é uma razão. Outra razão foi entendermos que é possível oferecer bom material extra na literatura em formato digital. Por exemplo, se você pega Jane Austen, Orgulho e Preconceito, pode enriquecer o conteúdo digital com descrições de características do período, informações históricas sobre lugares onde os fatos se passam, trabalhos críticos. Tenho confiança na ideia de testar limites editoriais e acho que o Brasil logo terá mercado para isso. Você, que vê esse mercado de perto, o que acha?

O que me chama a atenção é o receio que editores têm de apostar nesse mercado. Tivemos em São Paulo um congresso sobre livro digital, e era dúvida recorrente a questão dos lucros. É possível lucrar com e-books?

Sim, claro que sim, porque o e-book não exige nada de manufatura, não exige investimento em distribuição e estoque. Você ainda tem o investimento, é claro, na edição, na divulgação do livro, mas não há custos físicos. Então a questão é: você pode determinar o preço do livro de forma que o consumidor fique satisfeito, e também o editor? Essa é uma das questões sobre as quais vou falar na Flip.

Já é lucrativo para a Penguin?

Sim, claro. Por que não seria?

Devido à pirataria, por exemplo.

Sim, isso é um fato. Mas no mercado do livro não tem sido como foi no da música. Há várias diferenças. Uma é que a psicologia do consumidor é outra. Na música, é interessante para jovens ter enorme quantidade de faixas no iPod, milhares delas. Não é cool ter milhares de livros no e-reader, porque ninguém conseguirá lê-los. Isso é um ponto. Outro ponto é que a indústria da música descobriu que o consumidor não queria comprar o álbum, e sim a faixa. Então o modelo desenvolvido por muito tempo não era o ideal. Não é o caso do livro. Não temos evidência de que as pessoas estejam interessadas em comprar capítulos, elas querem o livro. E, em terceiro lugar, as pessoas têm relação sentimental com o livro. Uma coisa importante na Penguin é a certeza de que os livros sejam bonitos para que as pessoas queiram ter e colecionar.

Mas na música também havia relação sentimental com álbuns. Será que as novas gerações terão essa relação com os livros?

Não sei! Creio que sim. Acho que há algo duradouro na relação sentimental com o livro. Nos EUA a oportunidade para pirataria e infração de direitos autorais já existe há muitos anos, há muitos sites de upload de conteúdo de livros. Não digo que não seja um problema. É um problema, mas não é "o" grande problema como na música. As vendas na Penguin continuam bem. Não estamos encolhendo, estamos crescendo.

Qual a parcela de livros da Penguin vendida no formato digital?

Os e-books chegam a 10% das nossas vendas. O que percebemos foi que há livros mais adequados para o formato digital que outros. Não são categorias totalmente consistentes, mas um novo best-seller, por exemplo, tem mais potencial para conteúdo extra na versão digital que um clássico, já que o próprio autor pode produzir esse conteúdo. O que é interessante é tentar entender o que o consumidor não compra quando compra o e-books, se deixa de comprar o livro hardcover (de capa dura, em geral a primeira edição de livros nos EUA) ou o paperback (tipo brochura).

Você foi citado no ranking dos nomes mais importantes da mídia em 2010 segundo o MediaGuardian por ações no mercado digital. Quais os próximos passos da Penguin nesse sentido?

O interessante desse ranking foi o argumento de que estamos redefinindo a indústria do livro. Alguns dos aplicativos que estamos desenvolvendo serão bem diferentes de tudo o que fizemos até agora. A maneira como apresentamos informações de viagem no iPad, ou como fazemos livros ilustrados para criança virem à vida, ou ainda como envolvemos redes sociais e comunidades de um jeito novo no mercado para adolescente. Isso tudo é muito novo e requer novas habilidades de editores. Significa que temos de entender novas tecnologias, novos critérios para determinar preços, temos de ser criativos na maneira de pensar no leitor. Não diminuo as questões que você levantou, a pirataria, a preocupação com lucro, são questões sérias. Mas, acima de tudo, estamos muito otimistas.

A digitalização de clássicos que o Google promove pode prejudicar as vendas da Penguin?

Bem, você pode obter no Google os clássicos em domínio público, mas, se fizer isso, a experiência de leitura não será atraente. Eles digitalizam e escaneiam manuscritos originais, e estes são os velhos, difíceis de ler. Mas eles no Google são espertos, logo darão jeito de melhorar isso. Com isso, nos desafiam a pensar em como tornar os Clássicos da Penguin realmente atraentes por seus preços. A questão é: o que você compra quando compra nossos clássicos é design, introduções, qualidade de tradução, notas de rodapé. Devemos deixar claro para o leitor o que temos de diferente, porque estamos propondo que comprem por uma quantia razoável de dinheiro algo que podem conseguir de graça. É um desafio interessante.


Penguin e Cia. das Letras: Desafio é rejuvenescer os clássicos
Publicado na TV Estadão em 20.07.2010

Assista ao vídeo sobre o lançamento do selo Penguin-Companhia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Saiu na mídia #1 Como estarão as livrarias em cinco anos?

Caros leitores, como tem saído muita matéria sobre o negócio do livro e, como nem sempre é possível ter acesso a elas, vou passar a transcrever na íntegra esse material para que possa vir a ser lido, acompanhado e discutido pelos interessados. Esses "posts", que NÃO são de minha autoria, terão o título iniciado com "Saiu na mídia #(contador) e o título original da matéria". No início do texto do post virá o nome do autor e onde foi publicado, além do link para a mídia original.

Artigo de Mike Shatzkin

Publicado no PublishNews de 21/07/2010


Como estarão as livrarias em cinco anos?
O futuro das livrarias é uma questão existencial para os editores de livros de hoje (sem mencionar os livreiros!).

Upton Sinclair disse certa vez que “é difícil para um homem entender uma coisa quando o seu salário depende dele não entender essa coisa.” Continuo apresentando fatos sobre as realidades comerciais do mundo editorial que eu acredito que a maioria das pessoas espertas que administram seus negócios aceita, juntamente com as previsões de futuro que eu penso que a maioria das pessoas espertas que administram seus negócios aceita e apresentando uma visão de onde estaremos num futuro próximo que eu acho que muito poucas pessoas aceitarão.

Definitivamente nós passamos pelo que Michael Cader chamou de “o auge das livrarias” nos Estados Unidos. Espaço na prateleira para livros está provavelmente caindo mais rápido que o número de lojas enquanto os vendedores de livros procuram por produtos que deixem seus clientes ainda mais satisfeitos e deixam esses produtos no espaço anteriormente dedicados aos livros. E o espaço em prateleira para editoras que não possuem livrarias próprias está caindo ainda mais rápido porque a Barnes & Noble, a líder em oferecer espaço em suas prateleiras, está apostando agressivamente em seus próprios produtos tanto para melhorar sua margem de lucro como para oferecer produtos que os competidores não ofereçam.

O futuro das livrarias é uma questão existencial para os editores de livros de hoje (sem mencionar os livreiros!). Apesar de não ser sempre dito com todas as letras, a principal questão para a indústria editorial é que elas consigam colocar livros nas prateleiras. Todo o resto que elas fazem (e frequentemente o fazem muito bem) – selecionar, editar, desenvolver, empacotar, e promover – é um argumento fraco. E normalmente não se pode medir. Uma grande editora e um agente adicionariam a essa lista a função “financeira”: pagar adiantado para o autor escrever o livro. Mas eu diria que isso também é um argumento fraco (tem um monte de dinheiro lá fora esperando por oportunidades de investimentos) então a oportunidade da editora ser inclusive o banqueiro também depende da habilidade da editora de colocar livros nas prateleiras das livrarias.

Então, sabendo disso ou não (e, nos níveis mais altos das maiores editoras, eles com certeza sabem) a vantagem competitiva da indústria editorial é totalmente dependente da sobrevivência do espaço na livraria física, de tijolos, o que é muito diferente da venda total de livros e mesmo da venda total de livros impressos. Você não precisa de uma organização com o tamanho ou a capacidade das maiores editoras para alcançar clientes por canais online. E, de fato, porque as maiores editoras são horizontais no que diz respeito aos seus negócios, o tamanho delas é mais uma desvantagem do que vantagem para competir no mercado online.

Nós consumimos uma grande quantidade de produtos de uma indústria considerando que o Nook e o Kindle sobreviverão ao iPad e outros tablets. Eu diria que isso não nos interessa de verdade. O mais importante é que mais e mais pessoas estão lendo em telas, do que pessoas que diminuíram as compras de livros em papel (um fato recentemente documentado no estudo sobre consumo de ebook da BISG-Bowker), e o fato de que as compras de livros digitais são feitas online com pouco espaço para participantes reais (apesar de um maravilhoso vídeo francês de quatro anos atrás e uma explosão de otimismo ingênuo de um executivo da ABA em uma mesa de debates da BEA).

(Parágrafo da divagação: uma visão muito mais realista do que eBooks e compras online significam para livrarias independentes hoje em dia é uma visão pessimista de um blog de um dos líderes nacionais das independentes, Northshire Bookstore de Manchester, Vermont. Nós sabemos que o Google alimenta as esperanças de que eles podem oferecer uma inclusão significativa para as independentes no mercado de eBook. Mas mesmo que os esforços do Google surtam efeito, eles não apóiam a loja independente, eles apóiam o dono da loja. Há uma diferença.)

Então a corrida entre os eReaders dedicados, baseados em e-ink e os tablets de múltiplas funções acelera o movimento de consumo do livro impresso para o digital; e o movimento de consumo de livro impresso para livros digitais acelera a mudança da compra em loja para a compra online; e a mudança para compra de livros online, sejam impressos ou digitais, acelera a redução de espaço nas prateleiras das livrarias reais.

E a redução do espaço das lojas reais desafia cada vez mais a principal questão de todas as maiores editoras de livros. Em junho, um painel com CEOs de editoras sugeriu um consenso de que entre 40% e 50% do total da venda de livros em cinco anos será eBooks. Alguns dias atrás, outra executiva de uma editora líder de mercado, Gina Centrello da Random House, fez a mesma previsão. Eu acho, se é que acho alguma coisa, que essas previsões são conservadoras, mas se nós as aceitarmos como estão, as implicações são profundas.

Metade das vendas sendo digital significa que metade das transações já será online. Isso chama a próxima pergunta, que é: “Quanto da outra metade será online e quanto será na loja física?” A resposta para essa questão depende de duas variáveis: as preferências de compra dos consumidores e a capacidade das lojas em se manter abertas mesmo com queda nas vendas. As duas variáveis estão conectadas: quanto mais longe de você está uma livraria decente, mais perto você está de comprar online. E quanto mais você compra online, maior a probabilidade de que a loja mais perto irá fechar.

É uma estimativa conservadora a de que 20% das vendas de livros impressos são realizadas online e que os eBooks correspondem entre 5 a 8% do total das vendas. Isso significa que o consenso estima que a fatia de mercado de eBook vai crescer entre 5 e 10 vezes nos próximos cinco anos. Isso não é irracional porque a venda de eBooks mais que dobrou anualmente nos últimos anos e essas 10 vezes seria apenas algo em torno de duas e meia a três “dobras” em cinco anos. (Centrello disse que eles aumentaram de 3% para 10% no ano passado e, sem saber precisamente que período é compreendido por “ano passado”, nós certamente esperamos mais do que o efeito iPad para o “próximo ano”.)

Esse tipo de crescimento em vendas de eBooks sugere um público leitor cada vez mais digitalmente confortável. O que faz deles mais prováveis compradores online também. Então isso é uma estimativa conservadora de vendas online de livros impressos para daqui cinco anos. Não dá pra aumentar de 5 a 10 vezes e ainda sobrar alguma venda em lojas físicas. Então vamos dizer (e eu diria bem conservadoramente), que as vendas de impressos em 2015 serão metade online e que o espaço na prateleira sobreviverá o bastante para que metade das vendas seja em lojas reais. (Eu tenho que dizer enquanto escrevo isso que eu mesmo tenho problemas em acreditar nisso, mas a maioria das pessoas teria ainda mais problemas em acreditar em mim, se eu dissesse o que me desse na telha.)
Essa conta deixa a venda de impressos através das lojas em 25% do total das vendas de livros. Hoje, se a venda de impressos de uma loja está em 80% nós presumimos os impressos sejam 90% do total de vendas de livros (usando os 10% da Centrello como base para uma tentativa mais conservadora para este cálculo específico), então estamos falando em uma queda de 72% das vendas em lojas físicas hoje para 25% em cinco anos! Isso significa uma perda de aproximadamente dois terços das vendas atuais! E isso vale para todas as lojas: cadeias de livrarias, livrarias independentes e grandes varejistas.

Eu não estou ouvindo nada nas declarações de editoras ou executivos de livrarias que sugiram que alguém esteja se preparando para mudanças tão drásticas. E não vejo nada nas tendências que sugerem que nós podemos evitá-las.

Fale a verdade. Se eu tivesse entitulado esse texto, “Executivos da indústria prevêem queda de livros em lojas físicas em 65% em cinco anos”, você não começaria a ler achando que eu estivesse louco, certo?

Escrevi um post três meses atrás chamado Why are you for killing bookstores? que foi um assunto similar, focando nas relações de ontem e de hoje entre o crescimento dos eBooks e a sobrevivência das livrarias (Quando um cresce, o outro cai). Foi um dos posts mais comentados nos 17 meses em que escrevo este blog. Eu acho que isso é o resultado do que pode ser a consequência natural da máxima de Sinclair que é mais ou menos assim: “É muito difícil fazer alguém entender algo quando entender isso ressalta o conflito entre duas ideias que o atraem.”

sábado, 10 de julho de 2010

2010 Será o Início do Fim das Pequenas Livrarias?

Para quem ainda não se deu conta, 2010 ficará marcado na história do mercado do livro no Brasil, como o ano no qual a concentração no mercado livreiro (livrarias), chegou a um ponto irreversível, isto é, daqui para a frente a concentração da venda de livros aumentará, e muito, nas livrarias de redes, ano após ano. Alerto também que, caso não seja mudado nada no atual dia-a-dia das pequenas livrarias, para aquelas que têm uma única loja e que também não estão na web, 2010 poderá ser considerado como o ano do início do seu fim, do seu "fechar as portas", e isto num prazo de até cinco anos. Sempre existirá uma ou outra exceção, mas a tendência é o fechamento.

Partindo da premissa que não sou "maluco" e/ou "vidente", que dados tenho eu para fazer as afirmações acima? Voltando um pouco no tempo, em agosto de 2007 a Saraiva anunciou (é obrigada a fazê-lo por ter ações na Bolsa de Valores) que estava em negociações para a compra da Siciliano. Naquele ano de 2007 a posição de algumas das principais redes de livrarias era a seguinte:
com 63 lojas, a Siciliano, sendo 52 próprias e 11 franqueadas;
com 36 lojas, a Saraiva;
com 7 lojas, a Cultura;
com 7 lojas, a Fnac.

Além destas, outras redes também estavam em processo de expansão, como a Travessa no Rio, a Livraria da Vila em São Paulo, a Livrarias Curitiba na região Sul e a Leitura em Minas Gerais. No dia 6 de março de 2008 foi feito o anúncio da compra da Siciliano pela Saraiva que, portanto, passou a ter 99 lojas. Coincidência ou não, o processo de expansão das outras redes foi acelerado. A Livraria Cultura vinha abrindo uma loja por ano desde 2003 (Porto Alegre). Abriu Recife em 2004, Brasília em 2005, Market Place em São Paulo em 2006, a grande loja do Conjunto Nacional (4.300m²) em 2007. Em 2008 houve a aceleração com a abertura da loja em Campinas, da loja customizada da Cia das Letras no Conjunto Nacional e da loja do shopping Pompeia também em São Paulo. Em 2009 foi aberta a loja na Villa Daslu, além de mais duas lojas customizadas no Conjunto Nacional: IMS-Instituto Moreira Sales e Record. Em 2010 já foram abertas uma loja em Brasília (a 2ª, portanto) e outra em Fortaleza. Em agosto próximo mais uma loja da Cultura será inaugurada, agora em Salvador.

A Fnac estava com o processo de expansão parado em 2006, quando abriu no shopping Morumbi em São Paulo. Voltou a abrir lojas em 2008 em Porto Alegre e em 2009 em Ribeirão Preto, SP. Em novembro de 2010 abrirá em Belo Horizonte, no BH shopping.

A própria Saraiva não ficou acomodada e em 2009 reformou 30 lojas da bandeira Siciliano. Além disso, entre 2009 e 2010 abriu (abrirá) mais 11 lojas, como por exemplo em Manuas, Salvador, Caxias do Sul e Vitória. Como algumas das lojas da bandeira Siciliano foram fechadas, por serem deficitárias ou por estarem em espaço físico próximo demais das da bandeira Saraiva, o total de lojas neste momento da Saraiva é de 100, sendo 92 próprias e 8 franqueadas.

O que chama atenção na expansão relatada acima é que todas as lojas foram abertas em shoppings. Fica claro que não é uma mera coincidência e, sim, uma tendência do mercado varejista que tem (terá) consequências gigantescas para o mercado do livro no Brasil. Seguem alguns números relativos aos shoppings no Brasil.

No ano 2000 existiam 280 shoppings em atividade. Em 2009 o número chegou a 396 shoppings, o que é um crescimento de 41,43%. Em número de lojas o crescimento é bem mais elevado: de 34.300 lojas no ano 2000, para 70.436 lojas em 2009. Aumento de 105,35%. Um dado mais impressionante é este: a circulação média de pessoas nos shoppings por mês em 2009 foi de 348 milhões. Para comparação, a população do Brasil em 2009 era de 190 milhões de pessoas.

Para este ano de 2010 estão previstos 17 shoppings e para 2011 a previsão é de mais 26. Portanto, fica clara a migração do comércio varejista para os shoppings. O problema, no caso das pequenas livrarias, é que o custo de manutenção de uma loja em shopping é elevado demais para o seu perfil. Logo, a cada shopping que abre, mais uma loja das principais redes é inaugurada nesse espaço privilegiado de comércio e, assim, a cada mês, os clientes das pequenas livrarias tenderão a comprar nas livrarias dos shoppings, minando pouco a pouco, e de forma irreversível, a existência da pequena livraria.

Para o caso de alguém ainda ter dúvidas sobre o relatado acima, mais alguns dados:
Saraiva tem 66 das 100 lojas em shoppings: 66,00%
Leitura tem 22 das 26 lojas em shoppings: 84,62%
Curitiba tem 13 das 17 lojas em shoppings: 76,47%
Cultura tem 10 das 11 lojas em shoppings: 90,91%
Fnac tem 7 das 9 lojas em shoppings: 77,77%

No caso da Saraiva, por ter ações em Bolsa de Valores, é possível ter acesso a dados sobre o faturamento. E esses dados mostram bem a importância do shopping. Das 100 lojas, 37 delas são megastores. Essas megas representaram 47% do faturamento da Saraiva. Resumindo, 37% das lojas físicas representaram 47% do faturamento. Mais um dado fundamental: 33% do faturamento veio da ponto.com da Saraiva. Somou? É isso mesmo: 80% do faturamento da Saraiva provém das megastores (que estão nos shoppings, com uma exceção, no Rio) e da internet.

Vivemos um momento em que cada editora e cada livraria tem que repensar seu negócio, sob pena de ser excluído do mercado do livro. A era da profissionalização bate à porta diariamente e não é mais possível continuar a trabalhar do mesmo modo que se trabalhava no fim do século passado. Os exemplos de fechamento de livrarias são noticiados com frequência no PublishNews. A mais recente foi a Livraria Alemã, com 60 anos de história em Blumenau. Uma loja bem grande, mas fora do shopping.

Fica portanto o alerta e a esperança que as pequenas livrarias ainda tenham tempo para se reinventar. Um dos caminhos é a internet. É necessário que tenham páginas virtuais interessantes e interativas com seus leitores/clientes. Que participem nas comunidades sociais de relacionamento. É preciso ir em busca do cliente onde ele estiver, e não ficar esperando que ele entre na sua loja. Os novos clientes até existem, mas e os novos livreiros? O que é ser um novo livreiro? É uma questão de idade ou de atitude?